Vanessa Tobias: Espelho, espelho meu

Sou fã de uma frase que diz que só vemos nos outros o que carregamos em nosso coração. É inteligência usar o que o outro nos faz sentir para nosso autoconhecimento. Em 2012 comecei um curso com um mestre espetacular. Na ocasião, empolgada com a chance de aprender com ele e conhecendo o tamanho do investimento de tempo e de dinheiro que estava fazendo, saía de casa com toda garra para ser muito dedicada. Então eu fazia perguntas, eu pedia feedback, eu realmente me esforcei – e estava orgulhosa.

Em uma das aulas, uma das alunas desabafou seu desconforto com a minha presença, dizendo que eu “perguntava muito”. No final de cada lição o professor dizia: “Alguém quer fazer alguma pergunta?” Eu ficava quieta, ninguém falava nada, daí eu perguntava. Na verdade eu ficava pensando comigo: Meu Deus, ninguém vai falar nada? Um mestre desse! Eu tenho mil perguntas! – e então perguntava.

Desenvolvi a partir daquela experiência uma ferramenta íntima para lidar com momentos em que me sinto julgada ou momentos em que começo a julgar alguém. Aquela menina do curso falhava em pensar em si mesma – como eu falho muitas vezes, então nem éramos tão diferentes! Encolhida no seu canto, apontava para o seu oposto, desprovida da coragem.

Na época eu não tinha nem sabedoria nem a compreensão de que, muitas vezes, quem esbraveja também ama. Que ela jamais teria sido grosseira se estivesse de bem consigo mesma. Nada nos custa a elegância de um feedback de canto, um diálogo relativamente desconfortável mas curador, que confronta a verdade: “Olha, quero falar mas não sei como, você me incomoda… queria não sentir isso. Me desculpe”. Ou algo do gênero.

Nessa semana pela manhã parei para fazer minha oração diária – tenho escutado uma música linda pela manhã e feito silêncio em gratidão ao dia – e pensei no quanto me vejo regida por três princípios, que desejo compartilhar carinhosamente, e o quanto eles, unidos, me servem de salvaguarda para a evolução da minha consciência:

1. Transparência: sempre falar a verdade, leve o tempo que for para construir uma estrutura para encarar as escolhas, porque falar a verdade funciona como um senso de responsabilização;

2. Compaixão: algo que não nos pode faltar é a fé de que cada um, além de ser responsável por si, é também capaz de enfrentar seus segredos e seus limites. Amor de verdade crê que o outro é poderoso além de sua própria medida, e o aceita como responsável pela colheita das suas plantações;

3. O não julgamento: sabendo que o que vejo no outro, certamente, é uma parte de mim. Nem sempre é fácil, mas é como um propósito de vida: modular a raiva e o ressentimento que o outro projeta em mim, e convertê-lo para a lembrança do que o amor na sua origem mais pura significa.

Meu irmão sempre dizia que quanto mais luz a gente tem, mais escuridão a gente atrai. Poderia ser uma injustiça não fosse o propósito do ser iluminado, converter a escuridão em mais uma vela acesa. Que a gente cultive um espaço para reservar a nós o direito de não carregar o que não é nosso e aprender com cada julgamento que fazemos.

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