Cada foto tirada é a nossa forma de congelar uma lembrança

Marcos Piangers
Giselle Sauer/Especial

Uma coisa que sempre digo aos jovens é: nunca reclame do seu celular. Um smartphone, mesmo o mais simples, é um pequeno milagre. Sou do tempo do telefone de disco. Sou do tempo da máquina de escrever. Fita VHS. Fita cassete BASF. Existiu uma época em que tínhamos apenas trinta e seis chances de guardar memórias. As máquinas fotográficas eram muito frágeis, pareciam feitas de plástico.

Minha mãe considerava cada foto um grande evento. Penteava meu cabelo com o próprio cuspe. Ajeitava minha blusa. Exigia um sorriso. Pedia pra fazer uma pose. Quando ela queria tirar uma foto com flash tínhamos que esperar a câmera “aquecer”. Depois de alguns segundos, uma pequena luz laranja acendia, sinal de que tinha energia suficiente para conseguir soltar o flash. Mesmo com todo o esforço as fotos inevitavelmente ficavam péssimas, e mesmo assim nossos pais espalhavam porta-retratos pela casa.

Minha mãe deve ter menos de cem fotos minhas ao todo. São fotos impressas em papel
10 x 15, muitas delas desbotadas, que acompanharam minha cara emburrada de bebê, passaram por uma infância fofinha e depois uma adolescência pavorosa.

Hoje em dia, tiro cem fotos das minhas filhas apenas em um fim de semana. Tenho milhares de fotos e vídeos das minhas duas filhas, no celular. São tantas fotos que tenho que ficar comprando mais espaço na nuvem para guardar tudo. Se antes gastávamos com filmes fotográficos, agora precisamos de hds externos, espaço no dropbox e no Google Fotos. Tenho fotos das minhas filhas com meses, vídeo dos primeiros aniversários, retratos dos sorrisos banguelas, momentos de viagens, detalhes dos primeiros dias de aula.

Quando revejo nossas fotos é como ver um documentário. Minhas filhas crescendo rápido demais. Cada foto é nossa forma de congelar uma lembrança. Felizes os pais de hoje em dia, que não dependem apenas dos filmes de trinta e seis poses.

 

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