Gal Costa revisita trajetória e fala sobre parceria com Marília Mendonça: “eu quis fazer uma sofrência”

A cantora lança novo disco com parcerias com músicos da nova geração, mas recorre ao passado para defender a característica que sempre a acompanhou: a transgressão

Gal Costa
Gal Costa (Foto: Bob Wolfenson/Divulgação)

O ano é 1973, o Brasil vive um regime militar, Gal Costa decide lançar um disco intitulado Índia. Na capa, está vestindo uma tanga vermelha, num ato em que parece tirar uma saia indígena. Na contracapa, a foto é da cantora com os seios a mostra, em meio à natureza. Ousadia já era uma característica que acompanhava a baiana Maria da Graça, que foi alçada ao estrelato depois de conquistar Caetano Veloso e João Gilberto, seu grande ídolo, que a conheceu quando Gal tinha 18 anos e, ao ouvi-la cantar, resumiu: “Gracinha, você é a maior cantora do Brasil”. Mas foi depois de Índia, que até 2015 só pode circular envolto em um plástico escuro, que Gal Costa recebeu o adjetivo que a acompanha desde então: transgressora.

Aos 73 anos, ela não discorda desta expressão. Pelo contrário, reafirma. Em seu novo disco, A Pele do Futuro, lançado neste mês, Gal recorre a parcerias clássicas, como Gilberto Gil e Maria Bethânia, e também a nomes da nova geração da música, como a inusitada “sofrência” com Marília Mendonça. É mãe de Gabriel, de 13 anos, e foi por influência dele que decidiu gravar um álbum com canções disco que remetem aos anos 1970. Não precisa ter palavras como “profana” estampadas na capa para causar. É na voz, nos gestos e na defesa da ousadia que Gal se afirma mais atual do que nunca, e instigada a continuar optando pelo diferente.

Nos últimos anos, você tem feito parcerias com nomes da nova geração da música brasileira, como Marcelo Camelo, Mallu Magalhães, Silva, Tim Bernardes. Como é feita essa escolha e por que tem buscado estes nomes?

Eu sempre gosto de trabalhar em parceria. Desta vez eu fiz uma parceria com Marcus Preto e Pupilo. Pupilo cuidou dos arranjos e eu pedi a ele que transformasse as canções em dance music, que tivesse o clima dos anos 70, e o Marcus Preto pediu músicas a novos compositores. Ele reuniu o repertório e eu escolhi as que mais gostei, e o disco foi feito assim.

Com isso o disco tem uma sonoridade bem diferente. Como você define a música que faz atualmente? Cabe em algum gênero específico?

Não, é diversificada. Eu tenho uma história muito rica nesse aspecto. Eu canto de tudo. Já fiz rock, música instrumental, gosto da música do nordeste, e eu gravei um repertório bem diversificado, com canções bem diferentes umas das outras, embora tenha a sonoridade de disco music, que eu queria muito fazer.

No novo disco, também tem música com Marília Mendonça, Cuidando de Longe, um grande nome do sertanejo atual. Como foi esta parceria?

A Marília Mendonça, na minha opinião, se diferencia do universo sertanejo, porque é tudo muito igual. Marília não. Ela tem uma coisa especial no jeito de cantar. Eu gosto muito dela. É uma jovem talentosa. Então eu tive a ideia de gravar uma sofrência, eu quis fazer uma sofrência e chamá-la pra compor a música. Ela adorou e acabou gravando comigo.

Na série O Nome dela é Gal, Maria Bethânia comenta que há anos vocês não se viam, e fala do carinho grande que tem por você. No novo disco, tem uma música com ela, Minha Mãe. Como foi esse reencontro e essa parceria?

Esse reencontro se deu através da música. Há muitos anos o Jorge Mautner fez uma música pra Dona Canô [mãe de Bethânia e de Caetano veloso] e pra minha mãe. Ele era muito amigo da minha mãe, ia toda semana tomar chá e conversar no apartamento dela. E eu reencontrei ele durante o período que estava fazendo o disco e pedi uma música. Ele acabou fazendo e eu achei que parecia com Bethânia. E pelo fato de ser uma canção que fala de mãe, como é um grande sucesso que ela gravou com a minha presença, com a minha voz, eu achei muito bonito. Ela gostou da música e aí nós gravamos. Me senti feliz musicalmente e pessoalmente.

Você e Caetano têm uma amizade e parceria muito bonitas. Como ele contribuiu na renovação da sua carreira nos últimos anos?

Caetano sempre contribui de alguma maneira. Ele compõe pra mim como ninguém. Dessa vez, ele não está no disco. Recanto [de 2011] foi um disco muito bonito que ele fez comigo e me deu uma grande motivação, uma grande energia de fazer coisas. Ele me deu uma instigada.

No novo disco também uma música de Gilberto Gil, Viagem Passageira. Você, como o Gil, compartilha do cansaço pela cobrança por se posicionar política e socialmente?

É meio cansativo ter que se posicionar. Eu acho que meu trabalho não é politicamente militante. Ele é considerado revolucionário na medida em que eu transgrido. É revolucionário. Mas eu não gosto muito de falar de política.

A capa do disco Índia, de 1973, foi censurada por ter uma foto em que você aparece com uma tanga vermelha, tirando uma saia indígena. Só em 2015 foi autorizada a venda do disco sem um plástico escuro que envolvesse a capa. Como foi passar por isso? Consegue relacionar este período com o momento atual?

Naquela época, era uma ditadura militar em que existia uma censura rigorosa. A capa daquele disco foi censurada. Eles só permitiam vender com um invólucro negro, não podia ser exposta. Foram os militares que proibiram. Hoje, eu peço a Deus pelo bem do Brasil, porque nós estamos correndo um grande risco. Tenho medo do avanço do conservadorismo. Acho muito preocupante. Acho um retrocesso.

Índia, Gal Costa
Foto: Reprodução

Você tem comentado em entrevistas que uma grande mudança foi a maternidade. De que forma afetou sua vida, seu trabalho?

Afetou de uma forma muito positiva. Ser mãe é uma das coisas mais lindas, mais revigorantes, mais incríveis que tem. O Gabriel mudou a minha vida. Ele é a razão do meu viver, a luz da minha vida. Ele agora está com 13 anos, entrando na adolescência, é um menino maravilhoso. Eu amo ele profundamente. Ele me ajuda, eu me interesso pelas coisas que ele faz. Em relação a esse disco, essa coisa de dance music, dos anos 70, é algo que eu sempre quis fazer e não fiz, e tem muita influência dele. Porque ele gosta, tem ouvido muito. Então ele veio me mostrar as coisas que ele estava ouvindo achando que eu não conhecia. Pensei “vou fazer”. Ele trouxe uma coisa que eu tinha vontade de fazer e acabei fazendo por causa dele.

A canção que abre o disco se chama Sublime, de Dani Black. Você está à procura de um amor que seja sublime?

Não. Sublime não. Tudo que eu faço é com amor. O que importa é o amor das pessoas. O ódio é muito ruim. O amor é a grande riqueza do ser humano. O ódio, a intolerância, a raiva, o preconceito, isso tudo é muito negativo.

Hoje, avaliando teu trabalho, tua carreira e teu novo disco, você continua se considerando transgressora?

Eu tenho uma carreira que tem essa conotação, e eu acho que, de certa forma, sou sim. Eu gosto de ousar, gosto de fazer coisas que eu nunca fiz. Eu tenho coragem.

Tem previsão de vir a Santa Catarina? Tem uma relação com o estado?

Sempre faço show em Santa Catarina, mas não sei precisar a data. Gosto muito de ir, tenho amigos que moram aí, gosto muito de Florianópolis.

*Colaborou Carol Passos

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