Filho é tudo igual, só muda de endereço

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Eu o conheci, era um garoto francês que viveu dois anos na Austrália, depois trabalhou nas ilhas da Polinésia e então resolveu dar uma passada em sua antiga casa, em Brive-la-Gaillarde, onde sua mãe mora até hoje. Ela quase caiu pra trás quando abriu a porta e deparou com aquele magricela barbudo, parecendo Robinson Crusoe e que continuava com a mania de surgir sem avisar. O guri deu um beijo nela, dormiu em sua velha cama, matou saudade do bouillabaisse, deu outro beijo na mãe e partiu. Hoje mora no Peru e continua em trânsito, sem data para enraizar.

Com uma garota baiana se deu de outro jeito. Ela foi para os Estados Unidos a fim de estudar seis meses, o que sua mãe considerou um exagero de tempo, mas não era: quanto tempo dura, hoje, seis meses? Uns 30 minutos. A garota acreditava mesmo que num piscar de olhos estaria de volta, mas conheceu um texano e se apaixonou por ele. Avisou a mãe que daria uma esticada de mais 30 minutos na terra do Tio Sam e a mãe só não enfartou porque adoecer custa caro – preferiu juntar dinheiro para comprar uma passagem e fazer um enxoval pra menina, era dessas. O texano casou com a garota baiana em Austin, diante da sogra, que entregou os lençóis e as toalhas bordadas antes de retornar para sua Cachoeira, no Recôncavo, onde aprendeu a usar o Skype.

Sei de uma mãe que teve três filhos homens e cada um deles mora num lugar mais absurdo que o outro. O primogênito no Azerbaijão, o do meio no interior da Tailândia e o caçula em Windhoek, na Namíbia, África. Só pode ser implicância deles, ela resmunga. Por que tão longe? A família se reúne todos os anos em janeiro, em Porto Alegre, que é quando os garotos conseguem se desvencilhar de suas atividades. A mãe adorava ir pra Santa Catarina, mas agora ficam todos fritando juntos no verão da capital gaúcha porque, além de visitar a matriarca, eles querem também rever os amigos e matar saudade do churrasco.

Poderia continuar, houvesse mais espaço, mas tenho certeza que você conhece histórias melhores, talvez até uma em que você, mãe abnegada, seja a protagonista. Seu filho estará com você neste domingo ou mora em Goiânia com a mulher e um bebê cujo crescimento você acompanha por Whatsapp? Sua filha estará com você ou fazendo curso de gastronomia no Pará? Seu primogênito deixou o interior para ir pra cidade? Sua princesa foi fazer teatro em Nova York?

A maioria das mães de adolescentes e de jovens adultos, às quais me incluo, tem ao menos um filho em algum lugar do Brasil ou do mundo, de mochila nas costas, hospedado em hostel, alugando um quarto na casa de alguém ou casado com um estrangeiro, fazendo a vida lá fora. Meu beijo solidário. Não há outro jeito a não ser aceitar a inversão do ditado – filho é tudo igual, só muda de endereço.

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