Isso até eu faria: quando a simplicidade parece muito fácil de ser executada

Litografias de Miró (Fotos: Juliano Sandrini / Reprodução)

Jack Pollock, mestre do expressionismo abstrato, exercia o que se chamava de “pintura em ação”: movimentos espontâneos, velozes, abusando da técnica de gotejamento. Ele usava até esmaltes para respingar a tela. Há quem se pergunte por que raios Pollock é festejado por tanta gente e tem seu trabalho exposto nos maiores museus do mundo, já que, diante de seus quadros, a sensação é de “ah, isso até eu faria”.

Diante dos quadros do espanhol Miró, a sensação é idêntica. Miró pintava bonequinhos, manchas coloridas, tudo muito inocente e lúdico. “Qualquer criança faz isso”, escuta-se ainda hoje, entreouvidos, nos cantos das galerias.

Arte realizada aparentemente sem esforço. Se uma obra parece ter sido criada em 20 minutos, a avaliação não é tão generosa quanto a de outras que parecem ter levado décadas para serem concluídas. Que se caia de joelhos diante da Capela Sistina, compreensível: aquilo, sim, a gente não faria. Mas pintura abstrata? Bossa nova? Simples demais. Os presunçosos não perdoam.

Até hoje há quem não se conforme com o “O pato”, de João Gilberto. “O pato vinha cantando alegremente, quém, quém”. Como essa banalidade pode ser aplaudida? Uma natureza morta de Cézanne: maçãs sobre a mesa. Quanto tempo ele teria levado para pintá-las? Alguém responderá: “O tempo que se leva pra tomar um cafezinho no intervalo do expediente”. É o que muitos suspeitam, mas não dizem, temendo passar por ignorantes.

She loves you, yeah, yeah, yeah. Nem o pai de Paul McCartney aprovou essa versão. Pediu ao filho que ao menos cantasse she loves you, yes, yes, yes, um “sim” britânico, classudo, mas Paul tinha menos de 20 anos, insistiu no yeah e pouco importa, a única certeza é que o verso é tão comum que um compositor de jingles faria melhor, não faria?

“Eles passarão, eu passarinho”. Uma garota de 14 anos uma vez declarou que os versos que ela publicava em seu blog eram mais elaborados do que os de Mario Quintana. Se até alguns intelectuais consideravam Quintana infantil, é natural que muita gente despreze alusões a passarinhos, esperanças e espantos, assim como desdenham das bandeirinhas de Volpi e das letras de Roberto Carlos. A simplicidade parece muito fácil de ser executada. “Isso até eu pintaria”. “Isso até eu cantaria”. Mesmo? O mundo aguarda com ansiedade a entrada em cena desses inúmeros talentos secretos. Porque criticar, isso sim, qualquer um faz.

Mais de Martha Medeiros:
Menos educação significa mais miséria, mais preconceito, mais violência
Filho é tudo igual, só muda de endereço
“A tela do meu computador testemunhou muita coisa em 25 anos”