Profissionais de Santa Catarina mostram como é a nova rotina de trabalho nas startups

Às sextas-feiras, Anthônio Costa costuma ir fantasiado ao trabalho - Foto Felipe Carneiro

Às sextas-feiras, Anthônio Costa costuma ir fantasiado ao trabalho – Foto Felipe Carneiro

Por Fernanda Volkerling, especial

Em um prédio comercial do bairro Itacorubi, em Florianópolis, o segundo andar da Torre B é ocupado por duas salas amplas e bem iluminadas, nas quais a mobília é quase inteiramente formada por algumas bancadas coletivas, cadeiras giratórias e, claro, computadores. É nessas salas que funciona uma jovem empresa catarinense que desenvolve aplicativos para eventos e vem crescendo exponencialmente em um período de tempo muito curto – ou seja, uma clássica startup.

Clássica porque a denominação não é exatamente nova, e as definições se multiplicam. De acordo com um entendimento mais atual, uma startup é “um grupo de pessoas à procura de um modelo de negócios repetível e escalável, trabalhando em condições de extrema incerteza.” (Revista Exame, 2016). Ou seja, os tempos são outros, a era é digital e a guerra é pela informação a um touch de distância. Os clichês estão ratificados e gastos, mas uma velha profecia futurista ainda não se cumpriu: enquanto a máquina não substitui o ser humano, as startups ainda são um grupo de pessoas, e não estão apenas revolucionando o mercado em termos de inovações em produtos, mas transformando também os paradigmas que vinham norteando de modo hegemônico as relações e os ambientes de trabalho – entre seres humanos.

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Personalidade e irreverência

Santa Catarina abriga milhares dessas empresas, das que surgem hoje às que já estão estabelecidas no mercado, e Anthônio Costa, 24 anos, é testemunha deste processo de transformação. Às sextas-feiras, ele costuma ir para o trabalho com alguma fantasia, cosplay ou acessório divertido com os quais se sinta à vontade e ao mesmo tempo possa expressar o lado mais lúdico de sua personalidade entre os colegas da empresa.

Geralmente suas referências para a caracterização estão relacionadas ao universo nerd e à cultura pop, como Supermario (do videogame), League of Legends ou mesmo um par de orelhas do mundialmente conhecido Mickey Mouse, acompanhado de uma barba branca, batom preto e saltos altos – ou patins, que usa para ir de casa, no bairro Pantanal, até o trabalho. Impensável em uma repartição pública dos anos 1980 – ou na maioria dos escritórios tradicionais atualmente –, este não é um hábito aleatório.

Natural de Aracaju, no Sergipe, em 2014 Anthônio veio para Florianópolis cursar Relações Internacionais na UFSC. Na capital catarinense, encontrou acolhimento, tanto pelas pessoas quanto pela proximidade com o mar, e na empresa – atuando no relacionamento com os clientes no pós-venda – conseguiu conciliar suas expectativas e valores com uma atividade profissional.

– Eu procurava um local que me permitisse trabalhar em função de algo que agregasse à sociedade, que tivesse uma entrega clara de valor não só material, mas interpessoal, social, um produto que não fosse biodegradante, que conseguisse juntar as pessoas e que fosse uma empresa na qual eu pudesse me encaixar – pontua Anthônio, que também destaca a importância de poder expressar sua sexualidade no cotidiano do ambiente de trabalho.

– Como homossexual sempre tive receio de ter que ‘voltar pro armário’, e aqui o que ocorre é justamente o contrário. Tenho liberdade de ser quem eu sou, e isso é importante para o aspecto político da minha luta por visibilidade.

Ciclo virtuoso

Assim como muitas novas empresas estão se tornando mais abertas e dispostas a valorizar a individualidade de cada colaborador, o movimento inverso reforça esta tendência: tem gente preferindo trabalhar em empresas menores, mas que tenham perfis mais flexíveis e dinâmicos; que escutem a opinião dos colaboradores, em vez de reforçar a hierarquia a todo instante, como é padrão em muitas empresas tradicionais. Para essas pessoas, o prestígio das grandes corporações já não reina absoluto.

No mesmo prédio do Itacorubi, um andar acima, Rayra Castello Costa, 33 anos, atua na área de custumer success de uma startup que trabalha com gestão de inovação em computação em nuvem e já é uma das maiores parceiras Google do Brasil. Na sala multicolorida, as mesas amarelas e os balões pendendo do teto contrastam com seu estilo cotidiano básico: toda-de-preto – o que descreve como praticidade. Com experiências profissionais anteriores, Rayra depõe a favor dos novos modelos de gestão e de funcionamento das empresas:

– Já passei por empresa com perfil mais conservador e posso dizer que aqui as pessoas se ajudam mais. Trabalho em equipe é o principal. Outra diferença é o ambiente integrado, que permite a proximidade entre todo mundo e a interação. Acho que quebrar paredes é uma tendência em empresas que se preocupam com o bem-estar do trabalhador – destaca Rayra, que nas horas livres gosta de ficar em casa, receber os amigos ou curtir um show do seu estilo musical favorito: o metal. Em janeiro, no seu aniversário, os colegas prepararam uma festinha muito especial, com decoração de Halloween, uma brincadeira com esse lado meio dark de Rayra, que ela adorou.

Rayra Castello Costa já ganhou festa de aniversário com tema Halloween – Foto Felipe Carneiro

A pouco menos de 200 quilômetros dali, em Joinville, Eduardo Kruger faz questão de conciliar o trabalho com as outras atividades que considera importantes para a sua qualidade de vida. Aos 36 anos, ele acorda diariamente às 5h20min e sai para sua rotina de atividades físicas: academia e correr são as mais frequentes, mas sempre que pode faz trilha, vai à praia, faz sup ou surfa.

– Levei algum tempo pra perceber que é importante ter um equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, entre saúde física e mental. Então preciso que a empresa me permita isso, por exemplo com horários flexíveis – pontua Eduardo.

Trabalhando como desenvolvedor de um software de gestão de cobranças bancárias, ele não pretende ganhar o rótulo de workaholic – estilo de vida que considera ultrapassado. Além disso, também procura equilibrar o lado mais “nerd” do trabalho com atividades de lazer que não envolvam o computador: faz questão de não assinar Netflix e evita passar o final de semana no celular.

Além de colaborador, Eduardo tem uma participação no software – prática bastante comum, nas startups, de possibilitar que os funcionários sejam também investidores da empresa e de seus produtos. Na avaliação de Eduardo, isso garante ainda mais estímulo ao trabalho.

– Trabalhei em banco e empresas convencionais, e é legal o aprendizado, mas nesses espaços você tem um papel muito bem definido. Quando vai para uma startup, que é menor e precisa crescer, o envolvimento é bem maior. Eu gosto muito dessa ideia de fazer parte, e ter ações da empresa muda a forma como você encara as coisas no dia a dia – destaca.

Eduardo Kruger concilia o trabalho com uma rotina intensa de atividades físicas – Foto Maykon Lammerhirt

Ao pé da letra

Se a inovação é a base da startup, seria até estranho se essas jovens empresas continuassem a reproduzir velhos conceitos, igualando trabalho a sofrimento e perpetuando memes de ojeriza às segundas-feiras. Trabalhar é um martírio necessário para se chegar ao final de semana? Não na empresa, localizada às margens da Via Expressa no bairro Capoeiras, região continental de Florianópolis, onde Aline Martins, 40 anos, trabalha. Ela se convenceu a deixar a carreira de fotógrafa autônoma para retornar à área de finanças, quando percebeu o perfil da empresa – que tinha tudo a ver com o seu. Com filho pequeno, sua prioridade era ter uma agenda profissional flexível, com horários que ela mesma pudesse escolher.

– Aqui é muito diferente. As empresas pequenas nas quais trabalhei anteriormente eram todas familiares, e empresa familiar geralmente tem uma visão mais careta e fechada. Já na multinacional era muita burocracia, o controle era de um grupo estrangeiro que ditava muita regras. As regras são importantes, mas lá elas não podiam ser de jeito nenhum modificadas. Aqui, na área de inovação e tecnologia, a gente é livre para opinar sobre melhoria de processo – compara Aline.

Um dos principais valores da empresa é a música, por isso a sede conta com instrumentos espalhados pelas salas e até um mini palco para pequenos shows durante os happy hours. Além disso, piscina de bolinhas, pufes, um ambiente descolado e uma gestão que valoriza a individualidade de cada envolvido fazem com que o tempo passado no trabalho seja muito mais prazeroso. O resultado é que não só Aline consegue ter mais tempo livre para se dedicar ao filho, mas é o filho, de seis anos, quem adora visitar o trabalho da mãe.

Aline Martins deixou a carreira de fotógrafa para trabalhar em uma startup – Foto Diorgenes Pandini

Funcionários do mês

Duas ou três vezes por semana, Lafayette acorda cedo, toma o café da manhã e vai para o escritório, onde tem trânsito livre – até mesmo os funcionários da portaria já lhe reconhecem. Na sala, cumprimenta todo mundo – os preferidos merecem um entusiasmo especial.

Durante a manhã de trabalho, recebe vários chamados, muitos dos quais são ignorados, pois está ocupado com sua atividade favorita: dormir. Dono do cargo de Dog Relationship Manager, o bulldog francês preto, de orelhas sempre em pé, interage com colegas animais e humanos – preferindo os primeiros, principalmente se forem formigas. Na hora do almoço, compartilha o momento com os demais na copa da empresa que desenvolve aplicativos para eventos.

Pela tecnologia, Lafy, como é chamado pelos colegas, não tem o menor interesse, o que não impede que sua agenda esteja sempre recheada de atividades estimulantes. Geralmente, passa as horas do expediente entre seguir seu dono e receber afagos da equipe. A meta desse mês já está quase batida: de acordo com o contador oficial da empresa, já foram mais de três mil carinhos recebidos.

Em uma empresa que trabalha com hospedagem de sites, Mel é conhecida por ser organizada e agilizada. Logo que chega, arruma a mesa e organiza as pendências. Depois de ambientada, dá pulinhos pela sala para cumprimentar os colegas. Tímida, a coelha não é muito expansiva no que se refere a interagir com outros animais, mas também não quer passar despercebida: esfrega seu queixo em todos cantinhos e pessoas para marcar território.

Além de brincar com o mascote da empresa, sua atividade favorita no escritório é roer os fios dos computadores – nada que a equipe técnica, munida de fita isolante, não arrume. No fim do expediente tem a sensação de dever cumprido: mais sorrisos e agrados para o seu relatório mensal.

O bulldog francês Lafy é mascote da empresa que desenvolve aplicativos para eventos – Foto Felipe Carneiro