Sandro Clemes: conheça a história por trás do conceito kitsch 

Uma fachada histórica da cidade italiana de Verona exibe bustos ornamentais que atestam o poder da aristocracia e flertam com ideais românticos do kitsch. Crédito: Sandro Clemes

Do alemão verskitchen, que quer dizer “fraude”, o termo kitsch já foi o estrito  sinônimo de cafona. Não mais. O sentimentalismo, o simulacro da riqueza, a negação a cânones estéticos vanguardistas e a fácil comunicação com o popular deixaram de ser atributos pejorativos para incorporar-se a expressões estilísticas contemporâneas de valor no mundo das artes e do design. Um sofá que simula os lábios vermelhos de Mae West, uma miniatura de vidro do Cristo Redentor iluminada por LEDs coloridos, uma abóboda de gesso acartonado… Porque não existe “O” bom gosto, mas múltiplas possibilidades de fruição e de felicidade.

Supérfluo de primeira necessidade

Na obra O Sentido de Ordem, o historiador da arte austríaco Ernst Gombrich sugere que o minimalismo modernista é, na verdade, uma declaração de amor, às avessas, aos encantos dos ornamentos – para escapar de seu feitiço, melhor seria eliminá-los e dedicar-se ao rigor da função, que define a forma. E se, para Coco Chanel “luxo é o que não se vê”, a estética kitsch rende-se com veemência às mais notórias artes decorativas, e faz do supérfluo o seu mote.

O projeto de Karla Silva para este lavabo traz uma torneira em forma de ganso produzida na Argentina junto ao mármore nero marquina e paredes douradas, para criar um clima sensual, cult e elegante. Foto: Ronald Pimentel

“Uma resposta ao tédio”

A afirmação de Karsten Harries sobre o que é o kitsch nos remete a um de seus principais atributos: a emoção. Tentador, exagerado, sensual, o kitsch é a antítese do bege. A criação de móveis e objetos com doses generosas de humor e ludicidade é marca de assinaturas influentes  na arte e no design. De Andy Warhol a David LaChepelle, de Marcel Wanders a Henrique Steyer, muitos criadores nos instigam, divertem e vão além dos requisitos da função e dos índices tradicionais de elegância.


Poltronas ou esculturas? A mexicana Valentina Wohlers desenhou em 2009 as cadeiras Prickly Pair, que misturam traços do clássico mobiliário francês do século 15 aos cactos mexicanos. Foto: Valentinagw.com/portfolio

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