Harmonia-Lyra completa 160 anos sendo palco da história de Joinville

Foto: Salmo Duarte

Por Cláudia Morriesen

Em um salão de madeira no meio da floresta foi levantado o palco. Não era grande, ficava sobre cavaletes, com quadros de madeiras pendurados em ganchos no teto para simular o cenário. Era, no entanto, o início da sociedade cultural privada mais antiga do Estado de Santa Catarina e do Brasil, a Sociedade Harmonia-Lyra, que há 160 anos nasceu para salvar os imigrantes europeus da solidão e da melancolia.

Era 31 de maio de 1858 quando 25 homens reuniram-se para formalizar em documentos aquilo que já vinham realizando desde que chegaram à Colônia Dona Francisca, atual cidade de Joinville: apresentações de teatro, de canto e de dança. Elas eram geralmente seguidas por festas para espantar a tristeza de deixar a terra natal e encontrar, no lugar da cidade dos sonhos vendida nos panfletos de publicidade, apenas uma clareira aberta em solo úmido no Norte de Santa Catarina, entre a serra e o mar.

— O teatro foi uma das primeiras manifestações culturais usadas pelos imigrantes para tentar fortalecer o ânimo deles diante das dificuldades do dia a dia. Ele, como a religião, foi um suporte importante para diminuir os sentimentos de saudades e de solidão — explica o historiador Dilney Dunha.

Nos primeiros 78 anos, ainda que houvesse desejo e planos para construção de uma sede oficial, o que importava realmente era o que acontecia entre as paredes dos salões alugados: espetáculos teatrais que faziam os imigrantes largarem as ferramentas de trabalho para dedicarem-se à dramaturgia, assumindo o posto de atores, diretores e cenógrafos. Dessa forma a agenda cultural era preenchida em praticamente toda a história, fazendo jus ao primeiro título, o de sociedade de teatro “amador”. A paixão pelas artes pautava a comunidade e colocava pessoas de todas as idades no palco, além de mobilizar a cidade para manter o clube mesmo em momento de crises econômicas e políticas, como as grandes guerras e a Campanha de Nacionalização.

— Há relatos de que os textos das peças de teatro vieram na bagagem. Mas eles não trouxeram apenas coisas materiais. Veio também um arcabouço cultural, um gosto pelo teatro, principalmente na pequena parcela que vinha da burguesia, e não das aldeias agrícolas — conta Dilney.

Atualmente, a Sociedade Harmonia-Lyra é um prédio imponente localizado no Centro da cidade, a cerca de 150 metros do terreno onde as apresentações ocorriam no século retrasado. A sede atual foi inaugurada em 1930, com projeto de R. Muenz e de Max Miers, e sua arquitetura rebuscada levou a população que não a frequentava a apelidá-la de “Sociedade Aristocrática”, mas ela foi, por décadas, a melhor opção para as grandes apresentações musicais e de artes cênicas que passaram por Joinville no século 20. Foi, também, a casa da primeira edição do Festival de Dança de Joinville.

Assim como ocorreu em vários momentos de sua história, passou por um período de quase esquecimento nas últimas duas décadas, até o renascimento das artes entre suas paredes há cinco anos. Os joinvilenses já se acostumavam com a função de clube relegado a festas de casamento e de formatura que o local começava a adquirir, até que uma surpresa apareceu na sacada: em 2014, um coral de crianças e o barítono Douglas Hahn realizaram apresentações de Natal de frente para a rua 15 de Novembro, reafirmando a trajetória cultural da sociedade, que voltou a ter uma agenda cultural movimentada.

— A opção que tomamos foi abrir o espaço para a música clássica e para eventos de natureza familiar e comunitária, juntando, na medida do possível, estes dois elementos — diz o atual presidente, Álvaro Cauduro.

O atual presidente Álvaro Cauduro e o lustre que é um dos símbolos do local

As Memórias de seu Hermes

Quando chegou a Joinville, em 1961, contratado por uma fundição para organizar e reger a jazz band da empresa, o são-bentense Hermes Rück não precisou se preocupar em procurar uma orquestra para tocar ou um clube para frequentar com a esposa, Maria Elisa, e com os dois filhos. A Orquestra da Lyra, que havia nascido em 1921 com a fusão da Sociedade Harmonia com a Musikverein Lyra (Sociedade Musical Lyra), já era uma referência estadual com a qual ele mantinha contato mesmo morando na cidade vizinha.

— Entrei tocando violino, até que maestro descobriu que eu também tocava contrabaixo. Foram mais de 50 anos dedicados à Harmonia-Lyra — recorda Hermes.

Eram cerca de 60 instrumentistas, todos amadores, que permaneceram por tanto tempo quanto Hermes no grupo: as décadas passavam, os músicos envelheceram, mas a formação praticamente não mudou. Quando os anos de 1980 chegaram e o maestro Tibor Reisner foi contratado, a Orquestra da Lyra alcançou seu auge: criada para diversificar a programação do clube, ela ganhou prestígio e viajou pelo Brasil para realizar concertos. Só não foi mais longe porque seus integrantes eram os empresários e comerciantes de Joinville, que não podiam se ausentar por muito tempo das atividades para dedicarem-se a temporadas em outras cidades.

Hermes com seu antigo violino

Ao mesmo tempo em que a orquestra crescia, Hermes e os outros associados trabalhavam para que o palco fosse ocupado por outras orquestras e por grandes nomes da música e do teatro. Foi sob sua direção artística que nomes da música brasileira, como a cantora Clara Nunes, e o maestro Isaac Karabtchevsky se apresentaram no teatro da Sociedade Harmonia-Lyra, e artistas como Chico Anísio, Dercy Gonçalves e Claudia Raia trouxeram seus espetáculos teatrais.

Hermes foi presidente da Harmonia-Lyra por quatro anos, entre 1986 e 1990. Logo depois, entre 1992 e 1998, sua esposa, Maria Elisa, tornou-se a primeira mulher a presidir a entidade, que já chegava aos 134 anos quando ela assumiu.

— Elisa era muito ativa dentro da Harmonia-Lyra antes mesmo de ser presidente. Ela cuidava da programação, organizava a decoração e era a responsável pelos bailes e pelas debutantes — conta.

Apresentação da orquestra da qual Hermes fazia parte

As Alunas de Liselott

Em 10 de março de 1951, dia seguinte ao centenário de Joinville, 80 bailarinas subiram ao palco da Sociedade Harmonia-Lyra para, com danças folclóricas, encenarem a saga dos imigrantes europeus ao chegarem à Colônia Dona Francisca. As meninas que vibravam de ansiedade e orgulho dentro dos figurinos eram descendentes contando as histórias de seus avós e bisavós em uma coreografia de Liselott Trinks, primeiro grande nome desta arte na cidade que receberia o título de Capital Nacional da Dança 65 anos depois.

Rose Colin, 74 anos, estava entre as bailarinas. Tinha sete anos e ganhara o direito de começar as aulas de balé um ano antes pela proximidade do pai, João Colin, que era prefeito de Joinville em 1950, com a professora de dança.

— Nos sentíamos muito especiais. Imagina, se apresentar na frente da cidade inteira! — conta Rose.

Sueli e Rose na atual sede da Lyra

Amiga de Rose desde a infância, Sueli Stein, 74 anos, também passava duas tardes da semana fazendo as aulas de dança da “dona Lotte” na Harmonia-Lyra. Enquanto isso, os meninos — que só entravam em cena quando precisava muito  de rapazes nos espetáculos — ficavam circulando pelos corredores, em um início de paquera.

— Estávamos sempre na Harmonia-Lyra, para as aulas, para jantar no sábado à noite, para os bailes. O lugar era o centro de Joinville naquela época — afirma Sueli.

As duas amigas, ao centro e à direita, no passado

Um barítono no palco da Lyra

Nenhum nome joinvilense se destacou tanto no canto lírico quanto o de Douglas Hahn, 47 anos. Ele é protagonista de espetáculos de ópera e tem apresentações nas grandes salas do Brasil e de outros países, como o Teatro Municipal de São Paulo e o Teatro Colón, na Argentina, no currículo. Mas faltava alguma coisa: apesar de passar cerca de 180 dias em viagens para cumprir a agenda de ensaios e apresentações, Douglas sempre retornava para sua casa em Joinville e sentia falta da efervescência cultural que encontrava em outras grandes cidades, especialmente na área da música erudita.

— Eu me apresentei na Harmonia-Lyra bem no início da minha carreira, em 1995 ou 96, e sempre houve um desejo de que ela voltasse a ter apresentações de música clássica — conta Douglas.

Foram quase 20 anos de espera até que as paredes do teatro construído especialmente para garantir a acústica sem a necessidade de microfones ou amplificadores de som (que não existiam quando o prédio foi construído) voltassem a ouvir a voz do barítono joinvilense. Em 2014, Douglas se apresentou com a extinta Orquestra Municipal de Joinville e, no mês seguinte, recebeu o convite para tornar-se diretor artístico da entidade. Desde então, a música erudita voltou a ter espaço na programação, de apresentações em que Douglas mostrava canções de Carlos Gomes e de Beethoven ao lado do pianista Matheus Alborghetti até a montagem de “óperas de bolso”.

— O crescimento foi gradativo, à medida que estas apresentações conquistaram o público e a confiança dos empresários que patrocinam. Ainda sonho que conseguiremos montar um coro e uma camerata novamente e oferecer aulas para garantir a formação de novos artistas — afirma o barítono.

Festival de Ópera para comemorar o aniversário

Nas comemorações do aniversário de 160 anos da fundação da Sociedade Harmonia-Lyra ocorrerá o 2º Festival de Ópera de Joinville. Em 31 de maio, será apresentado o concerto “Cortina Lírica” com árias famosas de óperas cantadas por quatro solistas renomados nacionalmente. Entre as peças apresentadas estão as “Bachianas”, de Villa-Lobos, e vários trechos da ópera Carmen, de Bizet. Os ingressos são gratuitos e devem ser retirados antecipadamente na secretaria da sociedade, com a doação de três quilos de alimentos não perecíveis.

Nos dias 6 e 7 de junho, a ópera “Madama Butterfly”, do italiano Giácomo Puccini, será apresentada em dois atos. Segundo o presidente Álvaro Cauduro, é a primeira vez em décadas que Joinville recebe uma montagem de ópera tão completa, com figurinos e adereços, coro, orquestra e solistas.

— A última vez que se tem notícia de uma montagem de ópera desta dimensão foi há mais de 80 anos, neste mesmo salão nobre da Harmonia-Lyra — lembra o presidente da entidade.

Os ingressos já estão disponíveis pelo TicketCenter, com valores entre R$ 30 e R$ 100, no site ou na MyTarget Idiomas.

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