Ficção e realidade se misturam em “Dor e Glória”, novo filme de Almodóvar

Dor e Glória, filme de Pedro Almodóvar com Antonio Banderas Foto Universal, divulgação

Andrey Lehnemann, especial

A arte tem o poder de amenizar ou intensificar sentimentos. É natural que escolhamos o que nos libertará da dor – ao nos depararmos com a escolha. Obviamente as cicatrizes permanecem, mas o fato de conseguirmos equilibrar as duas sensações nos mantém vivos. Salvador Mallo é um homem que não pertence ao presente. Perdido entre seu sentimento de não pertencer ao mundo que vive e os flashes de sua memória que insistem em se confundir com sua realidade, ele se entorpece com pequenas doses diárias de medicamentos. Procura abraçar seu passado, inclusive perdoando narrativas que havia superado, na mesma intenção de projetar um futuro que possa fazer parte. A procura de Salvador acaba encontrando o símbolo máximo do artista: como se respira? Deixando o nosso pensamento sair para telas, passear por letras e encontrar nossos destinatários, é o que raciocina.

Para Almodóvar, o artista usa instrumentos diferentes; a mensagem, no entanto, é a mesma. Nos créditos iniciais, um quadro branco é preenchido com os nomes dos realizadores de Dor e Glória, enquanto observamos diferentes tinturas espelhadas pela tela; aos créditos finais, a pintura é trocada pela música, ao ouvirmos cada partitura, cada nota estimulada num piano ou os tons amenos de um triste violino. A criação, a necessidade da exposição, é fundamental para o realizador liderar a captação de quem é Salvador, que tipo de homem ele se tornou, por que não se sente confortável diante da vida.

Os traços de uma piscina se confundem com o abdômen do personagem, que se confundem com as paredes de um restaurante ou com a coloração das cortinas de sua casa, que remetem a sua infância, onde as cores das cortinas da porta eram o único contato com a cor em suas vidas. Tudo pode significar arte, pelas lentes de Almodóvar. O design de produção, aliás, espelha com convicção a jornada da vida de Salvador entre a tristeza e a felicidade ou a frieza e o calor, com o contraste entre o concreto e as cores dos ambientes sendo constante. Poderíamos ouvir uma voz nos falando: “você vê os detalhes coloridos dentro desta caverna? É como me sinto”.

Há uma cena no primeiro ato do filme de Almodóvar, igualmente, que denuncia o afastamento de Salvador de sua realidade com uma elegância finíssima. Quando o personagem de Banderas chega ao restaurante para encontrar Mercedes, um homem velho aparece no espelho saindo de local, enquanto Salvador e Mercedes se abraçam, na mesma circunferência em que o ator estava antes e como se representasse instintivamente o seu desejo de ir embora dali. O mesmo desejo refletido pelas cores do figurino e das paredes, que mostram uma coloração saturada que faz com que a camisa azul-piscina do protagonista pareça inusitada. Além do mais, quando Almodóvar coloca Salvador em close, percebe-se ao fundo duas mulheres vestidas de véu – um branco e outro preto – e uma de cada lado de sua cabeça, como se fossem a dualidade dele naquele momento, entre a sua fama e a sua dor.

Essa dicotomia entre cores será visualizada durante todo o filme – em cenas antológicas, como aquela em que Salvador encontra um velho amante e percebemos ele deixando metaforicamente, ao se distanciar de um quadro da sala, de ser memória e virar realidade, até a linguagem de figurinos simples, como o uso do verde como projeção de entorpecente ou o azul para ressaltar serenidade.

É verdade que Salvador diz que o amor não é o suficiente, num monólogo lindíssimo, no terceiro ato. E talvez não seja. Mas a arte, tanto para o realizador quanto para qualquer artista, é. Ao menos, para continuar vivendo e transformando sua dor em manifesto, em força, em glória.

 

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