Cuidar e ser cuidado é uma das melhores partes de um relacionamento

Todo mundo gosta de ser feliz, e de ser feito feliz. Todo mundo gosta de receber surpresas, um cafuné, um agrado. Todo mundo gosta de ser mimado.

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Eu me considero muito seletiva a respeito das pessoas às quais escolho dedicar meu tempo e minha atenção: sou daquelas que prefere ter um punhado de amigos que conheço como a palma da mão, nos quais sei que posso confiar para tudo, e os quais consigo imaginar sendo ainda meus amigos daqui a 30 ou 40 anos, do que chamar de “meu amigo” umas quinhentas pessoas que eu conheço há, sei lá, cinco ou seis meses. Sou daquelas que, quando vai contar uma história, fala “eu tenho um conhecido que…”, porque não vai sair dando status de amigo pra qualquer um assim, não. Amigo é um status que se conquista. Que se faz por merecer. Status de namorado, então, socorro – levou 22 anos pra eu achar que alguém valia esse título. Pode perguntar pros meus amigos – os de verdade: eles são testemunha dessa história.

Então eu me acho superior a todo mundo? Acho que ninguém merece “a honra” de ser meu amigo? Sou uma arrogante que anda por aí achando que tem o direito de desprezar tudo e todo? Nada disso – eu só acho que relacionamentos de verdade, amizades duradouras, namoros que valem a pena, exigem dedicação. Dedicação de verdade, não só curtir as fotos que o dito amigo posta no Instagram: é conversar, é saber se o outro está bem e feliz, é conhecer e torcer pelos planos dele, é achar tempo na rotina corrida para um café ou um barzinho. É topar com aquela coisa que sua irmã estava querendo tanto, e comprar, mesmo que não seja aniversário dela. É não saber nada de cozinha, mas se arriscar a tentar fazer alguma coisa no aniversário de namoro, só porque seu namorado vai achar legal e ficar feliz. Sim, dá trabalho. E é por isso que eu não acredito que alguém consiga encontrar tempo e energia para se dedicar de verdade a quinhentos amigos. E mais o/a namorado/a, talvez.

Porque tudo que eu não dedico aos meus “conhecidos”, eu dedico aos meus amigos, à minha família, ao meu namorado, às pessoas que realmente importam para mim. Eu sou escorpiana, vai – se é para ter um relacionamento meia-boca, eu nem tenho. E me incomodo com quem acha okay ter relacionamentos superficiais. Me incomodo também com outra coisa: o individualismo que impera hoje em dia. Um individualismo que beira o egoísmo. Um individualismo que prega que quem se dedica, quem abre mão de um pouco do seu tempo ou até de uma ou outra vontade para agradar aos outros, é “trouxa”. É conservador, é antiquado. Como se qualquer atitude que não fosse tomada exclusivamente em benefício próprio fosse uma ofensa à sua personalidade, à sua individualidade, à sua liberdade.

Confesse: quando leu meus exemplos ali em cima, você me achou meio boba por presentear minha irmã do nada, simplesmente porque ela disse que queria a tal coisa que depois apareceu no meu caminho? Me achou meio machista por resolver cozinhar para o meu namorado? Espero que não seja o seu caso, mas tem sim muita gente por aí que parece pensar desse jeito. Não vamos confundir as coisas, é claro: fazer algo obrigado, ser manipulado para fazer coisas que de outra maneira não quereria, ter suas vontades e sua personalidade anuladas para obedecer ao outro, isso sim é negativo – e a fronteira entre as duas situações pode ser tênue aos olhos de algumas pessoas, admito, principalmente aos olhos de quem está diretamente envolvido nelas. Mas eu acho sim que relacionamentos são feitos de momentos que cada pessoa cria para o outro. E são sustentados por esses momentos – sem carinho, sem a dedicação de que eu falei lá em cima, o relacionamento, seja ele da natureza que for, seca e morre.

É legal, sim, se presentear – se você passa o mês inteiro trabalhando pelo seu dinheiro, por que não investir um pouco dele em si mesmo? Mas também é muito legal presentear quem se ama – e ficar feliz com a surpresa do outro. É essencial entender que sua liberdade é sua, e qualquer decisão que você tomar deve, sobretudo e em primeiro lugar, servir ao propósito de melhorar a sua vida – mas não é burrice considerar que, poxa, se sua amiga vai ficar triste se você fizer ou disser determinada coisa, e você não vai exatamente morrer se não disser ou fizer, talvez valha a pena, só hoje, dar um passo atrás. É ótimo se amar, se aceitar e ver beleza em cada detalhe seu, e saber que sua própria aprovação é a única de que você realmente necessita – mas custa comprar uma lingerie fetiche no aniversário de namoro, se o seu namorado já deu a dica de que acha uma renda vermelha a coisa mais sexy do mundo? É maravilhoso saber se dar prazer, e ensinar seu parceiro a fazer o mesmo por você – mas sexo é feito a dois, gente, e dar prazer ao outro faz parte da troca. Troca. Não só no sexo: é disso que são feitos os relacionamentos. E, se você não está disposto a ceder, a agradar, a negociar, é melhor nem começar a brincar disso.

Todo mundo gosta de ser feliz, e de ser feito feliz. Todo mundo gosta de receber surpresas, um cafuné, um agrado. Todo mundo gosta de ser mimado. E, se você não fica feliz (ou, pior, nem está disposto a) em fazer tudo isso pelas pessoas de quem supostamente gosta ou ama, e que supostamente são seus amigos ou mais do que isso, talvez seja hora de rever o status que você dá a essa gente. Tem certeza de que eles são mais que simplesmente seus conhecidos?

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