Impressões de Cusco: a diversidade de um país que não cabe em um feed de Instagram

Fotos: Arquivo pessoal

Nunca prestei atenção à, digamos assim, harmonia do meu feed de Instagram — das cores, dos temas: simplesmente vou postando as fotos de que gosto e que acho que faz sentido compartilhar com o mundo, sem parar para pensar se os tons “combinam” com os das imagens publicadas anteriormente, e se o conjunto vai ficar bonitinho para quem por acaso visualizar meu perfil como um todo.

(Se você não entendeu nada, talvez não seja um usuário assim tão assíduo da rede social: grande parte dos usuários se esforça mesmo para construir esse conjunto harmonioso, passando longos períodos usando os mesmos filtros ou postando apenas fotos que tenham determinadas cores predominantes. Preste mais atenção aos perfis que segue, e você vai entender do que eu estou falando)

Mas ano passado, quando viajei a Montevidéu, eu notei uma coisa curiosa: sem que eu fizesse qualquer esforço, meu feed se tornou naturalmente harmonioso — todo em tons suaves do azul do céu e do mar, do cinza-claro das construções antigas, e com alguns respingos de verde dos jardins botânicos. Parecia algo feito de propósito, mas não era: era apenas a cidade impondo suas cores, seu estilo, seus ares e energia. As fotos da viagem, postadas diariamente ao longo de nove ou dez dias, me deram um feed “combinando”, com tons que eu passei a associar instintivamente àquele lugar e aquela época. Uma maneira diferente e colorida de organizar ótimas lembranças.

Há pouco menos de um mês, então, quando viajei a Cusco e Machu Picchu, no Peru, eu já esperava ganhar de brinde um feed organizado, com coisas e estilos que se tornariam, na minha memória, a marca registrada do país. Dito e feito: foram 19 fotos publicadas em sequência, e meu perfil no Instagram ganhou uma cara nova. A cor predominante da vez é o verde: não o verde vivo e brilhante dos jardins de Montevidéu, mas um verde queimado de frio, meio desbotado, com um ar ao mesmo tempo de coisa antiga e de secura – e como meus olhos, garganta e nariz sofreram com a secura de Cusco! É fácil esquecer como o ar de Floripa é úmido, quando estamos tão acostumados com ele. Mas nosso corpo sente a diferença; ah, se sente.

A outra cor é uma mistura de marrom, de vermelho-barro, do amarelo do sol e da areia: uma cor que se espalha pelas igrejas da Plaza de Armas, no coração de Cusco; que tinge as pedras centenárias dos sítios arqueológicos de Sacsayhuamán, Q’enqo, Puka Pukara, Tambomachay, Ollantaytambo, Pisac; que colore os poços na salineira de Maras; que se mistura ao verde nas montanhas e morros altíssimos que cercam a pequenina Aguas Calientes, a cidade que fica aos pés de Machu Picchu.

Parece uma combinação árida. De fato é, e há algo de solene nessa aridez: um senso de antiguidade e imponência associado ao tamanho das rochas usadas nas famosas construções dos povos antigos; ao fato de que algumas daquelas residências, templos e observatórios astronômicos já estavam em pé antes de os primeiros portugueses pisarem aqui no nosso Brasil. Há admiração pela genialidade com que incas e outros povos, que vieram ainda antes deles, construíram suas cidades e organizaram suas plantações e seus canais de abastecimento de água. Há reverência pelas altas montanhas, até hoje símbolos de espiritualidade para os peruanos. E há tristeza também: pelo modo como os povos nativos sofreram e tiveram sufocada a maior parte de sua cultura e de suas crenças.

Uma ironia? Os moradores de Machu Picchu deixaram Machu Picchu ao ficar sabendo da chegada dos espanhóis — e temer que um massacre aconteceria no momento em que aqueles homens descobrissem a cidade sagrada (que só foi batizada posteriormente: Machu Picchu e Huayna Picchu são originalmente as montanhas entre as quais o icônico local se abriga). Mas os espanhóis jamais descobriram Machu Picchu — que passou 350 anos abandonada, sendo aos poucos engolida pela vegetação, até ser redescoberta no início do século XX. Quem sabe, se os nativos tivessem permanecido onde estavam, Machu Picchu não seria conhecida como a mais bem conservada cidade inca — e sim como o local abençoado que permitiu a sobrevivência dos povos andinos?

Mas claro que há outras cores — tantas que é impossível listar aqui: nos xales, luvas, gorros usados para combater o frio; nas vestes tecidas e tingidas de modo artesanal, feitas de lã de lhama ou alpaca; nas acessórios usados pelas próprias “alpaquitas”, os filhotinhos exibidos aos turistas ávidos por fotos; nos mercados artesanais, onde se vende dos tradicionais “toritos” (miniaturas de touro feitas em barro, vendidas de duas em duas e mantidas na sala de estar ou sobre o telhado das casas, para atrair boa sorte e união para a família) a reproduções das flautas transversais cuja sonoridade é tão associada à região dos Andes; nas centenas (literalmente) de variedades de batata, chás e milho (tem até milho roxo!).

O que, na verdade, combina bem mais com os sorrisos, a alegria e a simpatia com que os cusquenhos recebem seus turistas. Porque vamos ser sinceros: por mais caprichadas que sejam as fotos, a diversidade de um país — qualquer que seja ele — não cabe em um feed de Instagram.

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