Siga a luz vermelha: festinhas em repúblicas resgatam espírito de fraternidade e vão na contramão das grandes baladas universitárias

Siga a luz (e vá parar em um terraço com uma baita vista da cidade). Fotos: Yasmine Holanda Fiorini

Uma mensagem encaminhada pelo WhatsApp alertava para os chamados “avisos paroquiais”. Entre orientações como cuidar com o parapeito, não zoar as áreas comuns do prédio, respeitar as cachorras e apreciar o rolê clássico, havia uma senha para entrar no evento: maracujá com morango.

Esse também era o sabor de uma das caipirinhas servidas em uma festinha realizada em uma república de estudantes da UFSC, em Florianópolis. Na contramão das grandes baladas universitárias que estão cada mais mais profissionais, grupos de amigos que vivem juntos vêm tentando resgatar o espírito de fraternidade com encontros mais intimistas, regados a bebidas baratas (são universitários, afinal) e embalados por sets de amigos que atacam de DJ.

Rolê acontece no terraço do apartamento duplex

Pelo boca a boca, alguns desse rolês acabam ficando mais famosos que outros entre esse público. Na Red House Bartira, por exemplo, tem até gente que fica de fora esperando outros saírem para poderem entrar. As festas na república localizada no Pantanal começam e terminam cedo – por ser localizada em um prédio residencial, há que se respeitar as regras do condomínio. Oficialmente acaba às 22h, mas a música se estende até perto das 23h. As bebidas também somem por volta desse horário, em uma espécie de estratégia para a galera se tocar que tem que ir embora em breve.

— Já reclamaram muito, mas hoje temos bom relacionamento. O síndico explicou os pontos em que a gente pecava, como a bagunça na área comum do prédio, a música eletrônica alta. Hoje a gente sempre avisa antes quando vai ter festa — conta o mato-grossense Arthur Hugueney, o “Shrek”, que por volta das 23h daquela noite tirava as bebidas do alcance da galera sem piedade.

Sinta a vibe do rolê:

Por lá, divididos em duas coberturas duplex, moram oito estudantes de diferentes tipos de engenharias, todos homens, e duas cachorras, a Charas e a Shiva. Tudo começou quando dois deles, um goiano e um paulista, vieram estudar na Capital. A Bartira começou em outro prédio e, na mudança para o atual espaço, eles se uniram com outra república, a Red House. É daí que vem a luz vermelha que é ligada diariamente nos apartamentos e que dá todo um clima para as festinhas realizadas no terraço. O símbolo dessa fusão é um aperto de duas mãos que 10 amigos têm tatuado na pele – os desenhos são feitos por Rodrigo Kresch, tatuador que, apesar de não morar com o grupo, é um dos chamados “agregados”.

— Representa irmandade, parceria, comprometimento. Aqui em Florianópolis não tem tanto essa cultura das repúblicas, que é muito forte em outros estados. A gente sentia falta. É um lifestyle. As festas universitárias se perderam, estão muito comerciais. O negócio são as pessoas juntas, querendo se divertir, algo mais universitário raiz — conta o paulista André Luiz Schaffer, o “Zidane”.

Símbolo que virou tatuagem

— No rolê das repúblicas, todo mundo se conhece ou é conhecido de conhecido — resume o estudante Pedro Gauch, que, apesar de hoje morar sozinho, vai todo os dias visitar os amigos com quem já dividiu moradia.

Festa maior reúne moradores e agregados de três repúblicas

A festa que a reportagem visitou na Red House Bartira foi uma espécie de preview para uma maior que vai rolar no dia 9 de dezembro, no parador Barong, em Canasvieiras. A Rep’s Beach Party vai unir moradores e agregados de três “reps” próximas à UFSC – além da Red House Bartira, participam a Taberna Viking e Repzenha – nesta sexta-feira (1º), é a vez da Taberna receber o preview.

A Rep’s Beach Party é open bar de, entre outras bebidas, a famosa Caipirinha da Betonada da Civil, feitas pelo estudante de engenharia civil Lucas Hachmann com sucos naturais de fruta, vodca e gelo. Será a quarta edição da reunião de repúblicas e a expectativa é de juntar 500 pessoas – bem mais gente do que os rolês que as moradias comportam, mas ainda assim um número pequeno se comparado com as tradicionais festas universitárias que ocorrem na Capital.

— Nossa ideia não é fazer dinheiro, é reunir os amigos. Mais gente que isso perde a essência e a gente quer manter a vibe. A gente não coloca comissários distantes para vender ingresso, mantém no nosso mundo, é feito por nós e para nós — diz o paraense Delrobson Nava, que mora na Taberna e garante que quem tiver vontade de curtir uma festa universitária raiz é bem-vindo.

— As pessoas podem ir se elas sentem a vibe de amizade. A gente transpira isso. Quem é de fora chega lá e vê que não vai rolar chegar e forçar uma mina, pegar no braço, por exemplo. Tem troca de histórias, conhecimento. Não precisa ser do grupo, mas a vibe é boa e todo mundo a carrega — finaliza o estudante.

Mais informações na página da festa no Facebook.

No meio do rolê havia uma cachorra

 

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Yasmine Holanda Fiorini
Jornalista, vegetariana, feminista. Já foi a tia do rolê mas hoje é baladeira. Já escreveu sobre moda, cultura e entretenimento. Ama a França, doces, vinhos, drinks e o verão.

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