Catarinenses adeptos do crossfit relatam os resultados do esporte no corpo e na saúde

Ione parou de sentir dores após praticar crossfit – Foto Cristiano Estrela, Diário Catarinense

É difícil encontrar alguém que tenha desistido de praticar crossfit. Sim, pode soar estranho, e provavelmente você conheça alguém que tenha tentado, mas por algum motivo tenha parado de frequentar as aulas. Mesmo assim, a palavra “desistir” parece um pouco pesada para uma atividade física cuja base é o incentivo do coach (treinador) e do grupo e a superação.

O crossfit foi criado pelo americano Greg Glassman, que abriu seu primeiro centro de treinamento em 1995. Hoje, a prática já é esporte, com competições pelo mundo. Glassman foi o primeiro a combinar a série de exercícios — alguns deles com referência a treinamentos militares — que prometem estimular todo o corpo com conceitos de alimentação e hábitos saudáveis. Quem frequenta os boxes, como são chamadas as academias, repete que o principal benefício de estar ali e treinar pelo menos três vezes por semana é repensar a forma como se vive. É por isso que aquele seu amigo insiste tanto para você acompanhá-lo e começar a praticar logo.

E a campanha tem feito sucesso. Depois dos Estados Unidos, o Brasil é o segundo em número de boxes. São 1.080 centros de treinamentos credenciados, de acordo com a Crossfit Foundation. Em Santa Catarina, segundo estado do Brasil que mais pratica esporte conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad 2015, divulgado este ano), são pelo menos 56 unidades credenciadas. O primeiro box surgiu em São Paulo em 2009 e há cerca de um ano houve um boom de academias — muitas sem credenciamento à fundação de Glassman.

Nesta reportagem, entrevistamos pessoas que praticam ou praticaram crossfit por pelo menos um ano. A ideia é entender o que há de tão fascinante neste esporte/atividade física que faz com que tanta gente acorde cedo para pular em caixas, correr e fazer barra. Há também ressalvas sobre a prática, conforme indica um professor da UFSC e um praticante que se lesionou após dois anos de atividade. Para os sedentários, o que parece uma tortura é rotina na vida do crossfiteiro — como a internet apelidou os praticantes. Os memes — que brincam com a paixão em torno do crossfit (basta procurar #crossfit no Instagram pra ver uma série de selfies no espelho da academia, muito suor e imagens de autoajuda) — também criaram uma aura que afasta aqueles que não gostam de competição, por exemplo.

Sem dor

Se a imagem que você tem do crossfit é de pessoas que carregam peso além do que podem, a história da empresária Ionel Tremel do Valle Pereira vai surpreender. Aos 52 anos, ela evita passar um dia longe do box, no bairro Santa Mônica, em Florianópolis. Com sorriso no rosto e uma energia de dar inveja a esta repórter, Ione nos recebeu às 8h30min de uma sexta-feira para a entrevista. Ela já havia finalizado dois treinos quando chegamos.

— Cheguei às 7h e aproveitei pra treinar — contou sem desanimar quando avisamos que ela talvez teria que repetir alguns dos exercícios para as fotos.

Ione é esportista há muito tempo, mas aos 49 anos ingressou no crossfit por incentivo da filha, Luisa. A grande surpresa é que tudo começou porque a mãe sentia muitas dores no quadril quando jogava tênis. Ione já fazia tratamento com acompanhamento médico e viu no crossfit uma chance de reforçar os músculos inferiores. Havia tentado hidroterapia, bike e musculação, mas foi no box que a dor foi cessando aos poucos. Depois de um mês, já havia sentido a diferença.

— O mais importante do crossfit é aprender a técnica e seguir o que o coach indica. É uma evolução. Comecei carregando pouco peso, depois fui evoluindo. O que mudou para mim foi que ganhei mais potência, força e resistência.

Hoje a família treina junto e Luisa, 30 anos, está sempre de olho na postura da mãe. Ione ocupa a quinta posição entre atletas brasileiras na faixa de 50 aos 54 anos no Crossfit Games. E o quadril nunca mais reclamou.

Ione e a filha Luisa – Foto Cristiano Estrela, Diário Catarinense

Sono regrado

Os resultados nos jogos de futebol mostraram para Isadora Orssatto que ela está cada vez mais forte e resistente. A designer de 24 anos hoje trabalha como recepcionista no box de crossfit mais antigo de Florianópolis (que abriu em 2012), onde também treina diariamente. Isadora pratica crossfit há dois anos e conta que, além de conseguir chutar a bola com muito mais força, há outras mudanças percebidas no corpo e na saúde. Perdeu 9kg de gordura e ganhou 4kg de músculo. O sono está mais regrado, ela consegue dormir sempre no mesmo horário e acorda pouco durante a noite, o que antes era um problema para ela. Isadora garante que nunca se machucou.

— Os coaches acompanham de perto e tento seguir o que eles me passam. Senti que até meu cabelo melhorou porque comecei a cuidar da alimentação. Não faz sentido se esforçar tanto se você não cuida disso — explica.

Isadora começou a levantar peso aos poucos e até umas semanas atrás usava elástico como apoio para ficar suspensa na barra fixa. Agora, se orgulha de ter ganhado força suficiente para deixar o acessório de lado.

Isadora – Foto Cristiano Estrela, Diário Catarinense

Mais saudável

O publicitário Victor Fernandes, 24 anos, até praticava esportes, mas acabava enjoando e não se sentia motivado a mudar os hábitos. Ele estava acima do peso quando começou o crossfit há dois anos. Desde lá, perdeu 12 quilos. Parou de consumir bebidas alcoólicas e mudou a alimentação. Tudo isso porque percebeu que estava evoluindo.

— Com algum tempo de prática as percepções foram mudando, a capacidade de fazer exercícios novos, com mais cargas e mais números de repetições começaram a se desenvolver, principalmente nos exercícios ginásticos. Com as mudanças aparecendo, tive motivação para alterar os meus hábitos fora dos treinos — afirma.

Victor já participou de quatro competições, regional e interestadual, mas mudou a intensidade dos treinos aos poucos. Já chegou a frequentar o box em Blumenau por sete dias da semana. Ele pretende continuar competindo, mas agora treina três vezes por semana e respeita o descanso, seguindo a frequência indicada na apostila do Crossfit.

Victor – Foto Patrick Rodrigues, Jornal de Santa Catarina

 

Equilíbrio

Rodrigo Lopes treina três vezes por semana. Ele começou a praticar crossfit no ano passado. Rodrigo é arquiteto e sentiu melhora no condicionamento assim que começou a praticar. Conta que perdeu 3kg em 20 dias com o crossfit. O exercício também melhora muito o sistema cardiorrespiratório. Em 2009, após um acidente de moto, teve a perna esquerda amputada, mas isso não foi impedimento para ele deixar os esportes. Três anos depois começou a treinar e se tornou triatleta. Hoje, pratica crossfit em um box em Chapecó como complemento para ajudar nas competições. Percebe também melhora em outros aspectos da vida.

— É uma atividade completa, envolve todo o corpo. Ajuda a fortalecer e no condicionamento. Vi que melhorou muito meu equilíbrio também.

Rodrigo – Foto Angélica Lüersen, especial, Diário Catarinense

Probabilidade alta de lesão

Por ser uma atividade intensa, o crossfit tem grande chance de gerar lesão se não for praticado com cuidado e atendendo as restrições de cada um. Tanto médicos quanto coaches indicam que a pessoa se informe sobre o box e entenda como são os treinos antes de sair pulando caixa ou erguendo barra. Para iniciantes e para esportistas, a orientação de um profissional é essencial.
Isso porque o risco de se machucar é alto.

De acordo com pesquisa publicada no Journal of Strength and Conditioning Research, nos Estados Unidos, 73% das pessoas que praticam crossfit sofreram lesões. O índice de quem precisou passar por alguma cirurgia após se machucar na atividade chegou a 7%. A razão apontada por especialistas é a frequência exagerada de exercícios, sem dias de descanso, e uso de carga irregular, ou seja, tem gente que carrega peso além do que deve.

Coordenador do Laboratório de Esforço Físico da UFSC, doutor Luiz Guilherme Antonacci Guglielmo considera que por ser uma atividade intensa é provável que o crossfit, se praticado a longo prazo, possa causar danos. O laboratório faz pesquisas sobre desempenho e o quanto as atividades impactam em quem está praticando. Ainda não há estudos específicos sobre o crossfit, por isso, Guglielmo considera que o esporte seja visto com cuidado.

— É importante entender a resposta interna de cada pessoa, monitorando a carga e a resposta de cada aluno para saber qual exatamente é o impacto — completa.

De outro lado, quem incentiva a prática garante que a adaptação é possível. O coach Luciano Abel, de Florianópolis, afirma que os boxes que seguem o crossfit original, criado por Greg Glassman, têm exercícios que podem ser aplicados conforme a capacidade de cada praticante. Mesmo que iniciantes e avançados ocupem o mesmo espaço, a quantidade de peso e as séries mudam para atender todos de uma forma mais adequada e com menos chance de lesão.

— Nós adaptamos o movimento com o uso de elástico ou de pesos menores, mas mantemos o estilo do exercício. Ou seja, a pessoa vai desenvolver a força e a resistência, mas conforme a capacidade dela — explica Abel.

Ele indica a prática entre três a quatro vezes por semana para quem quer usar o crossfit como atividade física, já os atletas podem aumentar a frequência entre cinco e seis. Para o coach, é importante também que o aluno esqueça o ego e evite se comparar com os outros praticantes, mas que preste atenção ao próprio rendimento.

 

Erros mais comuns

Como estimula o corpo como um todo, o crossfit é comumente buscado por quem quer emagrecer ou definir os músculos. Porém, o médico Bruno Cardoso, especialista em Medicina do Esporte, afirma que a atividade física foi criada principalmente para combater as doenças crônicas, aliando os exercícios à vida saudável. Para ele, qualquer pessoa pode praticar crossfit, inclusive crianças e idosos, desde que sejam respeitadas as limitações. Se a pessoa já tem algum problema de saúde, deve procurar orientação médica antes de começar.

— Postura errada, repetição intensa de um mesmo exercício, carga em excesso e falta de descanso são os principais erros. É importante que as pessoas entendam a técnica e sigam as orientações. A alimentação, com pouco açúcar e amido e mais frutas e sementes, e hidratação com água são ideais para acompanhar os exercícios.

Longe do box

Giovani Luiz Beninca, gerente comercial, já foi crossfiteiro de carteirinha. Por dois anos treinou intensamente, mas há um ano e meio não quer saber de pisar em um box. Morador de Joinville, Giovani é corredor e realmente viu o corpo mudar quando praticava crossfit. Ele sentia tudo que os outros entrevistados contaram: mais força, mais resistência. Porém, a vontade de se superar cada vez mais, estimulada pelo esporte, acabou com uma lesão na lombar. A dor conquistada com levantamento de peso em excesso faz com que ele não indique o crossfit pra ninguém.

— Você acha que pode fazer tudo, vira uma competição. Hoje, prefiro correr ou fazer um funcional, que são atividades mais tranquilas — explica.

Corredor, Giovani perdeu 11 quilos e começou no crossfit para ganhar peso. Começou treinando três vezes ao dia, depois não tirava nenhum dia para descanso. Era disciplinado e viu que tinha mais equilíbrio e mais resistência, mas queria ser ainda melhor. Foi aí que acabou se machucando.

Giovani – Foto Maykon Lammerhirt, A Notícia

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Carol Passos
Editora assistente da Versar, borda, escreve e edita

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