Conheça Lala Deheinzelin, a ex-atriz de novela que virou referência mundial em inovação, economia criativa e novas sociedades

Lala Deheinzelin – Foto Alvarélio Kurossu, Agência RBS

Por Fernanda Volkerling, especial

Certa noite, a mãe de Lala Deheinzelin encontrou a filha sentada na escada de casa, no meio da noite, no escuro. Perguntou o que ela fazia ali, ao que Lala respondeu: “Estou pensando no mundo”. A menina tinha então apenas três anos, mas esta precoce atitude reflexiva jamais lhe abandonou. Pelo contrário, a necessidade de resolver problemas se tornou o epicentro de sua vida: Lala é hoje considerada referência mundial em estratégias criativas e colaborativas de desenvolvimento sustentável com base no olhar sobre o futuro, expoente do Movimento Crie Futuros – tema de sua palestra em Criciúma na próxima semana – e uma das 100 mulheres do globo que estão cocriando a economia e a sociedade.

Na década de 1980, Lala podia ser vista na novela Vale Tudo, na qual interpretou a personagem Cecilia (ao lado de Cristina Prochaska, formava o primeiro casal lésbico da televisão brasileira). Também trabalhou como coreógrafa, dançarina, produtora, diretora e apresentadora. Ao dar-se conta do potencial estratégico da arte e da cultura, Lala saiu da frente das câmeras para se tornar uma futurista, expandindo sua atuação como produtora de conhecimento para outros segmentos e chegando hoje a um currículo que ultrapassa 100 páginas em seu site, www.laladeheinzelin.com.br.

Com passagem pelas áreas corporativa, terceiro setor e desenvolvimento local, Lala trabalhou também em escala global, junto à ONU, atuando em quatro continentes, e a governos nacionais, quando percebeu a necessidade de preparar pessoas e organizações para novas estratégias de desenvolvimento.

— Foi então que comecei a sistematizar esse conhecimento de futuro e economias, e o resultado é a fluxonomia 4D — resume Lala, autora do livro Desejável Mundo Novo.

A fluxonomia 4D é a ferramenta que Lala utiliza para formar novos futuristas, indivíduos conectados com as tendências econômicas e sociais. Com agenda cheia e horários apertados, em deslocamento entre uma atividade e outra, Lala respondeu a algumas perguntas, e fundamentalmente deixa a mensagem: não espere pelo futuro, pois ele já chegou.

Como é ser futurista e trabalhar basicamente com o hoje, com o agora? Afinal não se trata apenas de conjecturar. Então quais relações você estabelece entre a atualidade e o que ainda está por vir?
Realmente ser futurista é trabalhar para o presente. A gente não tem, como indivíduos e sociedade, a tecla refresh do computador, que atualiza, então vivemos norteados por coisas que já não valem mais. O trabalho do futurista na verdade é nos colocar no contexto atual. É mostrar o que já mudou no mundo, e que não dá pra continuar operando da mesma maneira. Quem não está olhando para o futuro, na verdade, está no século 20 e não no século 21. Ser futurista é apertar a tecla refresh nas escolhas de vida pessoal, de vida profissional, de organização empresarial.

Que tipo de ideias estão desatualizadas?
Muitas vezes nós estamos dedicados a pensar soluções para coisas que não terão mais sentido no futuro. Por exemplo, na passagem do século 19 para o 20, as cidades que mais cresciam era movidas a cavalo. Tinha muito cavalo e, consequentemente, muito coco de cavalo. O desafio dos futuristas e dos urbanistas era o que fazer com tanto coco de cavalo. Enquanto eles discutiam isso, os carros substituíram os cavalos. A gente não pode pensar em fralda de cavalos. O futuro e o presente são como duas pernas. Uma está no futuro, servindo para nortear, enquanto a outra está no agora, percebendo o entorno. Quanto mais percebermos o que está acontecendo ao nosso redor, e mais nos abrirmos para novos tipos de informação, melhor preparados estamos.

As pessoas ficam curiosas com o fato de você ser ex-atriz de novelas. Quando ou de que maneira você percebeu que a criatividade poderia ser explorada de outras formas na sua vida?
Na verdade, eu sempre quis resolver problemas. Tive o privilégio de ter uma experiencia de vida extraordinariamente diversa, sempre dedicada a solucionar problemas. A primeira etapa disso foi na área cultural, que é uma área extraordinária para isso, porque mexe com a essência do ser humano e mexe com linguagem. Linguagem é tudo, comunicação é tudo. Então, hoje o trabalho de atriz me é muito precioso, porque eu vivo de palestras e de formações. Estou formando pessoas nisso que é necessário para o século 21, que é o estudo do futuro combinado com novas economias. Isso ainda é muito novo no Brasil. Para isso toda a minha expertise de atriz serve muito, mas eu não consigo ser só atriz, porque sempre tive um trabalho de produção e de pesquisa do conhecimento.

De certa forma, todos precisamos ser criativos em alguma medida. Todo empresário, por exemplo, é um pouco criativo. Mas nem toda empresa é expoente da economia criativa, colaborativa, ética, etc. A partir de que momento um projeto passa a fazer parte de uma economia criativa?
Ser um projeto de economia criativa é algo que seria mandatório, não apenas para empresas, mas para nós como profissionais. O mundo é muito grande e cheio de pessoas, então o grande desafio que você vai ter como profissional, num mundo onde cada vez mais haverá trabalho, mas não haverá emprego, é saber qual o seu diferencial. Economia criativa é você saber o valor do que faz, não apenas do ponto de vista tangível. O grande valor mesmo está no intangível. Do ponto de vista da empresa é a mesma coisa. Todos precisam saber qual é o seu diferencial, do que estão cuidando, a qual comunidade estão ligados, que futuro revelam. Isso é o que dá valor para um negócio.

Lala Deheinzelin especialista em Economia Criativa e colaborativa Indexador: Alvarélio Kurossu, Agência RBS

E quanto à economia compartilhada, que situações ela viabiliza?
A grande questão é que neste momento é impossível realizar coisas apenas com recursos monetários. Existem muitos outros recursos que as lentes da fluxonomia permitem que a gente enxergue. É fundamental reconhecermos quais recursos não monetários estão disponíveis para serem usados. Por exemplo, não faz mais o menor sentido construir infraestrutura, espaços de trabalho, fábricas, ateliers, máquinas, equipamentos, materiais. Tudo isso deve ser compartilhado. Não é mais a posse, é o uso. Nesse momento de transição, o empresário ou o profissional que não tiver essa percepção está em uma situação muito complicada.

De que maneira esse olhar sobre o futuro está na sua rotina, no seu dia a dia?
Estou 100% do tempo dedicada a perceber o que está acontecendo e imaginar possibilidades. Todo o meu tempo de lazer é de reflexão sobre o que eu vejo, o que eu faço. Não tenho passatempos, por exemplo. Também me dedico a perceber do que realmente nós precisamos. Minha empresa foi diminuindo e hoje a gente só trabalha remotamente, antes tínhamos salas com muitas pessoas. Agora tenho equipes flexíveis que se agrupam por projeto e todo mundo trabalha remotamente. Isso é outra coisa que a gente precisa: preparar as pessoas para o trabalho remoto. E sustentabilidade, claro. A questão é ver como a gente percebe o que é suficiente e necessário em cada momento. Também cuido muito da gestão de mim mesma, sou muito atenta com alimentação, cuidado com o corpo etc.

Lala Deheinzelin e Cristina Prochaska em Vale Tudo, o primeiro casal lésbico da TV – Foto Reprodução

Em contrapartida a essa tendência do compartilhamento que você menciona, e que de fato a gente já vê acontecendo, parece existir uma espécie de ‘efeito rebote’ no plano político-ideológico, com o reaparecimento (se é que haviam desaparecido) de movimentos de segregação, intolerância, discriminação e etc, baseados justamente numa vontade de não compartilhar o espaço, a nação, a identidade cultural etc. Como você vê isso?
A resposta é uma das leis da física: toda ação gera uma reação em igual medida e esforço. Na verdade a reação demonstra o tamanho da ação. Isso é um sinal de mudança, todas essas coisas estavam presentes, mas não estavam reveladas. No momento em que existem mecanismos de transparência, isso aparece mais. A grande questão é que a rede demanda convergência. E qual é o problema no campo da sociedade e da política? Não estamos convergindo. Até existem ferramentas, como o Mudamos (aplicativo para assinatura de projetos de lei de iniciativa popular), mas não há comunicação suficiente dessas ferramentas.

À medida que vamos nos diversificando como postura, em vez de convergir nós divergimos, parece que vai chegar o momento em que existirão tantos partidos quanto pessoas. Os conservadores estão em menor numero, porém estão convergindo, estão alinhados. Porque isso é da natureza do conservadorismo, escolher a mesma coisa. Enquanto os mais inovadores estão espalhados. A questão é convergir essa potência, aproveitar a rede. O tempo, o recurso, o conhecimento estão desperdiçados na fragmentação.

E sobre o espaço da mulher neste movimento de transição: qual o próximo passo?
Eu acho que a questão agora é incluir os homens. Já está bastante forte o movimento de inclusão do feminino, mas isso está gerando uma separação que é muito complicada. Acho que está na hora de começar a ter movimentos de inclusão do masculino, porque em todos os movimentos de mudança, transformação, consciência que vejo, 85% das pessoas que participam são mulheres e isso é muito ruim, a gente precisa da participação dos homens. Cadê os homens na transformação? Eles estão de maneira geral muito ausentes desse cotidiano do cuidar, transformar, colaborar.

6 palavras essenciais para um criativo de sucesso

Exponencial

É o que caracteriza esta transição. Desde que estamos em rede, entramos em uma dinâmica exponencial. Isso é muito difícil, porque o mundo, ou seja, a velocidade das coisas, está exponencial, mas o corpo, o tempo e o planeta não. Como lidar com isso é a grande questão.

Futuro

Compreender que o quê estamos vivendo não é uma crise, é a maior transição da história da humanidade, para a qual precisamos nos preparar de uma forma criativa, e não reativa. Se atuarmos de forma reativa, não saíremos do lugar.

Colaborativo

Criar novos modelos de gestão onde se ganhe escala com cada um fazendo um pouquinho, porque esta é a única maneira de otimizar recursos, tempo e etc.

Compartilhado

Passar da lógica do possuir para a lógica do usar.

Economia criativa

A chave aqui é buscar o seu valor, como profissional ou empresa, no propósito do que você faz. Onde está a ética?

Multivalores

Saber que estamos em um momento no qual recursos não são só moeda, mas também culturais, sociais e ambientais, e o resultado de tudo que geramos como profissional também precisa ser multidimensional. Não pode ser apenas financeiro-quantitativo, tem que também produzir mais conhecimento, criatividade, otimizar o ambiente, gerar coesão entre as pessoas.

Serviço

Expomais – Encontro Sul Brasileiro de Marketing, Administração, Inovação e Estratégia.
Quando: 25 e 26 de outubro
Onde: ACIC – Criciúma
Inscrições: A partir de R$ 180 pelo site
Mais informações: www.expomais.com

Palestrantes:
Lala Deheinzelin
Eliane Cantanhêde (jornalista)
Fernando Kimura (Academia Neuromarketing)
Renato Stefani (Hacklife)
Gil Giardeli (ESPM)
Maurício Vargas (Reclame Aqui)
Alexandre Barbosa (Sicredi)

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