Ao lado de grandes nomes do cinema, o catarinense Fernando Sapelli encontra seu caminho na realização de produções com viés social

Aos 30 anos, o brusquense Fernando Sapelli acaba de estrear nos cinemas como produtor do documentário Exodus: De Onde Eu Vim Não Existe Mais, dirigido e roteirizado por Hank Levine, de Lixo Extraordinário e Praia do Futuro, com narração de Wagner Moura. A produção, que traz ainda nos créditos nomes como do premiado Fernando Meirelles, de Cidade de Deus, faz um retrato das dramáticas e íntimas histórias de refugiados de diferentes partes do mundo que tiveram de deixar suas casas por motivos distintos. As filmagens passaram por diversos países como Sudão do Sul, Argélia, Congo, Mianmar, Cuba, Brasil e Alemanha e duraram cerca de dois anos.

Mas a memória mais remota do catarinense em relação à Sétima Arte é praticamente idêntica a de todos de sua geração. Ele entrou no cinema pela primeira vez para acompanhar as aventuras da então maior estrela das produções nacionais: a apresentadora Xuxa. Claro, não foi necessariamente a história da loira que marcou nosso entrevistado. A experiência na sala escura e o mergulho naquele universo estão em suas lembranças desde então.

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Fernando não veio de uma família com uma veia artística intensa, mas desde criança estava à frente das peças de teatro da escola ou gravando vídeos das viagens. Na faculdade, ele escolheu teatro e cinema. Produção, mão na massa, entendimento do que está por trás da realização dos sonhos de uma equipe. Estudou na Califórnia, pertinho de Hollywood, ainda a grande indústria do setor.

Após anos nos Estados Unidos, ele voltou ao Brasil. Já havia entendido, depois da produção de um documentário sobre ONGs, que seu cinema seria focado em um lado mais social. Para fazer pensar, debater, para colocar o dedo nas feridas. Então, conheceu Hank e iniciou a produção de Exodus, atualmente em cartaz no país. Em Santa Catarina, está em exibição em Florianópolis e em Brusque.
Nesta entrevista, feita por telefone desde São Paulo, onde Fernando mora e trabalha – “mas eu vivo em Santa Catarina, onde mora toda a família” –, ele conta como escolheu este caminho, o processo de concretização do documentário e o trabalho ao lado de feras consagradas do cinema brasileiro.

Como o cinema surgiu na sua vida?
Sempre tive uma vontade, uma relação com o cinema e o teatro. Quando fui fazer faculdade, escolhi teatro e, no meio do processo, também fui fazer cinema. Mas eu acho que lá entendi (que o cinema) me proporcionava essa imersão em lugares diferentes, você poder sair, não estar num espaço físico único. Aí começou essa paixão.

Suas lembranças mais remotas ligadas ao cinema são as sessões do Cine Gracher, em Brusque?
Foi, verdade. Engraçado você lembrar disso. A primeira vez que fui ao cinema foi para ver um filme da Xuxa, o Lua de Cristal (risos). Lembro desse momento, daquele espaço, enfim, não foi o momento definitivo, mas tenho na memória essa cena.

Onde você estudou cinema?
Em Santa Barbara, na Califórnia, foram dois cursos. Depois, morei mais dois anos em Los Angeles.

Como essa experiência nos Estados Unidos contribuiu para sua formação?
Assim que me formei, fiz um estágio na produtora do Leonardo DiCaprio, fiquei lá quase um ano. Então, tinha um pouco dessa coisa de Hollywood, de estar perto de uma pessoa que tem uma grande representatividade, entender como funciona, essa rotatividade de ideias, tem que ler, avaliar, projetos de grande de valor. Você entende quanto aquela indústria gera e as cifras que estão por trás.

Também teve uma coisa criativa, quando comecei a arquitetar minhas escolhas. Ele (DiCaprio) já tinha esse olhar voltado para o meio ambiente, com filmes não só com apelo comercial, mas também como um diálogo, uma ferramenta que o público possa discutir. Depois, fiquei na Sony por quase um ano também. Lá foi mais essa coisa de escritório. Aí eu entendi que não era o caminho que queria seguir, uma coisa mais burocrática e rotineira. Decidi sair e focar nessa parte de produção de conteúdo, inicialmente de videodocumentários e agora de ficção também.

No meio do caminho teve o documentário sobre as ONGs?
Antes de sair da Sony fui atrás de recursos para produção deste documentário sobre o trabalho de ONGs mundo afora. Depois desse período, essa viagem determinou a linha editorial, de corte e de filmes que eu queria estar envolvido. Que é essa coisa de produzir conteúdo que possa ter algum tipo de impacto.

Como entendeu que seria esse seu caminho profissional?
Foi a combinação de você entender que tem uma ferramenta muito forte nas mãos, que é o cinema, e pode ser usada para trazer esse diálogo, tem uma bagagem de conhecimento. Entender o cinema como essa ferramenta, não largar mão da paixão e buscar um caminho.

E quando surge a produção de Exodus?
(O documentário) já veio com uma bagagem do diretor, ele já tinha tido uma experiência com refugiados. A gente se conheceu depois dessa viagem do documentário sobre as ONGs. Entendemos que os dois tinham conhecimento e poderiam agregar no projeto dali pra frente. A gente ficou pesquisando ao longo dos três anos, buscando financiamento, é um projeto de dimensão global com um orçamento grande. A produção começou em 2014 e foram dois anos em viagens acompanhando os protagonistas do filme.

Qual é o seu papel como produtor em um documentário deste porte?
Eu acabei tomando duas posições, que são distintas. Primeiro, como produtor, você é responsável por estar alinhado com o diretor, que tem a visão artística. Você tem que estar ciente do orçamento, do tamanho do projeto, toma decisões como, por exemplo, se vale a pena mandar equipe para determinado local. Sempre tentando produzir de acordo com a visão do diretor e entendendo as limitações, seja de orçamento ou de risco.

Você abre essa frente de buscar recursos, defende o filme em editais públicos e fundos, em marcas que patrocinam o filme. E uma vez que o filme está pronto, você trabalha o esquema de distribuição e venda. Outra posição foi a produção de campo, eu estava viajando com a equipe do filme, fazendo a produção local, ajudando, sempre esse ponto de referência para que o diretor fique focado na direção artística e você resolvendo outras questões.

Como vocês chegaram aos protagonistas?
Quando começou o projeto, em 2008, o Hank já sentiu que era uma temática que estava no começo, havia uma movimentação global. Mas a gente queria ter um recorte global, que não fosse pontual somente na Síria, por exemplo. A gente começou o filme com 12 regiões, mas por uma questão de orçamento e narrativa vimos que não conseguiríamos levar adiante. A partir daí fizemos um outro recorte e fomos em busca de produtores locais.

Enfim, a gente passava a demanda e os personagens que buscávamos. Nos locais mais distantes, a gente só conhecia as pessoas quando chegava lá. E aí ficávamos uns dias criando uma relação e entendendo quando a pessoa estava preparada e disposta para contar sua história. Dos seis protagonistas, quatro são mulheres. Sempre tivemos essa preocupação porque na questão dos refugiados as mulheres e as crianças são as que sofrem mais. O Hank, como diretor, sempre teve essa visão de focar nas mulheres. No começo achamos que seriam só elas, mas aí decidimos ter outras perspectivas.

Qual sua opinião sobre o assunto?
A gente está apenas no começo de uma grande crise humanitária e não entendemos como vamos lidar com essa situação. Seja no Brasil, seja na América Latina, América do Norte, Europa, enfim, outros continentes que recebem e têm esse movimento. A gente se fechar, e achar que o fechamento de fronteiras é o melhor caminho a história já nos mostrou que não foi a melhor solução. É um momento de todos se abrirem, entenderem quem são as pessoas, quais são as causas que elas são obrigadas para deixar seus lares. Em cima disso buscar melhor a maneira de resolver.

Neste projeto você tem como parceiros grandes nomes do cinema brasileiro. Como foi esse contato?
Uma escola. Poder fazer um longa com eles, pessoas que têm indicação ao Oscar, têm uma bagagem enorme, até o Wagner (Moura) participa do filme. Pra mim, que sou o novinho da turma, é e tem sido um aprendizado muito grande.

Fernando Sapelli – Foto Daniel Lenço, divulgação

Equipe Versar
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