Inverno 2020: invista na mistura de estampas e padronagem em xadrez

Foto: Dari Luz, especial

O desafio da coluna desta semana é mostrar o quanto a mistura de estampas é possível e que as padronagens em xadrez são uma tendência atemporal, sem serem antiquadas. Em contrapartida, um dos looks que produzi foi inspirado no desfile da Valentino, que ocorreu em Paris recentemente, onde o destaque ficou por conta dos looks pretos e vermelhos, com pitadas de estampas que fecharam a apresentação.

Da vez

A história da estampa xadrez começou na Escócia no final do século XIX, ele foi inventado pelos pastores e eram feitos em lã grossa, para se proteger do frio. Em 1934, o príncipe de Gales apareceu pela primeira vez na Vogue usando a estampa houndstooth, ou vulgo dente de cachorro, de leão ou o mais popular e conhecido até hoje, Pied de Pole, em francês pés de galinha. Desde então a tendência ganhou, literalmente, a “boca do povo”. Esse motivo passou a ser objeto de inúmeros artigos marcando o início da popularidade do shape.

Vestido Johnny Was, blazer Novoa e luvas acervo. Foto: Dari Luz, especial

Alguns anos depois, no início dos anos 1950, foi introduzida na alta costura e rapidamente se tornou o emblema da Dior, que a usava para criar sapatos, vestidos, ternos e até uma famosa embalagem para perfume que perdura até hoje. Foi a grande largada para que virasse uma das estampas mais chiques e clássicas da moda.

Nem clássica e nem burguesa, atualmente foi trazida à tona durante a última semana de moda outono-inverno. Eu cheguei a pensar que estava meio perdida no limbo da moda, mas no momento em que ressurgiu nas passarelas, a impressão que tive é que a Príncipe de Gales se reinventou mais moderna e usável. Modernizada na Chloé, na Chanel, ou em denim com o espírito desconstruído da Balmain, esse “motivo burguês” atesta um fascínio elegante e hipnótico e causa, sem dúvida, boa impressão para quem usa.

Sapato Chanel, calça e blusa Dhuo, casaco Eva e carteira Chanel. Foto: Dari Luz, especial

Estampas exclusivas

Dia destes fui conhecer e prestigiar Leonam Dantas, CEO e estilista da Dhuo, marca que há 15 anos é uma das mais admiradas no cenário contemporâneo nacional e traz no seu DNA, estampas digitais exclusivas e autorais. Todo este movimento foi realizado pela empresária, e visionária do cenário da moda catarinense, Tida Zanatta, da Loja Tida, no Beiramar Shopping.

Camisa Eva, vestido Dhuo e botas Schutz. Foto: Dari Luz, especial

A marca nasceu no Mato Grosso do Sul com Giuliano Mazeti (sócio e criador de todas as estamparias da Dhuo) e era exclusiva de camisetas com dizeres de protesto. Quando Leonam conheceu Giu, o nome já existia com outro sócio que hoje segue carreira solo, aqui mesmo em Santa Catarina. Na época Leonam tinha uma multimarcas e começou a trabalhar com as camisetas em Presidente Prudente (SP). A identidade do estilista sempre foi de moda e ele entrou com toda a sua bagagem para a partir daí, num universo mais feminino levar as estampas para os tecidos.

— São 15 anos realizando estampas e em algumas épocas chegamos a 20 tipos diferentes por coleção — revela Dantas.

Faixa em couro Fernè, casaco Novoa, vestido Dhuo e botas Schutz. Foto: Dari Luz, especial

Nas araras da Tida um público exigente pode apreciar os florais, grafismos, bordados, transparências, volumes interessantes com modelagens confortáveis. O estilo é bem peculiar, marca registrada da label que não tem medo de ousar, através da sua identidade e personalidade. Muitas vezes com uma pegada pop art, maximalista; outra, de uma tropicalidade bem brasileira, alegre, sedutora. Entre as matérias-primas, muito jérsei, algodão e seda pura.

— Uma das principais características da Dhuo, e de outras grifes, é que a estampa é quem dá mais identidade à marca. No início fazíamos apenas malharia mas a seda entrou como divisor de águas e foi quando a marca se encontrou. Hoje, 80% dos tecidos usados é a seda, diz também o estilista.

Valentino me inspirou

Recentemente ocorreram as semanas de moda internacionais e um dos desfiles que mais me chamaram a atenção foi o da Valentino. Parece contraditória a maneira que Pierpaolo Picciolo, diretor artístico da marca, escolheu fazer o outono-inverno 2020-2021, mas foi o que eu senti do início ao fim, onde o menos foi mais. Para a coluna me inspirei com o look de veludo preto com luvas e um toque de luz, dado com a bolsa vermelha.

Vestido Belloni, camisa Single, brincos Ruth Grieco, bolsa Chanel e luvas acervo. Foto: Dari Luz, especial

A apresentação da Valentino foi num espaço iluminado, próximo ao Hôtel national des Invalides, onde o estilista apresentou uma coleção com muitos cortes clássicos e cores acima de qualquer suspeita. Uma linha de aparência simples e longe de toda a teatralidade com que estamos acostumados na Alta Costura. O couro foi cortado em pregas em uma saia midi e na forma de pétalas de rosa ao longo de um casaco. No decorrer do desfile, a meio de vestidos, jaquetas, luvas e limícolas, o couro deu lugar a grandes estampas florais, mas nada extravagante.

Como uma luva

Na história da moda encontramos os rastros das luvas por volta do século XVI. De acordo com alguns historiadores, a rainha Elizabeth I de fato usava um par branco com franjas douradas, durante uma cerimônia em Oxford em 1566. Foi no final do século XIX que a longa luva atravessou o Atlântico, graças a atriz Sarah Bernhardt, uma grande amante da moda, que quis esconder os braços pois se achava muito magra. Quase um século depois popularizado entre as estrelas de Hollywood Rita Hayworth, em Gilda, Marilyn Monroe, em Homens Prefere Loiras, e Audrey Hepburn, em Diamonds on the Couch.

Os modelos até os cotovelos também foram usados por homens em Jean Paul Gaultier. A Maison Margiela usou luvas tradicionalmente curtas, com uma certa originalidade. Para adicionar elegância às roupas, os designers confiam na cor. A tendência que já foi adotada por muitas celebridades, voltou às passarelas internacionais recentemente. Um desfile em especial me chamou a atenção para o acessório, o da Valentino com pares compridos vermelhos fazendo contraste com o look preto.

Fique de olho ainda

Gypset: Janis Joplin está nas passarelas da temporada. A moda afirma sua casualidade rebelde, com uma infinidade de sotaques do rock boêmio dos anos 1970. Abra caminho para silhuetas hippies, cheias de impressões de outros lugares, em um registro neo-Woodstock, que — cortes que ajudam a zero falhas — se aplica perfeitamente hoje.

Vestido Jeff Galliano e casaco Johnny Was. Foto: Dari Luz, especial

Sustentabilidade: Se o mercado da moda é uma das indústrias mais rentáveis, também é uma das mais poluentes do mundo. Pioneira na luta sustentável, Stella McCartney anunciou recentemente que se juntaria à LVMH para impulsionar a estratégia de desenvolvimento sustentável. Primeira ação? Com mais de 75% de roupas ecológicas, sua coleção primavera-verão 2020 foi a mais sustentável que ela já havia desenvolvido. Vivienne Westwood, cuja tocha criativa foi ocupada por seu marido Andreas Kronthaler, também nunca esquece sua cruzada pelo planeta, fazendo mais da metade da coleção com tecidos não vendidos.

Ternos curtos: Com uma temporada sob influência moleca, o smoking está voltando. Sim, mas nos shorts das bermudas, corte abaixo do joelho e contrasta com os detalhes mais femininos, como uma blusa transparente, um sutiã dos anos 1990 ou um decote profundo.

Poder nos ombros: Novo exercício de estilo: a ombreira reinventada em volumes de vários tamanhos: rodadas para a garota de negócios dos anos 1990 na Versace, armadura afiada para heroína retro-futurista em Balenciaga e bombardeio punk em Junya Watanabe.

Participaram deste editorial:

Produção executiva, produção, styling, pesquisa de moda: Lise Crippa
Modelo: Thaynara Serafim – DN Models
Fotos e tratamento de fotos: Dari Luz
Produção de cena: Larissa Maldaner
Beleza: Larissa Maldaner
Marcas e lojas participantes: Belloni, Chanel, Dhuo, Eva, JEFF Galliano, JOHNNY Was, Novoa, Single, Ruth Grieco Joias, Tida.