Joinvilenses negam os clichês locais e apresentam novas ideias de empreender e viver na maior cidade de Santa Catarina

Marcelo Monich produz a própria cerveja em Joinville. Foto: Cleber Gomes

Por Rafaela Mazzaro

A mesma ousadia que corria às veias dos que enxergaram em Joinville um solo promissor para a indústria nutre uma geração que mira para longe dos modos de ganhar a vida predominantes na cidade. Distante dos clichês que conectam a cidade mais populosa do Estado à impressão de um estilo de vida tradicional, até mesmo conservador, essas pessoas expõem a pluralidade local em seus trabalhos.

São joinvilenses que comemoram o fato de serem “um ponto fora da curva” e ajudam a cidade a ser vista com outros olhares até por quem nela vive. Podem chamar de empreendedorismo, porém ele não é o único motivo que move as quatro histórias que contaremos nas próximas páginas. É a vontade de oferecer novas experiências a quem vive na cidade aliada a predileções pessoais os combustíveis que os destacam.

Foi o gosto pelas artes visuais e o incômodo por sua ausência em Joinville que levou Sarah Pinnow e Gabriela Loyola a criar uma vitrine para talentos artísticos até então fora do alcance ocular dos moradores da cidade. A vivência gustativa de Marcelo Monich gerou as misturas incomuns de sabores da cervejaria onde ele é sócio. A vontade de proporcionar a um maior número de pessoas melhores condições de saúde motivou Pedro Assis a criar a maior operadora de planos de saúde de Santa Catarina. E a busca pela realização pessoal fez de Beatriz Alvarez uma semeadora de sorrisos.

Arte à vista de todos

Quer mais ousadia do que montar uma galeria de arte e um escritório de consultoria para compra de obras artísticas em uma cidade que pouco consome este tipo de produto? Para a sócia da El Clandestino, Sarah Pinnow, e a idealizadora da Picta Escritório de Arte, Gabriela Loyola, seus negócios não eram apenas um investimento, e sim, o desejo de movimentar o cenário artístico de Joinville.

Foto: Cleber Gomes

Mesmo buscando dar visibilidade ao que é produzido no Norte do Estado, a designer de moda Sarah e a ex-administradora do ramo têxtil Gabriela queriam fazer mais. Elas sonhavam realizar um encontro que estimulasse o interesse das pessoas por criações autênticas. Algo que valorizasse comercialmente trabalhos singulares e gerasse combustível para que novos talentos saíssem da sombra.

– Se há falta de investimento em cultura e arte pelo poder público por que nós mesmos não fazemos algo? Assim eu pensava quando decidi voltar para Joinville para trabalhar e abri a El Clandestino – lembra Sarah, que atualmente conduz a galeria em formato itinerante.

Gabriela seguiu o mesmo compasso quando deixou o cargo na indústria e resolveu buscar formação para se tornar especialista em arte.

– A criação artística é um dos alimentos para a inovação em qualquer setor, inclusive o industrial. E eu pensava: onde é que as pessoas podem se alimentar dela em Joinville? – conta Gabriela.

Elas uniram forças e em novembro e dezembro do ano passado deram início à primeira etapa do Hic et Nunc: Aqui e Agora, projeto que reúne produções contemporâneas de moda, artes visuais e design. Realizado nesta primeira experiência dentro de um restaurante, outra atração se juntou à mistura criativa: a gastronomia. O embrião do projeto contou com 40 nomes de jovens artistas de Santa Catarina, Paraná e São Paulo escolhidos a dedo pela dupla, alguns que pela primeira vez tiveram seus trabalhos expostos ao público, justamente pelas escassas oportunidades de visibilidade.

– Muitos até tem um trabalho já reconhecido, mas o público não sabe como ter acesso a ele – explica Sarah.

A público não deixou a desejar e estimulou a continuidade do projeto. A próxima temporada já está confirmada para o segundo semestre deste ano e deve continuar privilegiando criações contemporâneas que sigam as prerrogativas de originalidade, sendo a ponte entre público e artistas.

Cerveja cobiçada

Um espaço em frente ao balcão do Mad Dwarf é tão cobiçado quanto o conteúdo da fileira das suas 40 torneiras. Sentar na área mais movimentada do brewpub – nome dado aos locais que produzem e comercializam a própria cerveja – é garantia de ter a atenção de Marcelo Monich por pelo menos alguns instantes, seja na recomendação de uma “breja” mais adequada ao paladar do cliente ou na explicação sobre o modo de fabricação da bebida. Dono de uma produção de cerveja restrita aos íntimos desde 2011, Marcelo aceitou o convite de outros amigos cervejeiros para investir comercialmente no hobby há três anos, após deixar o trabalho de décadas em uma grande empresa de software de Joinville.

Foto: Cleber Gomes

Nascia o Mad Dwarf, cervejaria com espírito experimental, na contramão das demais cervejarias da cidade, sem limites na mistura de ingredientes junto ao malte e ao lúpulo. Vale de tudo. Combinações com frutas, café, vinho… Aliás, as únicas restrições respeitadas desde que o bar inaugurou são não vender refrigerantes e nem oferecer pilsen no cardápio, considerada a mais leve das cervejas.

– Foi uma decisão que a gente tomou para que as pessoas não se prendessem apenas ao sabor comum. Aqui a regra é experimentar, se arriscar – explica o cervejeiro.

Algumas têm recepção mais calorosa e ganham presença cativa no quadro de ofertas, outras fazem rodízio nas torneiras entre as 150 receitas registradas pela marca. Mas uma coisa é certa para Marcelo: dificilmente o visitante do MD sairá sem experimentar mais de um rótulo. A produção que alimenta as torneiras é relativamente pequena e pode ser vista do salão. É de lá que saem pelo menos dois tipos de cervejas diárias, algumas receitas em parceria com outros cervejeiros.

O conteúdo abastece também as demais unidades, em Balneário Camboriú e Blumenau, desde que Marcelo implementou o sistema de franquias, uma forma encontrada de atender aos apelos de quem não pode visitar Joinville e, ao mesmo tempo, manter o padrão de qualidade da bebida fora da sua vigilância.

– Tomar uma MD é preciso estar acompanhado de um serviço adequado, atendentes capacitados para sugerir – defende.

Operária do riso

Faz mais ou menos cinco anos que Beatriz Alvarez precisou fazer uma escolha dificilmente aceitável por uma grande parcela de pessoas que sonha com uma classificação em concursos públicos. Ela trocou a carreira de investigadora de polícia pelo desconhecido. O pedido de exoneração vinha acompanhado de bons argumentos: além de Bia passar por crises de síndrome do pânico, sentia necessidade de se aproximar mais de uma atividade que mantinha em paralelo e que sempre a acompanhou desde o ensino fundamental. O teatro pediu mais espaço na vida de Bia quando ela conheceu a palhaçaria, gênero teatral que permite a construção de um personagem, o palhaço, a partir do autoconhecimento das experiências do ator.

Foto: Cleber Gomes

– Ser artista não é uma escolha, é uma condição de vida. Eu só segui o chamado – justifica.

Para optar pelo novo, Bia precisou vender o único bem de valor, um carro, para custear o período de transição profissional, mesmo que as garantias financeiras posteriores inexistissem. Isso para uma mãe solteira de um adolescente parecia loucura. Primeiro, porque era preciso que Bia fizesse uma imersão a fim de construir a sua palhaça e, só assim, poder atuar profissionalmente.

A palhaça Everline Flore nasceu com a ajuda de Karla Concá, integrante do grupo As Marias da Graça, uma das referências nacionais do gênero e uma das influências no ingresso de Bia na empreitada artística. Foi Karla quem dirigiu a primeira peça solo de Bia, já apresentada dezenas de vezes nos palcos joinvilenses.

– A palhaçaria é uma forma de você se desconstruir para o outro sair do espetáculo mais leve – conta Bia, que em suas apresentações arranca risos da plateia ao expor suas fragilidades de forma cômica.

Bia certamente está longe da estabilidade financeira, mas já contabiliza dois espetáculos solos e a certeza do seu comprometimento com o fortalecimento da palhaçaria, sobretudo a que tange as mulheres. A militância em favor do movimento da palhaçaria feminina começou com a atriz produzindo cursos de formação na área, antes ausentes em Joinville. O estímulo rendeu frutos e a cidade já abrigou dois encontros nacionais do gênero. O último, em dezembro do ano passado, trouxe espetáculos inéditos, debates e oficinas para a cidade.

Em busca do 1 milhão

Pedro Assis poderia estar gozando de uma merecida aposentadoria conquistada sobre os anos dedicados à indústria joinvilense. No entanto, a real satisfação do empresário está longe do descanso. É no comando da Agemed, operadora de saúde criada com a liderança dele para atender aos colaboradores de uma fundição da cidade, que ele se realiza. De alternativa para a economia da fundição, a Agemed cresceu, tornou-se uma empresa terceirada e apta a ser lançada ao mercado em 1998.

Foto: Charles Guerra, BD

O ato corajoso de Pedro concedeu à empresa lugar de destaque em um mercado bastante concorrido. O negócio ousado se solidificou em Joinville e ganhou a confiança em territórios, sendo a maior operadora do Estado e uma das 26 do País. Vinte anos depois da transição, já são mais 300 mil beneficiários espalhados por Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Distrito Federal.

– O fato de sermos de Joinville certamente facilitou a aceitação na cidade. Mas a recepção em outras cidades foi bastante positiva. Principalmente porque a política de expansão em Santa Catarina foi liderada pelos meus próprios filhos (Soraia, Francini e Pedro), que conhecem a cultura da Agemed como poucos – conta Pedro.

Com o apoio da família, o sonho de conquistar ainda mais usuários já não se torna cada vez mais possível. A meta de Pedro é chegar à marca de 1 milhão de beneficiários até 2020, facilitando cada vez mais o acesso dos brasileiros à saúde de qualidade.

– Em muitas cidades, a Agemed foi responsável pelo crescimento da população com planos de saúde. Na maioria delas, o percentual da população com planos de saúde é inferior a 20% e com a nossa ação este percentual tem crescido – orgulha-se.

A estratégia para alcançar a marca tem sido investir em tecnologia para a gestão dos processos. Pedro dá como exemplo a criação do serviço Médicos Online, em que o cliente pode falar com um médico e tirar dúvidas a qualquer hora sobre questões relacionadas à saúde.

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