O estilo do interior na Capital de Santa Catarina

Foto: Pixabay

Naquele dia acordamos cedo, era terça-feira, dia normal de movimento e rotina. Na saída do prédio, um moço estava limpando a calçada com aqueles sopradores de folhas, e uma senhorinha passeava com o dog no meio da rua. Não tinha silêncio em volta, nem dia de sol romântico – necessariamente. Daí como a senhorinha caminhava sem pressa – só não formava fila porque nossa rua é sem saída – a gente ficou ali, contemplando.

O dog parava, ela também, sem notar que o carro estava ali e a gente esperando. Eu e o Ricardo nos entreolhamos e demos um sorriso agradecido: essa senhorinha nos colocou no clima do interior, em plena terça, na Capital. Nem viu a gente, seguiu para a calçada e a gente foi para a estrada.

Tinha um mestre meu que usava a expressão “mini-férias” quando um aluno dava aquela viajada em sala e depois “voltava” para o assunto. Eu tiro mini-férias desse tipo direto – às vezes nossa imaginação leva a gente bem longe. Quando dou por mim estou criando um novo tema de palestra, um jogo novo, uma marca ou ideia de negócio. Enquanto estou num café comendo alguma coisa – nem bem pedi o bolo, na mini-férias não noto que ele já acabou enquanto viajava.

Ando agora sem o celular: porque não fico mais com o Whatsapp, nem abro tanto o Instagram – senão fico sequestrada de mim, e duas horas passam em dois minutos. Pode ser a gravidez me conectando com outras formas de ver a vida, ou não. Mas estou aproveitando essa fase como um bom argumento de mudança de atitude – sinto minha falta.

Agora, quando eu e o Ricardo saímos a gente deixa os celulares no carro. Rende tanto mais tudo, e meia hora tem 30 minutos outra vez. E quando terminamos as atividades do dia, ainda é 19h30min, e já fizemos o que tínhamos que fazer. Podemos ir a pé para a academia, tomar um banho um pouco mais demorado, ligar para os amigos, estar com a família e namorar.

Naquele dia da senhora com o cachorro, a gente saiu da nossa rua rindo. Pareceu até que, em volta, as coisas estavam mais verdes. Sabe aquele momento poesia em que a gente lembra que mora na cidade mais linda?! Dobramos a rua para entrar na empresa onde o Ricardo trabalha e nela preciso colocar o carro um pedacinho para a frente para conseguir ver se está vindo carro do outro lado. Coloquei o bico do carro pra frente, olhei pra esquerda, vinha carro, parei. Do lado direito um senhor vinha a pé – mas eu não vi, em mini-férias com o passeio do dog na cabeça.

Aquele senhor passou pelo carro, gritando para mim, para os dogs que passeavam com suas senhorinhas e para as árvores que tentavam verdejar que eu era espaçosa e que estava desrespeitando a passagem do pedestre daquela rua.

Baixei o vidro e disse: Me desculpa? Eu não vi. E ele disse: Que desculpa o quê? Eu insisti: Moço, vamos ficar de bem? – num tom bem humorado, de interior. Ele pisou duro e se perdeu pro ritmo da terça, dando de braço no ar, revoltado com a vida.

Mandei uma energia boa para ele, porque naquele dia me senti convidada ao interior dentro de mim e ao bem que posso criar, sem partilhar do entristecimento do outro. Se eu me contaminasse não poderia parar com prazer na faixa de pedestres que vinha na sequência, e consertar o meu erro de desatenção.

O Dale Carnegie dizia que para ter relações humanas saudáveis a gente precisa “tornar as faltas fáceis de serem corrigidas”. Faz sentido, não é?!

Se hoje a gente errou na virada da rua, embicando nosso carro demais, baixar o vidro e pedir desculpas e desculpar mexe com a gente e nos leva para dentro de nós. Porque quando o cachorro anda no meio da rua, a prioridade é a velocidade dele ao atravessar, é como colocar o amor acima das faltas, permitindo que elas sejam corrigidas, e voltar a ver as cores do interior aqui na Capital.

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