“Na história literária, há um apagamento muito forte das escritoras”, diz Thalita Coelho

Escritora catarinense Thalita Coelho lança o livro Terra Molhada em Florianópolis. Foto: Leo Munhoz

A coletânea de poemas Terra Molhada, da escritora Thalita Coelho, celebra o amor entre mulheres e, como a própria autora diz, é sobre resistência. É o primeiro livro da doutoranda em teoria literária pela UFSC, que estuda a crítica feminista e gênero. . Confira nossa conversa:

Terra Molhada é um livro de poemas que se encaixa no segmento literatura lésbica, mas como que você define a sua obra?

Eu nunca chamava as coisas que eu escrevia de poesia. Quando as pessoas começaram a entrar em contato com meus textos, elas chamaram assim. Eu nunca soube que era poeta. Costumo chamar de textos poéticos. Mas, principalmente, é uma literatura de resistência. Principalmente lésbica, mas também feminista. É importante encontrar a representatividade dentro de textos literários. É política, de luta. Gosto de pensar que as pessoas vão ler meus textos e se ver neles.

E quão importante é se ver representada, não só como mulher, mas como lésbica? É difícil se identificar. Na literatura, os principais clássicos foram escritos por homens, até aqueles que têm uma mulher como personagem principal.

Estudo a representação da mulher na literatura e também as autoras. Na história literária, há um apagamento muito forte das escritoras. Várias tiveram que buscar pseudônimos masculinos para publicarem. Estudos mostram que a quantidade de mulheres representadas, como personagens, é minúscula. E é menor ainda se elas forem lésbicas ou bissexuais. A gente tem essa ideia que a figura masculina é universal, tanto que fala de homem como humanidade. Então, é muito importante pegar um livro e se ver naquelas palavras, principalmente quando a gente fala de mulheres que amam mulheres. Há uma culpabilização das lésbicas e bissexuais, representativamente falando. Em livros, filmes e outras obras, quando ela aparece, ela morre, fica doente ou é “curada” de alguma forma, religiosamente ou através de uma relação heterossexual. É louco pensar que essas figuras, na arte, são ruins. Então, é importante mostrar um olhar diferente.

Assista à entrevista completa:

E como foi o processo de você se descobrir e se assumir?

Passei nove anos em um relacionamento hétero. Não posso dizer que sempre soube. A sociedade nos ensina a seguir esse caminho. Foi louco, porque acreditei que eu tinha que ser e, portanto, eu era. Comecei a questionar quando, na faculdade e na pós-graduação, entrei em contato com teorias feministas e lésbicas. Comecei a estudar e percebi que tinha uma inquietação dentro de mim que eu nunca entendia. Decidi ficar sozinha e foi muito natural. Foi fácil porque, quando a gente se assume mais velha (Thalita tem 27 anos), tem alguns privilégios. Eu morava sozinha, tinha minha vida, era uma mulher adulta e foi tranquilo. Percebi que eu só conheci quem eu era de verdade quando eu me assumi.

O que você acha dessa nova geração de poetas que ficaram famosas publicando nas redes sociais e depois lançaram livros, como a Amanda Lovelace, a Rupi Kaur, a Ryane Leão? Muitas mulheres tem se identificado com o que elas escrevem.

Acho demais que tenha esse movimento dos Instapoets, e que a gente consiga usar a internet para mostrar a literatura. Ainda mais aquela feita por mulheres e a lésbica, extremamente invisibilizada no mercado literário. Queria saber utilizar melhor as redes sociais para isso.

Foto: Micaela Torres

Lançamento Terra Molhada

Quando: 15 de fevereiro, às 19h
Onde: Fundação Cultural Badesc (Rua Visconde de Ouro Preto, 216, Centro, Florianópolis)
Quanto: Evento gratuito. O livro estará à venda por R$ 40

 

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Yasmine Holanda

Jornalista, vegetariana, feminista. Já foi a tia do rolê mas hoje é baladeira. Já escreveu sobre moda, cultura e entretenimento. Ama a França, doces, vinhos, drinks e o verão.

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