Vinho sem frescura: sommelier catarinense propõe descomplicar a bebida

Foto: Leo Munhoz

O sommelier Eduardo Machado Araújo estudava Educação Física quando entrou no mundo do vinho. Ele se apaixonou, largou o curso e hoje, ao lado do pai, comanda dois bares de vinhos em Florianópolis e é um dos jovens sommeliers que vêm se destacando no Brasil – em 2017, ele foi eleito Sommelier do Ano para vinhos portugueses pela ViniPortugal – a associação de produtores do país. Entre uma viagem e outra para conhecer novos produtores
e safras, Eduardo me recebeu para um papo delicioso e “de boa”.

Você foge do antigo estereótipo do sommelier como um cara mais velho, sério, que usa terno. Essa figura ainda existe?

Cada vez menos. Mas imagina eu quando comecei a falar sobre vinhos, há mais de dez anos (hoje, Eduardo tem 34). Eu chegava, os caras me olhavam e pensavam: o que é isso? Eu era muito novo mas já tinha um pouco de conhecimento, me informava bastante e gostava também de passar isso para as pessoas. Sempre fazia palestras e era engraçado. Eu não ia de terno, sempre fui tatuado, era mais novo e o pessoal achava que eu ia servir o vinho. Mas era legal também porque não tinha uma grande expectativa e todo mundo acabava se surpreendendo. Sempre superei isso com o conhecimento e a situação até me forçava a estudar mais. Se chegar um cara de terno e gravata e sotaque francês, ele pode até falar besteira que a galera vai acreditar. Comigo, as pessoas se cutucavam, faziam perguntas, queriam ver a falha, sabe? Isso me deu energia para tirar o preconceito do vinho, descomplicar, tirar o terno e a gravata da bebida. Hoje, os melhores profissionais que conheço são jovens e estão trazendo coisas novas.

O vinho tem esse estigma de ser uma bebida elitista, né? Como combater isso?

O vinho no Brasil tem taxas muito altas, é caro. Têm importadoras e grandes redes que fazem importações próprias e trazem vinhos mais baratos, o que aumenta o consumo, mas o vinho nacional sofre com isso. Então a gente tem esses dois lados. Ainda assim, tem essa coisa de ser uma bebida de celebração, para jantares chiques. E acho que um pouco do meu trabalho é combater isso, por ser uma pessoa jovem e mais simples no jeito de se vestir e falar. Por que não tomar vinho em uma segunda-feira à noite, fazer degustação com hambúrguer, levar uma garrafa para o churrasco com os amigos? Acho que precisamos popularizar o vinho e tirar a frescurada. No dia a dia, vamos brincar, vamos tomar, seja com gelo ou com Coca Cola, com o quiser. O importante é consumir vinho. As pessoas têm medo de entrar em lojas especializadas no Brasil, acham que vai ser aquela coisa pedante. Preferem ir no mercado, onde ninguém vai atendê-las. Eu tento fazer isso de uma maneira legal. O nome do bar, The Wine Pub, é por isso. A gente tem as mesas coletivas, bate-papo, vinhos de vários preços, em taça, bem para descobertas mesmo. É uma coisa que eu sempre quis fazer. Acho que o vinho em taça é um caminho bem legal para passar esses desafios. Florianópolis, inclusive, melhorou muito nos últimos anos em relação à qualidade dos vinhos ofertados. É uma cidade bem legal para tomar vinho hoje.

Tem sugestões para quem não entende nada mas quer começar a beber?

Primeiro, saber o paladar. Provar alguns diferentes para entender que tipo gosta mais. Brasileiro conhece muito Cabernet Sauvignon, que geralmente é mais seco e estruturado, e não é o primeiro passo ideal para quem está começando. Com a internet, é muito fácil estudar sobre vinho, apesar de que temos que filtrar e tomar cuidado com informações erradas. Mas tem que relaxar e tomar o que gosta. Abrir garrafa. É a melhor maneira de saber de vinho. E para quem quiser dar um segundo passo, também tem cursos básicos para não profissionais, que ajudam a escolher rótulos, entender as diferenças entre as uvas, degustar.

Como você avalia o potencial de SC na produção de vinhos?

É uma região diferenciada e fantástica. Muita gente do Vale dos Vinhedos (RS) está trabalhando aqui e acha espetacular. É uma região nova, que foi explorada por empresários com muito dinheiro, que sonhavam em montar vinícolas e acabaram errando algumas coisinhas no começo. Depois, começaram a entender melhor o clima e os tipos de uva que mais se adequavam, e passaram a fazer projetos interessantes. Santa Catarina, como o polo turístico que é e com pessoas sérias e investimentos fortes, tem um potencial enorme. Inclusive, essa safra está
sendo espetacular e histórica para a gente. Tivemos um ano perfeito para uva e 2018 vai ser um ano de vinho brasileiro de altíssima qualidade. Mas há desafios. Temos que trabalhar junto com os governos para diminuir cargas tributárias. Unir o setor, porque é cada um por si. Os pequenos poderiam se juntar e fazer coisas bem interessantes. E falta também achar nossa identidade. Criar um conceito e focar nele.

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