30ª Festa do Pinhão retoma a tradição e a cultura da Serra Catarinense

Lages comemora os 30 anos do evento com o retorno da programação campeira

Rainha Andressa Kizyzanoski Bordignon, ao centro, com vestido que remete à gineteada. Foto: Hans Peter/Divulgação

Quando pensamos em Festa do Pinhão, várias coisas vêm à cabeça: o ar gelado da Serra, as delícias típicas preparadas com a semente, o quentão (ou o dulcíssimo ponche), a hospitalidade e simpatia do povo lageano e a programação cheia de shows nacionais bombados. A fórmula que mistura tudo isso vem garantindo o sucesso da festa desde a primeira edição oficial, em 1989. Ainda assim, a comunidade da região de Lages sentia falta de uma programação campeira que viesse para somar e representar os costumes do povo serrano.

Por isso, a edição deste ano comemora 30 anos da festa e busca resgatar o tradicionalismo e a cultura da Serra Catarinense – nos três primeiros dias, o destaque ficou com o retorno das provas campeiras, uma forma de homenagear as origens do próprio evento – cujo embrião se formou muito antes de ele ser nacionalizado e entrar oficialmente para o calendário oficial da cidade. Provas como gineteada, vaca parada e apresentações de invernadas artísticas dos CTGs de Lages voltaram à programação da Festa do Pinhão.

— A decisão pela volta desse tipo de atração foi porque a festa nasceu assim em 1973, através do seu criador Aracy Paim, que reuniu um grupo de tradicionalistas na Praça João Costa, no centro da cidade, com o objetivo de valorizar a cultura serrana. A edição deste ano da gineteada lotou as arquibancadas. Os festivais Sapecadas também ajudaram a criar esse perfil tradicionalista na Festa. São 26 anos de Sapecada da Canção Nativa e 18a de Sapecada da Serra Catarinense — explica Fabrício Furtado, coordenador de articulação e difusão cultural da Fundação Cultural de Lages. Assim como as Sapecadas, que já fazem parte da agenda oficial do evento, a ideia é que a programação campeira e tradicionalista continue e seja ampliada nos próximos anos.

Para comemorar o aniversário, os vestidos da realeza também foram especiais nesta edição. Pela décima vez, os trajes levam a assinatura de Berenice Lopes Omizzolo, do La Unica Ateliê, que resgatou as origens da festa e criou bordados e aplicações inspirados na gineteada, na gralha-azul e na araucária.

Detalhe da gralha azul bordada no vestido da 1ª princesa. Foto: Filipi Mota/Divulgação

Ex-professora, Berenice começou a desenhar roupas para o Real Ballet Diocesano – na época, ela contratava uma costureira para criar as peças que ela desenhava. Depois de aposentada, especializou-se em vestidos de festas e logo foi convidada para criar os trajes da Festa do Pinhão. Hoje, comanda o ateliê ao lado da filha Ana Lopes, que se formou em moda e também é influenciadora digital na área de moda plus size. Elas têm cinco colaboradoras e se orgulham de poder dizer que, neste ano, os vestidos da realeza foram criados com mão de obra 100% lageana.

— Nos outros anos, os bordados tinham que ser feitos em Florianópolis porque aqui não tinha mão de obra. Então a gente teve que capacitar duas meninas para trabalhar com a gente. É uma paixão poder mostrar a cultura da nossa cidade por meio da moda — conta Ana.

Berenice e Ana, as estilistas do La Unica Ateliê. Foto: Filipi Mota/Divulgação

Normalmente, os vestidos das princesas de festas típicas são iguais e apenas o da rainha se destaca. Mãe e filha decidiram inovar e criaram três trajes diferentes. A rainha Andressa Kizyzanoski Bordignon ganhou um vestido com tons de rosa e dourado, com uma aplicação na saia – que, na verdade, é uma impressão em tecido aplicada com uma técnica de patchwork – que remete à gineteada.

— Para a rainha trouxemos o rosa para caracterizar a mulher lageana e o dourado para representar a riqueza cultural da Festa. Por mais que a gineteada seja mais masculina, a gente tinha que remeter à feminilidade da lageana e ao sonho, porque aqui, se você perguntar para qualquer pessoa, ela vai dizer sonha em ser rainha da festa — explica Ana.

Detalhe do vestido da rainha. Foto: Filipi Mota/Divulgação

Andressa concorda. A advogada de 25 anos tinha essa vontade desde a infância, mas sempre deixava passar o período de inscrições por insegurança. Este ano seria sua última chance, já que a idade máxima para participar da seleção é 25 anos. Incentivada pelo namorado, ela decidiu tentar e levou a coroa.

— Me inscrevi de peito aberto, sem acreditar muito no resultado pois nunca tinha participado de nenhum concurso de beleza, era um cenário totalmente novo para mim. É o sonho de toda menina lageana ser rainha ou princesa da Festa do Pinhão. Durante o reinado ouço de muitas meninas que elas realmente tem esse sonho e comigo não foi diferente, desde criança ficava encantada com as realezas desfilando pelo Recanto do Pinhão e pela Festa, com os vestidos e coroas. Atribuo isso ao imaginário infantil de conto de fadas, e também como referência de beleza — conta a rainha.

Para o vestido da 1ª Princesa Ellen Waltrick Ribeiro, a inspiração foi a gralha-azul. O corpo da ave foi feito com penas azuis e o bico e as patinhas foram produzidos com o próprio pinhão. Já a 2ª Princesa Caroline Ceccatto ganhou um traje em tons de verde, com araucárias bordadas à mão. O traje completo inclui, além dos vestidos confeccionados em camurça, pelerines para proteger do frio e, claro, coroas – essas últimas foram os únicos itens que foram produzidos fora de Lages, por uma empresa terceirizada. Além das colaboradoras, até o marido da Berenice e pai da Ana ajudou a criar o restante das peças. Sétimo Guerino Omizzolo criou broches feitos com um pequeno pinhão para a realeza usar próximo ao pescoço e, em outros anos, chegou a assinar as coroas da festa.

— Para criar um traje desses não pode só fazer por fazer. Tem que amar o que faz. As pessoas têm que olhar e ver que o vestido representa a cidade. É muito gratificante. Mas foi um desafio. Fazer em um tempo tão curto é arriscado (elas levaram duas semanas para deixar tudo pronto). Tem bastante coisa, muito trabalho manual, envolve muitas pessoas, mas ficamos muito honradas porque são 30 anos de festa e em 10 deles nós fizemos os vestidos — comemora Berenice.

Vestidos ganharam bordados e aplicações feitas com o próprio pinhão. Foto: Filipi Mota/Divulgação

Papel da festa e da realeza mudou ao longo dos anos

O evento ocorreu pela primeira vez em julho de 1973. Na época, era uma espécie de feirinha de fim de semana, reunia frequentadores dos CTGs, famílias, artistas e músicos lageanos e tinha uma programação campeira. Em 1974, foi realizado um novo evento no mesmo formato. Nos anos seguintes, a festa foi interrompida, mas ainda eram servidos pinhão cozido e bebidas típicas do inverno em outros eventos que integravam as comunidades do interior e da cidade.

Foi apenas em 1989 que a Festa do Pinhão foi relançada. Em 1990, em sua segunda edição e durante a gestão do então prefeito Raimundo Colombo, ela foi oficialmente nacionalizada. Neste mesmo ano, o evento passou a ter uma representante – Rosângela Roman Pereira foi eleita a primeira rainha de uma edição nacional da Festa do Pinhão.

Realeza da edição 2018 da festa. Foto: Hans Peter/Divulgação

Desde o ano passado, a realeza vem ampliando suas ações. Além de representarem e divulgarem a festa, as mulheres emprestam a imagem para campanhas diversas, como a de adoção de animais abandonados. Elas também fazem visitas a entidades e instituições como asilos, hemocentros, secretarias e delegacias de proteção à criança, adolescente, mulher e idoso para auxiliá-las nas suas campanhas públicas e chamar a atenção da sociedade para causas importantes.

— Cada visita, conhecer tantas pessoas que fizeram parte da história da cidade e da festa, e receber tanto carinho é com certeza a melhor parte do reinado! É algo que eu e as princesas fazemos de coração, porque sabemos que realmente faz diferença na vida de cada um. Sinto que cumpri a missão que me foi concedida e já sinto saudade de tudo — finaliza a rainha Andressa.

Princesas e rainha participaram de campanhas sociais. Foto: Cloud Photography/Divulgação

Há mais de duas décadas, Sapecadas garantem cultura tradicionalista na festa

Além de uma programação intensa com 30 shows nacionais, a música e a poesia tradicionais da Serra Catarinense e do Sul do país têm lugar na Festa do Pinhão nos concursos Sapecada da Serra Catarinense, voltado para artistas locais, e Sapecada da Canção Nativa, para músicos de todo o Brasil e de outros países. Aberto apenas para músicas inéditas e autorais, os concursos estimulam a produção musical de composições nativistas que falam sobre temas como a terra, o homem do campo, as tradições do Sul, a família, as histórias melancólicas e o amor. Os prêmios para o primeiro lugar são de R$ 5 mil e R$ 12 mil, respectivamente.

Artistas reconhecidos no meio despontaram nas Sapecadas, como Neto Fagundes, que foi vencedor da primeira edição, Elton Saldanha, que conquistou a terceira edição com a milonga Canta, Catarina, e o quarteto lageano Coração de Potro.

Neste ano, 16 composições participaram de cada Sapecada. A vencedora da 18ª Sapecada da Serra Catarinense, anunciada no domingo passado (27), foi Valseando, com letra de Daniel Mateus da Silva e música de Maicon Fernandes de Oliveira. Já a vencedora da 26ª Sapecada da Canção Nativa, realizada na noite de segunda e terça-feiras, foi Até O Último Pedaço, uma milonga com letra de Antonio Nunes Oppitz, música de Frederico Cardoso Pinto e interpretação de Fabiano Bacchieri.

Veja a programação do último fim de semana da Festa do Pinhão

Sábado (2)

Palco Principal
Jorge e Mateus
Alok
MC Kevinho
Rodrigo Valentim
Bruninho e Davi (Backstage)
Flavio Steffli (Backstage)

Palco Nativista
Indio Ribeiro
Walter Morais
Grupo Moda Boa

Domingo (3)

Palco Principal
Wesley Safadão
Aviões
Dennis DJ
Cleber e Cauan

Palco Nativista
Marcelo Oliveira
Leo M. e Grupo Gaúcho

 

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