Festival Varilux 2019: a complexidade das relações humanas em destaque

Festival Varilux de Cinema Francês

Atores e diretores de longas como “Quem você pensa que eu sou”, “Inocência Roubada” e “Amor à segunda vista” estão no Brasil para divulgar o festival

O cinema francês tem forte reputação ao redor do mundo. Além de filmes aclamados pela crítica e grandes profissionais, as produções  francesas marcam com histórias inesquecíveis e famosas no Brasil como “O fabuloso destino de Amélie Poulain” “Os Intocáveis” e “Azul é a cor mais quente”.

Confira aqui a programação do festival em Santa Catarina

Em 2019, o Festival Varilux de Cinema Francês – que completa 10 anos e alcança a marca de mais de um milhão de espectadores – traz para Santa Catarina histórias sensíveis, marcantes e que provocam reflexões sobre a complexidade das relações humanas.

A Revista Versar foi convidada pela organização do Varilux para conversar com a comitiva de atores e diretores que vieram ao Rio de Janeiro para apresentar trabalhos e divulgar o cinema francês no Brasil. Os filmes serão exibidos em Balneário Camboriú, Blumenau, Florianópolis e Joinville entre os dias 06 e 19 de junho.

A vida por trás das redes sociais

O filme “Quem você pensa que eu sou”(2019), de Safy Nebbou, traz a história de uma mulher fragilizada por um divórcio que cria um perfil falso no Facebook, onde finge ser 20 anos mais nova.

A história tem como plano de fundo a conversa da protagonista Claire Millaud (Juliette Binoche) com sua psicóloga. À medida em que os motivos para a criação do perfil são revelados, ficam claras as consequências potencialmente devastadoras de fingir ser quem não é.

O ator do longa François Civil ressalta que o apelo do filme é a atualidade da temática. Perfis falsos em redes sociais são cada vez mais comuns e servem como uma válvula de escape para as frustrações, fraquezas e inseguranças humanas, cada vez mais evidentes em um mundo hiperconectado nas redes, mas com pouco contato humano significativo.

– O filme do Safy Nebbou fala desses excessos. As redes sociais têm um importante papel de conexão e de promoção de encontros. Mas, se usadas de forma incorreta elas são armas de isolamento. Eu penso que é preciso equilíbrio para ter uma relação saudável entre mundo real e virtual – comenta Civil. 

O inimigo mora ao lado

O filme “Inocência roubada”(2018) é um dos pontos altos do festival. Dirigido e estrelado por Andréa Bescond, o longa é baseado na história real da atriz. O enredo conta a história de Odette, uma dançarina que foi abusada sexualmente pelo melhor amigo de seus pais e que, como fuga, mergulha de corpo e alma em sua carreira artística.

Um retrato explícito dos efeitos traumáticos gerados pela violência sexual, o filme consegue mostrar brilhantemente o momento exato em que Odette faz as pazes com o seu passado e, com isso, muda o seu futuro.

Para Andréa, o filme é a oportunidade de mostrar que as crianças nem sempre são ouvidas e que seus traumas podem passar despercebidos. É um aviso para a sociedade.

– É sobre o poder de um adulto sobre uma criança, seja a influência do abusador, seja da família. Temos notado que as crianças nunca falam sobre o que elas passaram por medo de ferir os outros. E, lá no fundo, medo do adulto, medo de desobedecer. Seja um bom garoto e fique na linha. Mas esses segredos são corpos mortos escondidos em um armário. E, quando eles são revelados, muitas famílias reagem enojadas e dizem: “o que você está dizendo é sujo”. No entanto, hoje em dia, as pessoas não têm vergonha e até me lembro de um diretor de teatro que me confidenciou que ele era uma vítima. Precisamos ajudar as crianças hoje a se expressarem – comenta Andréa.

Papel de gênero é discutido em comédia romântica

“Amor à segunda vista”(2019), de Hugo Gélin conta a história de Raphaël (François Civil), que, de repente, se vê em um mundo onde nunca encontrou sua esposa, Olivia (Joséphine Japy). Como ele vai  reconquistar a mulher da sua vida, que se tornou uma perfeita desconhecida?

Apesar de a sinopse sugerir uma comédia romântica como muitas outras, o filme surpreende por trazer na trama uma série de desenvolvimentos que mostram que a felicidade do casal não está atrelada unicamente ao relacionamento.

Vale a pena se envolver com a história para descobrir um desfecho que mostra o avant-gardismo do cinema francês e a disposição de repensar o que constitui um final feliz.

– Para mim o que mais me chamou atenção quando eu li o roteiro foi a proposta de discutir o lugar habitual da mulher na comédia romântica. O projeto é disruptivo por não querer dar um lugar definido para homem ou mulher. Ele vai além disso, o enfoque está na atenção e tempo que cada um está disposto a ceder para as pessoas que importam. A vida e os relacionamentos são uma sucessão de equilíbrios diferentes entre casais e o essencial é o olhar entre eles. Eu gosto que o filme é feminista sem carregar bandeiras – comenta Joséphine.

Não deixe de conferir o Festival Varilux em Santa Catarina

Delegação francesa na estreia do Festival no Cine Odeon no Rio de Janeiro (Rogério Resende)

O Festival Varilux 2019 traz ao público uma programação composta por 16 longas-metragens recentes, um clássico e um filme de ação.

– Queremos dedicar essa décima edição à formidável criatividade da sétima arte francesa, aos exibidores e distribuidores brasileiros que resistem; ao entusiasmo e à curiosidade do público; a todos aqueles e aquelas que nos apoiam e a todos os que defendem a diversidade cultural e cinematográfica no Brasil – enfatiza Christian Boudier, diretor e curador do festival.

Confira a programação em Santa Catarina no site.