“Escrevendo podemos compreender melhor quem somos”, diz a escritora Flávia Péret

Em oficina literária em Laguna, escritora vai estimular as pessoas a escreverem textos narrativos e ficcionais de diversos gêneros a partir das próprias memórias

Foto: Reprodução

Entre esta segunda e sexta-feira, dias 23 e 27 de julho, o Sesc realiza oficinas literárias gratuitas em Florianópolis, Balneário Camboriú e Laguna. Nesta última, a escritora Flávia Péret vai ministrar Que história conta sua história?, que incentiva os participantes a escreverem narrativas pessoais sobre suas próprias vidas. A oficina tem como referências três escritoras negras — a brasileira Conceição Evaristo, a nigeriana Chimamanda Adichie e a afro-portuguesa Grada Kilomba —, e propõe uma reflexão sobre a importância de inverter a lógica de que a história é sempre contada pelos vencedores.

Escritora e professora, mestre em Teoria da Literatura pela UFMG, Flávia Péret participa e desenvolve projetos, oficinas e processos formativos no campo da escrita e seu diálogo com outras linguagens. Ela também é autora de Imprensa Gay no Brasil (2011), 10 Poemas de Amor e de Susto (2013), Outra Noite (2014), Novelinha (2016) e Uma Mulher (2017). Em SC, a escritora vai estimular as pessoas (de todas as faixas etárias, exceto crianças) a escrever textos narrativos e ficcionais de diversos gêneros a partir das próprias memórias, apropriando-se da linguagem de forma ativa, poética e lúdica.

Batemos um papo rápido com Flávia por e-mail para saber mais sobre a oficina e atuais projetos. Confira:

Foto: Bianca de Sá/Divulgação

O tema da oficina que você vai ministrar em Laguna é Que história conta sua história?. Por que incentivar os participantes a escreverem narrativas sobre suas próprias histórias?

Que história conta sua história? é uma oficina que busca estimular que as pessoas escrevam e reflitam sobre a importância política de ampliarmos o acesso que temos às histórias e às narrativas coletivas e individuais. O filósofo alemão Walter Benjamin escreveu que a história é sempre contada pelos vencedores. A história oficial, a história dos livros didáticos e das aulas de história, mas também as histórias que circulam massivamente nos meios de comunicação de grande alcance, infelizmente não apresenta a multiplicidade de narrativas que constituem a identidade e a cultura do povo brasileiro. Isso significa que historicamente muitas narrativas, outras versões da nossa história, foram colocadas à margem. Em alguns casos até mesmo omitidas, invisibilizadas: mulheres, mulheres negras, povos indígenas, pessoas LGBTI. Um ponto importante é que o ato de contar histórias (e também de escutá-las) é constitutivo da construção de quem somos: escrevendo podemos compreender melhor quem somos e também inventar outras formas de estar no mundo. Por isso, a oficina estimula a escrita das histórias pessoais que também são coletivas. Precisamos, primeiramente, reconhecer a importância social, cultural e política de todas as histórias e, ainda que de forma sutil, inverter um pouco essa lógica apontada por Walter Benjamin de que a história é sempre contada pelos vencedores. As principais referências da oficina são três mulheres escritoras negras, de diferentes países: a escritora brasileira Conceição Evaristo, a escritora nigeriana Chimamanda Adichie e a escritora e artista afro-portuguesa Grada Kilomba. Mulheres maravilhosas, três escritoras/pensadoras, de uma inteligência e sensibilidade profundas, que nos mostram como o ato da escrita pode ser libertador, um trabalho de invenção, de criação de subjetividades também múltiplas e de reconstituição das narrativas esquecidas e silenciadas.

Há algum efeito terapêutico em escrever sobre si mesmo?

Não posso afirmar que tenha um efeito terapêutico, algumas pessoas falam do desafio que é escrever e também da alegria de conseguir, terminado o processo, contar uma história. O que observo é que escrever é uma ação, uma prática que nos convida a um momento de introspecção denso que envolve a memória, nossos desejos, mas principalmente a criação — já que a escrita é um processo de invenção e construção de mundos, outros mundos possíveis, principalmente. Como saímos desse processo? O que acontece? Bom, é sempre muito individual, pela minha experiência como professora de escrita há quase 10 anos observo que para algumas pessoas é de fato transformador, porque escrever abre novas possibilidades de compreensão do mundo e de si mesmo. Nas oficinas, eu acho que algumas pessoas começam a descobrir e se interessar por essa potência da escrita.

Sua obra mais recente é Uma Mulher, um poema em forma de lista. Como você teve a ideia do formato e como foi o processo de desenvolvimento?

Eu costumo falar que é um projeto de escrita expandida já que envolve a escrita das frases e, posteriormente, o embaralhamento dessas frases, num site que é construído usando programação, no qual 120 versos recombinados aleatoriamente podem gerar mais 14 mil novas frases. O site surgiu como forma de continuar a lista, já que eu não conseguia colocar um ponto final — queria continuar escrevendo, mas também queria ter o livro publicado. Neste sentido, é um projeto sempre em processo, aberto. O endereço do site é umamulher.org.

Foto: Reprodução/umamulher.org

Quais são seus futuros projetos literários?

Este ano lanço um livro em prosa, uma pequena novela em forma de diário, chamada Os Patos. É uma história bem não-linear, feita mais de não ditos do que das coisas ditas/escritas sobre as tentativas de uma mulher de entender e escrever sobre o próprio corpo, reconstruir ou inventar uma história desse corpo. O livro será lançado pela editora mineira Impressões de Minas, que faz um trabalho maravilhoso de descobrir, publicar e incentivar escritores, principalmente de BH. Ano que vem, eu lanço outro livro de poesia, Mulher bomba, pela editora paulista Urutau, também uma editora incrível, que publica sobretudo poesia e periodicamente realiza chamamentos públicos para conhecer novos escritores e ampliar seu catálogo. São duas iniciativas editoriais movidas pelo amor à literatura e ao livro.

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