Por um mundo com gente mais múltipla: porque ninguém merece passar a vida dentro de uma caixinha

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Eu tenho, tatuado no meu braço, um trecho de Quem Vem Pra Beira do Mar, do Dorival Caymmi. Pouca gente reconhece a música quando vê: as pessoas leem e dizem que a frase é bonita, mas ficam surpresas quando eu explico que é uma música, e quem é o autor. “Mas isso não é MPB?”, perguntam. Eu digo que sim, e elas parecem confusas: “Ah. Achei que você gostasse de rock.”

Você consegue notar quanta coisa sem sentido tem essa simples frase? Vejamos: sim, eu gosto de rock. Adoro, aliás. Mas também gosto de MPB. Gosto de jazz, gosto de pop — me jogo ouvindo Taylor Swift, e não tenho a menor vergonha de admitir. Por que gostar de uma coisa me impede de gostar das outras? Aliás, por que mesmo foi que você achou que eu gostava de rock? “Ah, você tem o cabelo vermelho, tem piercing, tatuagem, usa roupa preta.” Então é obrigatório — ouvir rock e usar roupa preta, ou o contrário? Eu tenho um amigo que só se veste de preto, porque acha a cor mais bonita e elegante do mundo, mas é super fã da Beyoncé. Eu sei — estereótipos nasceram de algum lugar, e aquela coisa toda. Muitas vezes a coisa bate. Mas às vezes isso simplesmente não acontece — e a gente precisa começar a se acostumar com isso. Ainda mais em um mundo e em uma época em que todo mundo está exposto a todo tipo de influência, livre para ser e gostar de coisas originalmente tão distantes quanto aparentemente dissonantes.

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Sempre que alguém estranha a minha paixão por Caymmi e eu explico que, sim, eu gosto de rock, mas que isso não me impede de gostar de outras coisas, eu cito que, se a pessoa for fuçar no meu Spotify, ela vai encontrar muita coisa “nada a ver” uma com a outra por ali — tem um monte de salsa, por exemplo. E por quê? Porque eu danço salsa há mais de dez anos. E sou a-pai-xo-na-da. “Como assim? Eu achei que você fosse metaleira!” Okay. Aliás, sabe por que a frase tatuada no meu braço fala de mar? Porque eu adoro praia. “Mas branquinha desse jeito? Nerd desse jeito? Achei que você odiasse sol e calor!” Amigo, eu sou branquela, não sou uma vampira. Eu posso ser “nerd”, se quiserem me classificar desse jeito — mas já passamos da época em que “nerd” era obrigatoriamente aquele cara que não saía nunca do quarto e da frente do computador, né?

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Do mesmo jeito, há muito tempo, eu era adepta convicta do sedentarismo — achava que quem preferia gastar seu tempo correndo atrás de uma bola era obviamente menos inteligente que eu, que aproveitava minhas horas livres lendo livro atrás de livro. Mas um dia eu resolvi me aventurar por um ambiente totalmente inóspito para mim — e considerado um tédio até mesmo por muitos dos adeptos da atividade física: a academia. E, bom… Eu adorei. De verdade — não consigo passar um dia sem ir lá e fazer meu treino. Eu me sinto super bem; seja por algum efeito psicológico ou simplesmente porque meu corpo libera hormônios que me deixam mais feliz e relaxada. Eu vejo resultados, e isso me deixa ainda mais motivada. Eu não defendo que todo mundo deva ir se matricular em uma academia, porque sou totalmente contra fazer qualquer coisa odiando essa qualquer coisa (embora recomende que todo mundo dê uma chance para algum tipo de atividade física); mas, para mim, funciona maravilhosamente.

E eu descobri que, ao contrário do que eu pensava, “o povo da academia” não é um bando de acéfalos que só pensa em ficar o maior possível, se enche de bomba para ter mais músculos e nunca leu um livro na vida — tem mais gente lá parecida comigo do que radicalmente diferente de mim. Fiz amigos na academia. (esses dias eu vi um cara que estava lendo Fundação, do Asimov, entre uma série e outra de exercícios. JURO!) Aprendi a me alimentar melhor, a não forçar demais meu corpo, a me cuidar direitinho para não acabar lesionada ou morrendo de dores. E senti como é ser vista como parte do ‘povo da academia” por gente que não frequenta — amigos meus, muitos deles, que torceram o nariz para o meu então novo estilo de vida. Ironias interessantes da vida.

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Dá para chamar isso de pré-conceito, no sentido mais puro da palavra — embora, é claro, seja um pré-conceito muito mais inofensivo do que aqueles sobre os quais estamos nos acostumando a refletir e debater como sociedade. Mesmo se não conseguirmos nos colocar no lugar do outro para compreender realmente o que ele sente ou por que ele faz o que faz, é legal parar de tentar colocar as pessoas em caixinhas rotuladas. O mundo fica muito mais interessante quando damos a nós mesmos a chance de ser múltiplos — e conhecer pessoas que também sejam assim.