Vanessa Tobias: aprendendo com as crises de ansiedade e pânico

Em 2013, exatamente uma semana depois do falecimento do meu irmão, tinha já agendado uma palestra para um grupo empresarial de 300 pessoas, no Rio de Janeiro. Não cancelei a palestra e não cancelaria. Naquela noite estava no hotel dormindo, quando a janela fez um barulho e a cortina balançou – na hora estava sonhando com meu irmão e achei que ia ver um fantasma na minha frente se eu abrisse os olhos. Abri um dos olhos, e tive a certeza de que ele estava lá. Me cobri com o lençol e comecei a rezar alto, com medo de que alguma coisa acontecesse. Meu peito ficou apertado e se a cama não fosse box, acredite que seria debaixo dela que eu me esconderia.

No último ano tenho recebido muitos contatos e clientes que foram diagnosticados com crises de ansiedade e de pânico. Comecei a me interessar pelo assunto, procurando observar as coincidências dentro do quadro, e me lembrei nitidamente daquela noite. Se eu abrisse meus olhos e fosse meu irmão: qual seria, realmente, a ameaça? Eu convivi com ele 30 anos… o que teria mudado nele e em nosso relacionamento agora que ele morreu? Eu não sei.

Priscila é o nossa nova estagiária de Design. Interessada em saber mais da empresa, me perguntou sobre quais eram os nossos valores. Por exemplo – ela disse: “equilíbrio” é um dos valores da empresa, não é?! Achei a pergunta ótima! Não mesmo! – eu respondi. O que a gente valoriza é o “desequilíbrio”. Nossa filosofia procura a expansão da consciência, nós sonhamos em ter coragem de abrir os olhos diante do balançar da cortina. A expansão só se dá no contraponto do meu ponto. Só se entende bem o dia e damos a ele o devido lugar, quando desfrutamos das qualidades da noite. Admiramos o desconhecido e o  transformamos em nossa nova intimidade.

O que me ocorre é que as pessoas com quem venho compartilhando as experiências do pânico e das crises de ansiedade têm sido aquelas que se encorajaram a abrir um dos olhos diante do desconhecido. Uma alma que avança em sua consciência sobre o que é melhor para si e que, com coragem, caminha na direção da sua liberdade e de sua felicidade encontrará, antes de tudo, em
si mesmo o maior desconhecido de todos.

Normalmente não sabemos quem somos, por isso é como se a nossa presença se assustasse com ela mesma. Quando começamos a conhecer a nossa própria verdade, ela começa a se fazer presente em tudo. Já não somos mais desconhecidos, mas novos um para o outro.

Acordo de manhã, e lá estou eu – me olhando. Segunda-feira chega, e meu peito angustiado dialoga: o que vamos fazer essa semana? Sou eu, finalmente me vendo, assustada, com medo. Daí estamos, ainda, tão traídos por nossas escolhas e tão enjaulados em nossas parcelas de cartão de crédito – e tão distantes do que somos na essência – que nos sentimos ameaçados sobre nós mesmos, com quem temos convivido o tempo todo o dia inteiro.

Ainda não consigo dizer exatamente a que conclusão cheguei que não fosse que as crises – quaisquer que sejam e que nome levam – têm em si a beleza da dor e do prazer do reencontro. Em nosso aniversário nascemos para o mundo. Quando, afinal, nascemos para nós?!

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