Marcos Piangers: A poltrona do meio

O ambiente hostil dentro de um avião. Foto: Suhyeon Choi, Divulgação

Eu estava acompanhando David Sedaris pelas ruas da cidade em que ele passou sua infância quando “pof”, a cadeira da frente reclinou-se e esbarrou no meu livro, trazendo minha atenção de volta ao avião da Gol poltrona 11E. Pensei que é uma deselegância reclinar a poltrona, francamente. “Eu sou muito educado”, refleti. “Eu nunca reclino a poltrona. Eu sou melhor do que estas pessoas”.

Uma viagem de avião é este ambiente em que todos acham que são melhores uns do que os outros. Há sempre uma pressa descabida da pessoa que está atrás de mim na fila do raio x. A pessoa que está na minha frente é sempre muito lenta. Os passageiros frequentes pegam uma fila exclusiva para embarque, ouvindo música em seus fones de ouvido caros e nos olhando displicentemente enquanto avaliam nossa bagagem fora do padrão.

O ambiente fica mais hostil dentro da aeronave. Qualquer dificuldade para colocar a mala no compartimento de bagagens é tratada como se você desconhecesse as leis da física. Esperar alguns segundos enquanto você tenta acomodar a mochila de forma a permitir mais espaço para outras bagagens? “Nem pensar! Precisamos sentar!”, parecem dizer as respirações dos outros passageiros.

Me sinto especialmente intimidado quando caio em uma poltrona do meio. Sou um ser superior que quando senta na janela ou corredor respeita o pobre habitante deste azarado assento. Eu sou muito generoso. Permito, do alto de minha benevolência, que meu companheiro utilize os apoios de braços por completo. Não apoio nem um milímetro meu cotovelo. Sou bondoso e repouso os braços sobre meu próprio corpo. Não foram poucas as ocasiões que recebi olhares agradecidos. A pobre alma parece perguntar: “Você me concederá o uso pleno deste apoio de braço?”. Uma luz (não a de leitura) se acende sobre minha piedosa cabeça e respondo que sim, sorrindo.

É uma questão de decência, o passageiro do meio tem direito aos dois apoios de braços só pra ele. Quem está no corredor pode esticar a perna; quem está na janela pode se escorar na parede e observar a vista. Respeitem o passageiro do meio, é o que eu digo. Penso em fazer disso minha causa. Porém, sempre que estou lá, nenhum dos meus dois confrades respeita estas regras. Da mesma forma, o camarada da frente não espera nem apagar o sinal de atar cintos para reclinar sua agressiva poltrona em cima de mim e meu livro. Sou atacado por todos os lados durante o voo, voam restos de amendoins em minha roupa, no banco de trás crianças chutam minhas costas. Acho que é por isso que levo livros para a viagem. Para imaginar que estou em outro lugar.

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