Profissionais do Sul de Santa Catarina optam pela reinvenção e ganham mercado e uma rotina mais feliz

Damylla Damiani – Foto Caio Marcelo, especial

Por Lariane Cagnini 

Da terra do carvão e da cerâmica, surgem nomes criativos que destoam do cenário macroeconômico mais conhecido, ganham espaço e contribuem para dar visibilidade ao que é produzido no Sul do Estado. Antenados, atentos ao mercado e cheios de personalidade. São nomes que fazem acontecer em Criciúma e região.

A artista plástica que abriu a primeira galeria particular da cidade hoje se divide entre o ensinar e o aprender. Na arquitetura, os materiais brutos e os traços inconfundíveis do chargista, que assim como o cozinheiro e jornalista, dão um toque pessoal a tudo que fazem. Na moda, a fábrica de jeans que se tornou a queridinha entre as meninas e também as senhoras, e a diretora criativa por trás da engrenagem. Conheça notórios criativos que fazem a diferença no Sul.

Encontro com a moda

Foi pelos corredores da indústria têxtil da família que Damylla Damiani, 37 anos, cresceu junto à máquina de costura e pilhas de tecidos. A fábrica, que na infância era o parque de diversões, na juventude se tornou uma possibilidade de carreira, e hoje continua no cotidiano da consultora de estilo da Damyller, marca de roupas com 124 lojas próprias espalhadas por todo o país.

Fundada em 1979, o jeans sempre foi o carro-chefe da marca, mas há pouco mais de dez anos o processo criativo foi renovado. No novo posicionamento, mais voltado para a moda, Damylla aproveitou a formação na área para entrar de vez no setor que mais se identificava. Depois de passar pela contabilidade, recursos humanos e outras funções na empresa, ela se encontrou no meio criativo.

— Acabo trabalhando com a equipe de estilo, modelagem e design, toda parte de pesquisa, tendências, tema de coleção, tudo isso está conosco. Eu também faço essa parte de representar a marca. Desde 2005 a Damyller optou por uma mudança de posicionamento, um processo que a gente vem construindo até hoje — comenta.
Como a moda muda a todo instante, a empresa também optou por lançar coleções mensais, sempre com novidades. A intenção é acompanhar a velocidade com a qual as informações circulam, conectadas com as tendências mundiais, mas com personalidade própria. Damylla sabe bem o que é isso, já que é uma espécie de “guru da moda” para os quase 35 mil seguidores que tem no Instagram.

— Todo mês é uma história nova para contar, desenvolvimento diário e toda essa loucura que faz parte da minha vida. É estar conectada direto, horário comercial, à noite, desfiles, street style, observando o que as pessoas estão usando. Sai da passarela e cada um vai adaptar, tem pra todos os estilos, desde a menina até aquela mulher mais velha, com jeans estruturado e cintura no lugar — comenta.

Apesar de ser um ícone de estilo e imprimir personalidade por onde passa, Damylla se considera casual e prima por conforto e praticidade na hora de se vestir, para combinar com a rotina corrida. Casada e mãe de duas meninas, de 3 e 6 anos, a consultora de estilo só se permite desligar quando está com a família. Valores aprendidos com o pai, assim como a amizade compartilhada com as primas, são condutas que ela quer passar adiante às pequenas.

Damylla Damiani, consultora de Estilo Damyller – Foto Caio Marcelo, especial

Arte empreendedora

Espalhados pelos espaços de dois andares, quadros de todos os tamanhos, com técnicas distintas e muitas cores. Assim é o trabalho da artista plástica Helen Rampinelli, proprietária da galeria homônima, inaugurada em 2011. Por lá passam artistas locais e regionais, em um ambiente que resiste ao fechamento dos espaços públicos e privados dedicados à contemplação.

Aos 56 anos, Helen construiu um estilo próprio através de pinturas abstratas. Pratos de isopor com restos de tinta viram impressões únicas, fitas utilizadas em um quadro são carimbo para a criação de outro, em uma relação íntima com os registros e o que eles levam consigo. Na construção de cada projeto, memórias servem como ponto de partida, carregando junto a emoção da artista de Criciúma.

— Minhas obras não têm foco na imagem, mas sim nas cores, nas brincadeiras que faço com os materiais. Tenho essa coisa do registro, tudo é parte do meu trabalho, ali tem a minha marca e eu tento dar um novo uso — explica.

Professora de Educação Artística durante 16 anos, ela deixou a sala de aula, mas a maneira didática com que fala de arte rendeu um novo caminho. Além de exposições, a galeria também é espaço de workshops, colônia de férias, oficinas de pintura e de papel machê, outra técnica bastante utilizada por ela. Discutir a arte contemporânea e levá-la para novos públicos é uma das propostas, cada vez que o local se enche de novos alunos e aprendizes.

— Em Criciúma a situação é difícil, os artistas não são nada valorizados, a começar pelos poucos espaços públicos que existem para expor e com a falta de infraestrutura e segurança para as obras — desabafa.

O interesse pelas artes surgiu ainda pequena, quando ela esculpia peças e customizava tudo o que via pela frente. Na juventude, foram três semestres na faculdade de Matemática, até que ela percebeu que a veia artística falou mais forte. Mudou o curso e, em quase 30 anos de atuações no mundo das artes, aprendeu a importância de manter o interesse das novas gerações na arte.

— O caminho é tentar buscar novos públicos a partir da escola, começar cedo, fazer essa troca. A galeria está sempre de portas abertas para receber — convida.

Artista, professora e dona de galeria Helen Rampinelli – Foto Caio Marcelo, Divulgação

Comida de verdade com personalidade

Até o sétimo evento em que foi chamado para comandar a cozinha, Saimon Novack, 35 anos, ficava reticente e tentava repassar o cliente para outro profissional. Apaixonado por gastronomia, ele era cozinheiro de fim de semana, mas depois de trabalhar como voluntário em duas festas ao lado do chef Anselmo Ronsoni, passou a se aventurar na cozinha dos outros. A atividade começou por acaso, e hoje ele é o queridinho entre os anfitriões mais badalados.

—Recebi a ligação para fazer um casamento para 50 pessoas, eu disse que não trabalhava com isso, que estava começando, mas eles insistiram, e eu aceitei. Fomos em duas pessoas, foi uma loucura, e depois de alguns trabalhos e da resposta positiva das pessoas, eu assumi: tudo bem, eu sou cozinheiro, eu faço — relembra, aos risos, o chef.

O trabalho iniciou há cerca de dois anos, e de lá para cá o jornalista se divide entre a profissão de formação e as maravilhas da gastronomia. Foi no boca-a-boca e com a ajuda das redes sociais que ele conseguiu pelo menos 80% dos clientes com quem já trabalhou até hoje. As comidas mais pedidas são aquelas que remetem às receitas de família, mas todas elas ganham um toque sofisticado e uma nova roupagem.

—As pessoas não querem mais nada formal, com aquele buffet gigante em que os convidados sentam, comem e vão embora. A ideia são festas de longa duração, o que encaixa mais com o estilo de finger food. As pessoas comem, bebem, conversam e chegam a provar até 15 pratos por noite — comenta.

Nos eventos, a tradicional polenta da vó recebe um toque de queijo gorgonzola, e é apresentada em um prato diferente. A costela com aipim, famosa vaca atolada, ganha ares gourmet e um tempero especial, em versão repaginada. Seu público quer comida de verdade, mas de maneira criativa e com personalidade.

— A forma de apresentar os pratos encanta, eu já penso na composição e na cor da louça, uso meu lado fotógrafo para isso. O trabalho de pesquisa é constante e a referência vem de todos os lados, então o meu trabalho é também criativo — analisa.

Chef Saimon Novak é é o queridinho entre os anfitriões mais badalados – Foto Caio Marcelo. Divulgação

Quando a função define a forma

No horizonte da maior cidade do Sul do Estado, prédios e casas com acabamentos em concreto, linhas puras, madeira e vidro são assinaturas para os olhos mais atentos. Com três décadas de profissão, o arquiteto Marcos Sônego, 58 anos, consegue imprimir em cada obra o seu próprio estilo. No material bruto e nos espaços fluídos, Sônego já “flertou” com outras estéticas, mas a inspiração vem da escola alemã Bauhaus.

— Eu busco a simplicidade das coisas, a essência. A função define a forma, é o principal. Um espaço fluído, que atenda às necessidades do ser humano, retirando excessos. É algo mais limpo, conceituado hoje como contemporâneo — define.

Formado em arquitetura e urbanismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sônego só se afastou de Criciúma no período da faculdade. As raízes falaram mais alto, e a criança que tinha como brinquedos favoritos peças de montar, lápis e papel escolheu o desenho como forma de expressão. Além dos projetos arquitetônicos, ele também é chargista, outra paixão.

— Comecei informalmente, a cada 15 dias, até que fui convidado para fazer charges diárias. Continua sendo um desafio, a charge me expõe, ela é o que eu penso, eu boto a cara para bater, e muitas vezes o alvo da charge não aceita. É uma notícia retratada, mas, ao longo desses quase 30 anos, foram mais momentos bons do que ruins — pondera.

Para conseguir se expressar e dialogar com o leitor, em um desenho, o processo criativo é o mesmo de iniciar uma planta. Lápis e papel na mão, agora é preciso se desconectar de tudo, limpar a mente para entrar na próxima criação. Nas horas de lazer, a horta e o jardim de casa são o refúgio, espaço para estar perto de outra paixão, a natureza, que quase levou o arquiteto a optar pela faculdade de Agronomia.

— O traço, o desenho sempre me foram natos. Eu estava sempre rabiscando. Lembro que na escola era chamada a minha atenção por causa disso. As caricaturas de professores e colegas acabaram culminando na charge, que veio depois. Pai e mãe estavam sempre estimulando, o meu mundo era esse, da criação — relembra.

Hoje em dia, Sônego tem o privilégio de trabalhar com pessoas que o procuram por causa do estilo de suas obras, o que satisfaz a ele e facilita a relação com os clientes. Qualquer projeto é aberto, mas a identificação com o que ele já criou até aqui o aproxima de pessoas que admiram o trabalho. Com personalidade, a vitrine são as obras espalhadas por aí.

Arquiteto Marcos Sônego imprime estilo próprio em seus projetos – Foto Guilherme Hahn, especial

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