Ir além, buscar mais… ousar!

médico
Foto: Divulgação

Nos próximos seis meses estarei escrevendo a coluna direto de Londres já que fui aprovada num fellowship por aqui.

Chamamos de fellowship o período de treinamento que pode ser realizado depois da residência médica para aperfeiçoamento na subespecialidade, no meu caso em ginecologia, obstetrícia e uroginecologia em um hospital ou serviço de referência.

Sabendo que a medicina é uma profissão essencial para a sociedade e que está fortemente ligada ao compromisso pessoal, dedicação e desejo de doação ao próximo, os caminhos são árduos, desafiadores e extremamente competitivos e apenas ser bom tecnicamente não faz daquele médico o melhor nem o mais completo.

É necessário ir além, buscar mais, ousar mais, ser tecnicamente muito bom e ter uma brilhante relação com o paciente. Não é fácil. Perdi as contas de quantas noites, almoços de família, viagens, saídas com os amigos, tempo com meu marido falhei ou faltei. A vida fica completamente imprevisível, inconstante e por que não, difícil?

Tenho certeza que a medicina é um dom, nem todos aguentam o tranco. Mas, quem aguenta é muito bem remunerado pelo sorriso, olhar, palavras e satisfação dos seus pacientes. Salvar vidas está entre as mais desafiadoras das nossas atribuições e muitas vezes o diagnóstico a torna impossível. Porém, acalentar, abraçar, orientar, estar e ser presente e doar o nosso melhor está entre os nossos deveres. É paixão, daquelas avassaladoras, que move o dia a dia e as noites em claro e os casos que a saída parece impossível.

Nas horas vagas tem que encontrar espaço para o artigo que acabou de ser publicado e para revisar o tratamento daquela condição rara que apareceu no consultório e você já não lembra mais a melhor conduta, pausa para responder o Whatsapp e conferir o e-mail, tornou-se impossível não tê-los como aliados apesar da proibição de consultas não presenciais pelo Conselho Federal de Medicina. E se sobrar tempo, hora de programar o congresso para daqui a nove meses, afinal, atender gestantes é o mesmo que programar uma agenda para daqui 41 semanas e correr o risco de começar o pré natal daquela paciente que você adora, da sua super amiga, do segundo bebê daquela família que você já fez o primeiro parto bem quando você programou suas férias ou aquele congresso imperdível. Perdi as contas de quantas vezes me programei e chorei quando a paciente me ligou em trabalho de parto ou porque a bolsa rompeu. Sorte a minha – e porque não das pacientes – que eu trabalho com a minha mãe e, azar o nosso que nunca mais viajamos juntas desde que eu me formei.

Foi assim, com muita dificuldade que programamos esses seis meses longe do Brasil, uma nova cultura, uma nova língua, uma desestabilizada na minha zona de conforto em prol de um aprimoramento único e uma experiência imensurável.

Também chorei nos meus últimos dias de consultório, recebi um carinho e um vai em frente de tanta gente que me senti igualmente especial e prometo além de todo o aprendizado levar o nome do Brasil em trabalhos científicos da mais alta qualidade.
Sigo nossas colunas quinzenais com uma pitada inglesa priorizando sempre a informação para todos vocês.

Leia mais:

Depressão e ansiedade: como anda a saúde mental da mulher

Pressão alta na gravidez significa cuidado redobrado

Congelamento de óvulos: atriz Paolla Oliveira reacende debate sobre a técnica

Dra. Luisa Aguiar
Luísa Aguiar da Silva Especialista em Ginecologia e Obstetrícia pela AMB Especialista em Uroginecologia pela Unifesp Professora da disciplina Materno Infantil da Universidade do Sul de Santa Catarina Proprietária junto com a Dra Raquel Aguiar – minha mãe – da Clínica Urogine