Aline Rocha, a atleta paralímpica catarinense que levou o Brasil para a neve

Aline
Aline

Por Fabiano Moraes / especial
Fotos: Divulgação  /Comitê Paralímpico Brasileiro

– Eu, Aline, tinha 15 anos de idade. Na época, meus pais já estavam divorciados e morávamos na cidade de Campos Novos. Temos familiares em Xanxerê e em Faxinal dos Guedes, por parte da minha mãe, e em Abelardo Luz por parte do meu pai. No dia do acidente, resolvi viajar com o meu irmão e minha mãe para Xanxerê e, no mesmo dia, meu pai também estava em viagem para visitar familiares.

Minha mãe já estava me ensinando um pouco da sua profissão de cabeleireira e aproveitamos a ida até Xanxerê para comprar produtos para o nosso salão de beleza. Meu irmão dirigia o carro. Durante uma ultrapassagem, avistou outro veículo na direção contrária. Ambos foram para a mesma direção (o acostamento), resultando em uma colisão frontal. Eu, que sentava no banco traseiro, com o cinto de segurança pélvico, fui a única que permaneceu consciente. Passei os dados da minha família e o contato do meu pai aos socorristas. Como nosso acidente foi entre Vargem Bonita e Catanduvas, o atendimento foi em Joaçaba.

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Meu irmão ficou aproximadamente três dias em coma induzido e não lembra do acidente. Minha mãe foi o caso mais grave. Apesar de não ter sequelas permanentes, sofreu perfuração de pulmão, perfuração de intestino, fraturou o quadril, três costelas e também uma fratura de braço. Ficou 11 dias na UTI. Minha lesão na coluna ocorreu por causa da quebra do banco do carro, que não aguentou o impacto e o peso das bagagens, caindo sobre mim. Se eu não estivesse usando o cinto de segurança, certamente teria sido projetada para fora do veículo e não sobreviveria – relata Aline Rocha, 27 anos, com naturalidade o acidente que resultou em uma lesão medular que a fez perder os movimentos das pernas.

Com 15 anos, Aline teve que aprender a conviver com um tipo de determinismo difícil de lidar até mesmo na idade adulta – e que pode ser ainda mais sofrido quando imposto justamente na adolescência.

Na impossibilidade de voltar no tempo e mudar o passado, ela fez da dificuldade sua força, e da tristeza a principal motivação para se transformar em protagonista de uma história de superação. Hoje, é atleta profissional e disputou os Jogos Paralímpicos de Inverno de Pyeongchang, na Coreia do Sul, encerrado no último dia 18. Ela e Fernando Orso, técnico, treinador e namorado, são os representantes de SC na competição mundial. Mais: Aline foi a primeira mulher brasileira a disputar os Jogos e a única sul-americana no evento, segundo o Comitê Paralímpico Brasileiro.

– O esporte de alto rendimento foi simplesmente acontecendo na minha vida. É difícil dizer qual foi o momento – diz.

Nascida em Pinhão, no Paraná, veio para Santa Catarina com a família aos seis anos. Primeiro na cidade de Seara, onde seu pai trabalhou na construção da hidrelétrica de Itá. Depois moraram oito meses em Chapecó e, quando ela tinha 10 anos, a família toda se estabeleceu em Campos Novos. Lá, o pai conseguiu um emprego de vigilante na barragem hidrelétrica da cidade.

– Minha mãe continua trabalhando como cabeleireira em Campos Novos. Meu pai mora em Celso Ramos, dividindo seu tempo entre as plantações no sítio e o trabalho como vigilante. Minha infância foi assim. Mudamos de cidade várias vezes – relembra.

Após o acidente, Aline começou a praticar corrida de cadeira de rodas. Há pouco mais de um ano, iniciou no esqui cross-country, por conta da semelhança de movimentos. Na Coreia ela disputou as provas de 12km (ficou na 15ª colocação), 1.1km (22ª colocada) e 5km (12ª colocada).
– Nunca tive muito interesse por esportes. Quando entrei na adolescência, comecei a detestar. Fugia das aulas de Educação Física, o que é bastante estranho para uma pessoa que vive tudo que estou vivendo hoje – reflete.

Na escola, os professores não sabiam quais estímulos eram necessários para melhorar o processo de reabilitação. Aline então procurou o hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, referência internacional nesse tipo de tratamento:
– Alguns médicos diziam que o Sarah era uma ilusão, que eu não conseguiria. Mas, com o incentivo de um médico de Campos Novos, cujo o filho também havia sofrido uma lesão medular, fui incentivada a ir até Brasília tentar iniciar meu tratamento. Não foi fácil conseguir uma vaga para ser atendida lá. Mas foi a experiência mais fantástica que eu poderia ter. Aprendi mais sobre mim, aprendi muito sobre a minha lesão. Tive a oportunidade de conhecer esportes e passei a gostar. Porém, na minha cidade não havia instituições ou profissionais que pudessem me incluir em atividades esportivas – relembra.

A paratleta com o bombeiro Valmir Parise, que ajudou no resgate do acidente

Um dia, conversando pela Internet com uma atleta de Joaçaba, Aline soube da Associação Regional dos Atletas com Deficiência do Meio-Oeste Catarinense (Arad). Foi lá que ela e Fernando se conheceram.
– Ele disse que eu poderia ser corredora em cadeira de rodas, mas achei que ele estivesse louco. Eu tinha 19 anos, e começar em uma modalidade esportiva que exige tanto condicionamento físico… Achei que não daria certo – conta.

Encontro para toda a vida

Aline, campeã da Corrida de São Silvestre, com o treinador Fernando Orso

O encontro dos dois aconteceu em um dia comum de treinamentos do time de basquete em cadeira de rodas em Joaçaba. Era o ano de 2010 e, como não havia elevadores nos ônibus intermunicipais, Fernando teve que carregá-la no colo. Depois de três meses desse primeiro “momento”, estavam namorando. Técnico e treinador pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), foi ele quem sugeriu que Aline trocasse o basquete pelas corridas em cadeiras de rodas.

Com pouco mais de um mês de treinamento, participou da primeira competição, o ParaJasc, em Itajaí. Sem uma cadeira de rodas própria para corridas, competiu com um modelo feito para jogar basquete adaptado. Mesmo assim, conquistou três medalhas de bronze.
– Foi quando uma pessoa, usando um tom maldoso, me disse: “Tinha tijolo na sua cadeira? Por isso você foi tão lenta?” Aquilo me traumatizou. Mas eu tinha duas escolhas. Uma era aproveitar aquele momento de glória, segurar as medalhas e perceber que eu poderia ser alguém. A outra era desanimar com aquele comentário infeliz.

Um ano depois, competindo com uma cadeira própria para corridas, conquistou dois ouros e uma prata no ParaJasc. Foi o impulso que faltava para pensar em realizar um sonho: participar de uma Olimpíada.

Com o objetivo definido, hora de se dedicar aos treinos. Em 2013 o casal adquiriu um equipamento com medidas e peso adequados e, um ano depois, se mudaram para a cidade de São Caetano do Sul (SP), em busca de melhores condições para os treinamentos. Competição após competição, Aline construiu um caminho que passou por Japão (em 2014), Suíça (2015) e Estados Unidos (2016), quando conquistou a vaga para a Paralimpíada.
– Sobre a minha deficiência, acredito que lidei muito bem com o fato de ter ficado paraplégica. Raras foram as situações em que isso me incomodou. Minha vida é o esporte. Só o que acontece no esporte ou por meio dele parece relevante para mim – afirma.

Novas conquistas de Aline

Com o sonho realizado, ela agora busca ainda mais. Após a chegada ao Brasil, o primeiro passo será elaborar o projeto para o próximo ciclo Paralímpico de Inverno, no Japão, em 2022. O plano de ação inclui estratégias para o incentivo da modalidade de esqui cross-country no Brasil, além de competições nacionais e internacionais. A próxima disputa será no dia 16 de abril, na Maratona de Boston, nos Estados Unidos.

A forma natural como ela encara os desdobramentos indeléveis daquela viagem de carro aos 15 anos, diz muito sobre o que define Aline Rocha. Uma mulher que transforma as marcas do passado em energia vital para as conquistas do presente – e também do futuro.

País tropical com Atletas da neve

Fernando Orso, namorado, técnico e treinador de Aline, conta como são os treinamentos de esporte de inverno no Brasil. Um país, como se sabe, sem neve:
– É possível treinar fora da neve. Apesar de ser pouco usual por atletas na posição sentada, a utilização de rollerski (equipamento com rodas que simula o movimento de esqui) serve para desenvolver a modalidade em lugares quentes e é muito utilizado nos períodos em que não há neve no hemisfério Norte. Com isso, é possível fazer toda a preparação física e técnica. Os treinamentos são realizados no asfalto e podem ser em ruas ou parques. Também temos a possibilidade de utilizar o sitski acoplado a um montainboard ou carbeboard, que são como skates com rodas grandes que possibilitam treinar em ambientes mais irregulares, como gramado e estradas de chão batido.

Outro desafio, segundo ele, é a escassez de recursos financeiros, normalmente destinados pelo Governo Federal para a Confederação Brasileira de Desporto na Neve (CBDN). Atualmente, tanto Aline quanto Fernando vivem do esporte e contam os repasses financeiros da CBDN, bolsa-atleta do Ministério do Esporte e algumas premiações nas competições.

O Brasil nos Jogos Paralímpicos de Inverno

  • A primeira participação brasileira nos Jogos Paralímpicos de Inverno foi em 2014. A delegação era formada por dois atletas que disputaram as modalidades esqui cross-country sentado (sitting) e snowboard.
  • Já a equipe do Brasil na Coreia, neste ano, contou com três atletas. Além de Aline, foram também Cristian Westemeier Ribera e André Cintra.
  • O país com mais representantes foi os Estados Unidos, com 68 atletas
  • Esqui alpino, biatlo, esqui cross-country, hóquei de trenó, snowboard e curling de cadeira de rodas foram as modalidades que fizeram parte dos Jogos Paralímpicos deste ano, divididos em 80 eventos valendo medalha de ouro.