“Fugir da rotina” só é legal porque a rotina existe

Foto: Pixabay

“Fugir da rotina” é um desejo tão comum que até já virou expressão manjada — todo mundo quer, de vez em quando, escapar do roteiro que rege a maioria de seus dias, dos horários sempre tão rígidos, dos afazeres que se repetem dia a dia, até dos hábitos e passatempos que já viraram comuns em seus relacionamentos, sejam amorosos, familiares ou de amizade. Para muitos, o mês de férias é a brecha anual onde a tal fuga da rotina é permitida: um respiro que faz com que tenhamos força para aguentar os outros onze repetitivos meses. Para outros, cada dia ou semana exige uma aventura capaz de espantar o tédio: uma caminhada por um lado desconhecido da cidade, um almoço com aquele novo colega de trabalho, um curso rápido, um exercício físico diferente. O que é comum é a vontade: fugir da aparentemente opressora e terrível rotina.

Eu faço parte do segundo grupo entre aqueles que citei ali em cima, e confesso que viajar é um dos meus maiores sonhos, planos e prazeres na vida — então eu seria hipócrita se dissesse que não gosto de escapar de vez em quando. Mais que isso: acho que é essencial — areja a cabeça, nos faz conhecer e entender coisas novas, desperta a criatividade e o gosto pelas coisas mais simples da vida. Não dá para passar dia após dia no automático, fazendo só o que sempre fazemos, aquelas coisas às quais já estamos tão acostumados que nem nos fazem pensar muito.

Leia também: 

Sobre voltar para a universidade – ou, sobre como o mundo sempre quer que tenhamos pressa

Pelo direito de não gostar de cerveja – e de ouvir a música que bem entender

Só acho que existe um exagero nisso tudo (como quase em tudo nos dias de hoje, aliás): uma demonização da própria palavra “rotina”, como se ela fosse um monstro a ser evitado a todo custo, uma doença que drena nossa energia vital e a alegria de nossos dias. Se você diz que seu namoro ou casamento virou rotina (o temido “cair na rotina”, como que em um poço cheio de cobras venenosas), então, vixe — é praticamente uma sentença de morte para o amor e o relacionamento.

Mas convenhamos: ter zero rotina é praticamente impossível. Mesmo quem trabalha por conta própria ou em casa acaba estabelecendo hábitos mais ou menos permanentes: a hora de levar o cachorro para passear, de ir correr no parque. Aposto que mesmo o mochileiro que está dando a volta ao mundo à base de carona já descobriu (e adotou) duas ou três práticas que fazem sua vida mais fácil —- seja o método infalível para conseguir a próxima carona ou o critério certeiro para encontrar o melhor hostel.

E não há nada de ruim nisso: a rotina ajuda justamente a organizar nossas vidas, fazer tudo ser mais prático e funcional. É legal e saudável desafiar o cérebro com novos problemas e soluções aqui e ali, mas fazer isso o tempo todo, 24 horas por dia, seria uma perda de tempo imensa — além de terrivelmente cansativo. Rotina tem um lado gostoso, uma coisa confortável: de acordar feliz às sextas-feiras por saber, por exemplo, que é noite de pizza na sua casa; ou de escapar de debates intermináveis na hora de decidir a balada de sábado com suas amigas, porque vocês já têm uma favorita. Parar de reclamar da rotina — e abraçar seu lado bom — pode, justamente, torná-la uma coisa menos pesada e mais aconchegante. E, claro: a fuga da rotina só é legal, obviamente, porque a rotina existe. Fazer coisas diferentes só é empolgante porque elas são diferentes. Vai dizer que não é justamente a rotina que dá a graça dos dias e das coisas que escapam dela?