“A marca que não tem identidade não tem vida longa”, afirma Jorge Bischoff

Designer esteve em Balneário Camboriú, conversou com a revista Versar sobre a crença na identidade própria para o sucesso do negócio e adiantou o que será tendência no inverno 2019

Designer Jorge Bischoff - Foto Carlos Alves, divulgação

De Igrejinha, interior do Rio Grande do Sul, para mais de 50 países através de boutiques multimarcas. Jorge Bischoff, criador da marca que surgiu no mercado em 2003 e que leva o seu nome, se destacou no setor de sapatos, bolsas e acessórios com um conceito próprio de design. Na identidade, valoriza a aplicação de metais, pedrarias exclusivas, misturas de cores, materiais e texturas na mesma peça.

Bischoff esteve na última semana em Balneário Camboriú e conversou com a revista Versar sobre a expansão dos negócios para o exterior, o mercado de trabalho na área da moda e do design e a crença na identidade própria para o sucesso. Ainda, adiantou o que será tendência no inverno 2019 e o que a marca está preparando para agradar ao consumidor mais exigente.

Confira a entrevista:

Quando você criou o primeiro sapato em Igrejinha, interior do Rio Grande do Sul, imaginava que viraria uma marca tão desejada?

Sempre trabalhei com design de sapatos. Eu tinha um estúdio que desenvolvia design para várias marcas, tinha cerca de 30 marcas que eu dava suporte também para montar a área comercial e de comunicação. Em um evento, um jornalista que estava presente me perguntou por que eu não tinha a minha marca. Eu, um alemãozinho do interior do Rio Grande do Sul, pensei: será que daria certo? Fiquei uma semana pensando no assunto e lançamos a marca. Naquela época não tínhamos ideia que chegaríamos onde chegamos hoje, anos depois. Foi uma construção. Cada dia uma nova história, cada dia um desafio novo, sempre buscando surpreender a consumidora. A questão do design e da moda não tem fim. Quando terminamos de pensar um produto, já temos que começar a desenvolver outro, nunca tem fim. É uma vida contínua, mas muito boa.

Como começaram as franquias e quantas lojas a marca tem hoje?

Eu conhecia bem o mercado, a área industrial, mas pouco do varejo. Quando começamos, há 15 anos, tínhamos uma loja em Porto Alegre, numa rua bem badalada lá. Foi o local escolhido para conversar com a consumidora, entender o que ela queria. Depois montamos uma loja em Gramado. Logo depois mais uma em um shopping em Porto Alegre. Assim começamos a entender do varejo, para depois de 5 anos lançar um projeto de franquia. Então, isso faz 10 anos. Hoje são 76 lojas no país.

Sapatos foram autografados durante evento em Balneário Camboriú. Foto Carlos Alves. divulgação

Fora do país, são quantas lojas?

Temos a loja conceito, que foi inaugurada no ano passado em Miami (EUA). Estamos trabalhando no e-commerce, também nos Estados Unidos. Assim esperamos conhecer o consumidor do país inteiro, que são muito diferentes, até pela variação climática que é muito diferente num pais tão grande. Prevemos em 2020 começar a expansão nos EUA. Hoje exportamos para mais de 50 países, todos para lojas multimarcas. Mas temos projeto para lançar franquias internacionais fora do EUA também.

Como é competir no exterior com marcas já reconhecidas?

Nossa maior preocupação não é com a competição, mas em conhecer o desejo das consumidoras. Um lugar como Miami, que tem uma pluralidade de pessoas tão grande, por exemplo, tentamos pesquisar quem é nosso público, e vimos que não é de americanas. Meu sapato agrada mais ao mercado europeu, sul-americano e latino. Para o americano preciso adaptar o conceito de sapato. Vemos o trabalho lá com o mesmo desafio que tivemos para conquistar o mercado brasileiro: temos vários concorrentes e precisamos achar a nossa linha, o nosso conceito de produto e trabalhar ele. A consumidora tem que se identificar com você, ter uma identidade própria. Por isso trabalhamos muito com texturas, combinações de cores, metais.

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A exuberância, os detalhes do produto então não nasceram com a marca. Foi uma característica desenvolvida com o tempo de conhecimento da consumidora?

Isso, foi amadurecendo. Mas tem muito a minha cara, meu DNA, então não tem como mudar. Vamos sempre adequar as tendências de mercado ao nosso conceito. É assim que funciona com todas as grandes marcas, todas têm o seu conceito. A marca que não tem identidade não tem vida longa, ela pode brilhar por um período, depois ela desaparece. Esse é o grande desafio.

Poderia nos colocar três pontos fundamentais que você acredita para uma marca chegar ao sucesso que a Jorge Bischoff tem hoje?

A primeira coisa é entender muito bem o mercado que você que atuar. Eu já vivia o mercado brasileiro, mas mesmo assim estudei muito a questão do varejo. Se não conhecer muito bem, é difícil construir alguma coisa.

Outro ponto fundamental é saber dizer não e ter foco no que você quer fazer. No início você vai receber várias e várias sugestões para mudar isso ou aquilo. É uma parte muito difícil trabalhar para não ser contaminado pelas sugestões externas. E na verdade, se você escuta tudo e vai para todos os lados, não constrói a sua identidade.

Por último, entregar o que você promete. A consumidora precisa chegar na loja e ser surpreendida com um produto novo, maravilhoso e confortável. Eu me comprometo com isso e preciso entregar.

O atual mercado de trabalho em moda em design tem espaço para que tipo de profissional?

Acredito que o grande segredo é que a moda precisa de um cunho comercial. Até pouco tempo havia uma leitura de mercado que tudo precisava ser muito artístico, mas chega um ponto que isso só serve para o primeiro aplauso. O design precisa movimentar a indústria e o varejo, o design é uma ferramenta comercial, financeira. Qualquer pessoa que se profissionalizar por esse ângulo vai ter muito sucesso. O design hoje está em tudo, no vaso sanitário, na louça, em tudo. Mas ele tem que ter esse cunho comercial, de negócio, aí tem espaço para muitos profissionais.

O que esperar pela frente da marca? O que estão preparando para a coleção de inverno, pode adiantar alguma tendência?

 

A coleção de inverno está pronta, já estamos compartilhando com os nosso franqueados. No final de dezembro já começa a chegar na loja. A coleção vem com muitas estampas, cobra, onça. Os tons vinho, marrom e caramelo que estavam fora das coleções, estão voltando e ficam muito bonitos. Os coturnos chegam com muita força, principalmente para combinar com roupas leves. Os sapatos country também estão bem bacanas. E sem dúvida nenhuma continua muito em alta o tênis, que já está forte nessa coleção.

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