Racismo? Festa de diretora de revista remete à escravidão e causa polêmica

Entidades e ativistas ligados ao movimento negro se manifestaram após fotos da festa serem publicadas nas redes sociais

Foto de Donata que gerou polêmica (Foto: Reprodução)

O assunto do fim de semana nas redes sociais foi a polêmica festa de aniversário de Donata Meirelles, diretora da Vogue Brasil. Celebrada em Salvador, a festa teve como tema referências ao Brasil Colônia, inclusive com mulheres negras usando fantasias que lembravam as roupas usadas por escravas mucamas e fotos em que Donata aparece sentada em um trono como os usados pelas sinhás daquela época. A celebração foi acusada de racismo.

Entidades e ativistas ligados ao movimento negro se manifestaram após fotos da festa serem publicadas nas redes sociais. A cantora Elza Soares publicou um extenso texto em sua página no Instagram em que fala sobre a ferida histórica deixada pela escravidão: “Não faço juízo de valor sobre quem errou ou se teve intenção de errar. Faço um alerta! Quer ser elegante? Pense no quanto pode machucar o próximo, sua memória, os flagelos do seu povo, ao escolher um tema para “enfeitar” um momento feliz da vida. Felicidade às custas do constrangimento do próximo, seja ele de qual raça for, não é felicidade, é dor. O limite é tênue.”

 

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Gentem, sou negra e celebro com orgulho a minha raça desde quando não era “elegante” ser negro nesse país. Quando preto não usava o elevador dos “patrões”. Quando pretos motorneiros dos bondes eram substituídos por brancos em festividades com a presença de autoridades de pele branca. Da época em que jogadores de um clube carioca passavam pô de arroz no rosto para entrarem em campo, já que não “pegava bem” ter a pele escura. Desde que os garçons de um famoso hotel carioca não atendiam pretos no restaurante. Éramos invisíveis. Celebro minha raça desde o tempo em que gravadoras não davam coquetel de lançamento para os “discos dos pretos”. Celebro minha origem ancestral desde que “música de preto” era definição de estilo musical. Grito pelo meu povo desde a época em que se um homem famoso se separasse de sua mulher para ficar com uma negra, essa ganhava o “título” de vagabunda, mas não acontecia se próxima tivesse a pele “clara”. Sou bisneta de escrava, neta de escrava forra e minha mãe conhecia na fonte as histórias sobre o flagelo do povo negro. Protesto pelos direitos da minha raça desde que preta não entrava na sala das sinhás. Gentem, essas feridas todas eu carreguei na alma e trago as cicatrizes. A maioria do povo negro brasileiro. Feridas que não se curaram e são cutucadas para mantê-las abertas demonstrando que “lugar de preto é nessa Senzala moderna”, disfarçada, à espreita, como se vigiasse nosso povo. Povo que descende em sua maioria dos negros que colonizaram e construíram o nosso país. Hoje li sobre mais uma “cutucada” na ferida aberta do Brasil Colônia. Não faço juízo de valor sobre quem errou ou se teve intenção de errar. Faço um alerta! Quer ser elegante? Pense no quanto pode machucar o próximo, sua memória, os flagelos do seu povo, ao escolher um tema para “enfeitar” um momento feliz da vida. Felicidade às custas do constrangimento do próximo, seja ele de qual raça for, não é felicidade, é dor. O limite é tênue. Elegância é ponderar, por mais inocente que sua ação pareça. A carne mais barata do mercado FOI a carne negra e agora NÃO é mais. Gritaremos isso pra quem não compreendeu ainda. Escravizar, nem de brincadeira. Seguimos em luta ✊🏾

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Outra ativista negra a se manifestar foi a filósofa e escritora Djamila Ribeiro, que publicou um vídeo em suas redes sociais: “Essa festa tratou pessoas negras de maneira muito desrespeitosa, remetendo a uma herança colonial. O que me incomoda em tudo isso é a conivência. As pessoas que lá estavam agem como se nada tivesse acontecido”, disse. Entre os convidados, estavam famosos como Caetano Veloso e Ivete Sangalo.

 

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Quem de fato é aliado e quem “vende” os seus

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No sábado, após a repercussão negativa, Donata fez uma postagem em suas redes pedindo desculpas: “Respeito a Bahia, sua cultura e suas tradições, assim como as baianas, que são Patrimônio Imaterial desta terra que também considero minha e que recebem com tanto carinho os visitantes no aeroporto, nas ruas e nas festas. Mas, como dizia Juscelino, com erro não há compromisso e, como diz o samba, perdão foi feito para pedir”.

 

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Ontem comemorei meus 50 anos em Salvador, cidade de meu marido e que tanto amo. Não era uma festa temática. Como era sexta-feira e a festa foi na Bahia, muitos convidados e o receptivo estavam de branco, como reza a tradição. Mas vale também esclarecer: nas fotos publicadas, a cadeira não era uma cadeira de Sinhá, e sim de candomblé, e as roupas não eram de mucama, mas trajes de baiana de festa. Ainda assim, se causamos uma impressão diferente dessa, peço desculpas. Respeito a Bahia, sua cultura e suas tradições, assim como as baianas, que são Patrimônio Imaterial desta terra que também considero minha e que recebem com tanto carinho os visitantes no aeroporto, nas ruas e nas festas. Mas, como dizia Juscelino, com erro não há compromisso e, como diz o samba, perdão foi feito para pedir.

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Nesta segunda-feira, a Associação das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivo e Similares da Bahia (Abam) se manifestou sobre o ocorrido e disse ao jornal A Tarde, da Bahia, que tudo não passou de uma “má interpretação”. A coordenadora da Abam, Angelimar Trindade, disse que a associação foi contratada para fazer o receptivo da festa e rebateu a informação de que as baianas fizeram o papel de escravas.

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