Um carnaval acampado e alternativo: como foi o Psicodália 2018

Fotos: Diorgenes Pandini

Texto: Diorgenes Pandini, Especial

Mais de 6 mil pessoas do Brasil inteiro escolhem abrir mão do carnaval tupiniquim tradicional e optaram pelo igualmente multicultural festival Psicodália. A cidade de Rio Negrinho, mais precisamente a Fazenda Evaristo, é a base para que essas milhares de pessoas pousaram suas naves espaciais, ou barracas, para buscar um pouco do que restou dos festivais de contracultura da década de 70. É claro que está longe de ser um tratado político e social como foi o Woodstock, mas cumpre a proposta de um ambiente alternativo e traz, ao longo das mais de 20 atrações entre música, teatro, cinema, recreação, esporte e oficinas, perspectivas de um mundo diferentes e consciente.

Uma das oficinas de destaque desse ano foi o Materdália. Uma proposta para incentivar que pais, mesmo com crianças nos primeiros meses de vida, venham para o festival. Nessa oficina, os pais aprenderam um pouco mais sobre como cuidar das crianças, desde questões de saúde até de higiene e entretenimento dos pequenos.

No Psicodália, as crianças também curtem. Foto: Diorgenes Pandini

Dá para fazer uma analogia do Psicodália a um longo estado de cinema: aquele momento antes de dormir que você fica preso entre a realidade e o sonho, onde você sabe que está sonhando, mas que parece que se mantem acordado. Ao acampar durante os seis dias de carnaval em uma fazenda quase sem sinal de telefone e internet, abrimos mão da correria do dia-a-dia e passamos a participar de uma outra frequencia: um tempo mais calmo onde expressões culturais se misturam à natureza e ao bem estar das pessoas. Viemos para uma sociedade diferente, mesmo que por um tempo limitado e temporário.

Durante o festival tivemos acesso a produções autorais contemporâneas e clássicos da cultura brasileira. Os shows do Zé Ramalho e Jorge Ben Jor foram os principais dessa edição, mas as atrações percorreram outros clássicos como, por exemplo, Lou Borges, Tutti Frutti e Arrigo Barnabé . Sem contar as bandas atuais e de peso como Bixiga 70, Carne Doce, Boogarins, Mulamba, Abacate Contemporâneo, Francisco El Hombre entre tantos outros.

Os palcos tiveram um upgrade em relação aos outros anos: a iluminação e a cenografia foram melhoradas significativamente, que unidas a performance dos artistas, fizeram dos shows do “dália” uma experiência inesquecível para seu público.

Performance no show da Mulamba. Foto: Diorgenes Pandini

— Para ficar tudo pronto para os foliões, uma cidade foi erguida na Fazenda Evaristo e quase 1.500 pessoas trabalharam incansavelmente para que tudo ocorresse da melhor forma possível — diz Bina Zanette, diretora do Festival.

Desse número, cerca de 300 empregos são gerados diretamente em Rio Negrinho.
E a cidade Psicodália não ficou parada. O evento funcionou 24 horas sem interrupção. Um dos destaques do festival é o Biodália – gestão ambiental que trabalha com três frentes: banheiro seco, composteiras e lixo zero.

— Trabalhamos para que o impacto ambiental seja o menor possível — comenta Rosângela Araújo, Coordenadora do Biodália.

O que surpreendeu em 2018

Só para esta edição, mais de mil projetos foram recebidos e outros 300 CDs foram entregues em mãos para a organização do Psicodália. Nos palcos Lunar, do Sol, dos Guerreiros e do Lago, cerca de 70 bandas embalaram a galera nos mais variados ritmos.

— Tem que ser música autoral, boa, e, claro, com a energia do Psicodália. Tem muita banda que a gente gosta, mas não se encaixa no evento. A ideia é sempre manter o equilíbrio e ver também o que está na vontade do público — explica Alexandre Osiecki, diretor e um dos fundadores do evento.

Dos shows, Mulamba foi um dos destaques para essa edição do festival. Se nesse Psicodália elas tocaram no palco da tarde, no próximo ano, caso voltem ao Festival, deverão fazer parte do palco principal. O show, recheado de performance de mulheres incríveis: malabaristas, dançarina, artistas e cantoras de outras bandas participaram do show. Recheado de discursos de valorização da mulher e contra o machismo, o show foi uma aula de história, de comportamento e de expressão. O fim da apresentação foi marcado pelo êxtase do público, principalmente, das mulheres, que em uma ação coordenada, subiram ao palco seminuas num ato político contra a extrema sexualização de seus corpos e em uma sintonia de respeito e harmonia entre as mulheres.

Show do Arrigo Barnabé. Foto: Diorgenes Pandini

Outro show marcante foi a apresentação do show do Arrigo Barnabé, em que a loucura sincronizada, organizada e dissonante do disco Clara Crocodilo colocou os mais velhos do público em nostalgia e impressionou quem não conhecia a banda. Foi um show marcante e histórico, de uma técnica e execução invejáveis.

Em tempos de festivais que tentam te vender espaços diferenciados conforme a disposição para pagar, os famosos ingressos gerais, camarote, área vip etc, o Psicodália mantém o mesmo valor para todas as pessoas e todos tem a oportunidade de ver de perto as atrações dos palcos.

É possível acampar, preparar o próprio almoço, trazer a bebida que quer consumir, organizar shows paralelos e eventos paralelos dentro do próprio festival. Cada um é responsável por criar o seu próprio festival, sua própria programação. Mas o respeito e a liberdade são pilares sustentados tanto pela organização quanto pelo público.

Zé Ramalho é sempre um clássico. Foto: Diorgenes Pandini

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