“Comprei minha primeira prancha de surfe em Florianópolis”, lembra Jorge Drexler que fará show em SC

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Jorge Drexler se apresenta em Florianópolis no dia 19 de abril – Foto Jesus Cornejo/Divulgação

Faz três anos que o uruguaio Jorge Drexler veio ao Brasil pela última vez. Em turnê de divulgação do disco Salvavidas de Hielo, lançado em 2017, Drexler está de volta, e com passagem marcada para Santa Catarina. Premiado com um Oscar de Melhor Canção Original, em 2005, o músico chega a Florianópolis no dia 19 de abril, uma quinta-feira, onde tem show no teatro do CIC.

Nesta entrevista para a Versar, Drexler fala um pouco do novo trabalho, que é repleto de experimentações tendo a guitarra como protagonista, complementada pela percussão. Temas recorrentes em sua obra, como migração e identidade, voltam à tona, dividindo espaço no disco com canções que falam de paixões e amores aproximados pelas comunicações e do silêncio cada vez mais raro.

Também lembra dos verões que passou por aqui nos 80, onde comprou sua primeira prancha de surfe. E conta como foi uma noite de samba no Rancho do Neco, no Sambaqui, em 2013, onde embalou clássicos da música brasileira, como Chega de Saudade e Rosa Morena. Para os shows no Brasil, o uruguaio vem com a banda formada por Martin Leiton (baixo elétrico, leona, guitarrón mexicano e coro), Javier Calequi (guitarras, violões e coro), Matias Cella (programações, guitarras, percussão e coro) e Borja Barrueta (bateria, percussão e coro).

Salvavidas de Hielo veio depois de três anos de Bailar en la Cueva. Como foi o preparo deste último disco?

Salvavidas de Hielo é um disco que eu tenho como as antípodas de Bailar em la Cueva, que foi um disco mais expansivo, cheio de percussões novas, de novos instrumentos colombianos, de exploração rítmica muito colorida. E Salvavivas de Hielo é um disco que utiliza só um instrumento. A guitarra é utilizada como um instrumento de percussão, é muito mais minimalista e mais fechado que Bailar en la Cueva. Ele foi gravado em parte em Madri, em parte no México e levou um ano inteiro para compor as canções antes de entrar no estúdio.

Seus discos têm muito da sua biografia. Li que Pongamos Que Hablo de Martinez fala a respeito da sua mudança a Madri. Como é revisitar essas memórias e torná-las públicas por meio da música?

Pongamos Que Hablo de Martinez fala de uma história que aconteceu há muito tempo. Eu conheci o grande compositor espanhol Joaquín Sabina e ele me convidou para vir a Madri com ele. Ele é da Espanha, e começei a minha carreira lá. Foi muito importante pra mim, mudou a minha vida inteira. Eu deveria ter escrito essa canção antes, mas você não escreve quando você quer, você escreve quando você pode. As canções têm o seu próprio tempo. Elas escolhem quando querem sair, e não você.

Outro ponto interessante de Salvavidas são as parcerias. Todas são mulheres. Como você conheceu essas cantoras e qual foi o peso delas para o disco?

As três cantoras que participam do disco são amigas de diferente épocas. A Julieta Venegas conheço há muito tempo, mas a gente nunca tinha colaborado numa gravação. A Natalia Lafourcade já gravei no disco dela sobre o compositor mexicano Agustín Lara, e a Mon Laferte conheci agora, há pouco tempo, mas ela bota um pedaço de uma canção minha dentro de uma canção dela. E agradecido, escrevi a ela e a gente começou a se falar e quando fui ao México convidei ela pra cantar. As três mulheres que entram no disco entram com muita força. Gosto da participação da força feminina no meu mundo, no meu trabalho.

No momento histórico que vivemos, Movimiento nos recorda que somos todos pais, filhos, netos e bisnetos de imigrantes. Vi na internet uma apresentação sua nos EUA em que comentava sobre quão complexo é as pessoas não reconhecerem a migração como parte de sua identidade. Ser um artista latino-americano é uma forma de resistência?

Não gosto do conceito de resistência, resistência é atuar seguindo uma reação a um outro fenômeno. Prefiro ter iniciativa sempre, na cultura, na vida, em geral. Ser proativo, criar coisas, não reagir frente a coisas, eu prefiro sempre trabalhar desde a criação. Sendo latino-americano é muito mais claro você perceber que todo mundo tem origens muito complexas. Para os europeus é mais difícil porque você não encontra tanta gente com quatro avós de lugares diferentes como todo mundo aqui na América Latina. Todo mundo sabe e tem bem claro que a gente é feita de diferentes origens. Acho isso um privilégio muito importante pra mim e para a minha vida. Eu venho de muitos lugares diferentes, pessoal, artisticamente e socialmente.

Ainda falando de Movimiento. Você escolheu a corredora mexicana Lorena Ramírez para o clipe dessa música. Como foi o contato com ela, vocês chegaram a se conhecer? E qual é a representação dela na música?

Infelizmente, não participei da filmagem do videoclipe na Serra de el Cobre, em Chihuahua, território da etnia tarahumara de onde a Lorena Ramírez vem. Os tarahumaras são conhecidos por sua grande capacidade de resistência correndo. São literalmente os melhores corredores do Planeta, eles têm uma resistência incrível. Quando eu estava fazendo o disco no México, li na imprensa que uma ultramaratona de 100 quilômetros tinha sido vencida por uma mulher tarahumara correndo de chinelos, sem equipamento esportivo, com o vestido tradicional das mulheres tarahumaras. Achei isso uma metáfora lindíssima. Logo pensei em ter essa história dos tarahumaras dentro da minha canção Movimiento porque eles fazem o exemplo mais claro de sobrevivência através do movimento que é o que a canção fala.

Em 2013 você lançou um disco por aplicativo no qual o próprio ouvinte poderia fazer sua própria versão das canções. A experimentação está sempre presente em seus discos de alguma forma. Onde você encontra essas ideias? Também como encara a aceitação delas? “N” não ficou muito restrito?

Tenho um grande orgulho do aplicativo “N”. Pra mim, ocupa o mesmo lugar dentro da minha discografia do que qualquer outro disco. Eu considero ele um disco inteiro, apesar de ter somente três canções. O trabalho que eu dediquei ao “N” foi de um ano e meio, como ao que dedico a um disco completo. Eu não tenho formação literária, humanística ou filosófica, sistemática. Sou um autodidata neste mundo. A única formação sistemática que eu tenho é música e uma disciplina derivada da biologia que é a Medicina, então, essa interface entre os dois mundos, entre a ciência e a arte, sempre me tem dado muito para reafirmar a minha identidade. Acho que você tem que utilizar todos os seus mundos no momento de escrever canções e todos os mundos são utilizáveis, importante entender isso. É possível fazer uma canção com uma história clínica médica ou com um teorema matemático é somente encontrar um jeito de fazer de uma forma bela e harmoniosa, e com sentido estético.

O Brasil também é muito citado em suas composições, além das parcerias com músicos como Caetano e Maria Rita. Como começou sua história com o Brasil?

A minha relação com o Brasil vem desde a origem da família da minha mãe. O segundo sobrenome dela é Silveira, eles são gaúchos, parte dos avós dela. Na minha casa, sempre se falou muito de Brasil. Eu aprendi português sem tomar aulas. Cantava canções quando era menino, sempre tive uma relação muito intensa com a cultura brasileira, mas a relação musical concreta que tenho agora começou com o convite do carioca Paulinho Moska. Ele recebeu um disco meu que uma fã deu a ele depois de um concerto e me contatou. Já cheguei no Rio de Janeiro e encontrei toda uma geração de músicos da minha idade para os quais o Paulinho tinha dado uma coletânea de músicas minhas, e foi uma surpresa incrível, na verdade. Eu chegar ao Rio de Janeiro, uma cidade que eu admiro culturalmente e tinha uma turma de músicas que já admirava e que já conheciam as minhas músicas. Daí pra frente tudo foi progredindo até que eu já realizei o sonho de ter o Caetano Veloso no meu disco, de dividir o palco com Milton Nascimento, de ter músicas minhas gravadas por artistas brasileiros, de ter parcerias com Marisa Monte, Carlinhos Brown, Celso Fonseca, Maria Rita, o Ney Matogrosso tem gravadas duas músicas minhas, imagina só! Para um garoto uruguaio que sempre olhou para a música brasileira pode realizar esses sonhos.

Na última vez que esteve em Florianópolis, você foi ao Rancho do Neco, tradicional reduto de samba aqui na Ilha. Como foi essa experiência? Pretende ir lá novamente agora?

Esse domingo que a gente passou no Rancho do Neco foi uma das experiências mais lindas que eu tive na minha vida, musicais e sociais. Foi realmente uma maravilha. A gente viveu lá dançando e cantando com uma alegria tão grande, tão difícil de atingir em outros momentos. Eu tenho uma lembrança docíssima dessa noite no Rancho do Neco. Eu adoraria voltar mais. A gente estará quinta-feira (dia 19) em Florianópolis , depois vai embora. O Rancho do Neco é no domingo, não? Quinta-feira ainda tem a barraca de venda de peixe, não tem o lugar para dançar na quinta no Rancho do Neco (risos). Talvez numa próxima oportunidade.

E qual sua praia preferida aqui em Florianópolis? Acha que terá tempo para surfar?

Eu tenho umas lembranças de Florianópolis dos anos 80 quando eu ia no verão, muito jovem ainda. Lembro perfeitamente da Praia da Joaquina onde a gente ia surfar, depois de Jurerê e Canasvieiras, que eu ficava num camping que ficava bem perto da água. Isso era pra mim o paraíso. Tenho muitas histórias lindas e momentos importantes que aconteceram nestes verões em Florianópolis. Sempre que volto é uma reconexão com uma coisa que eu quero muito. Eu comprei minha primeira prancha de surfe em Florianópolis, a primeira “séria” que tive. No Uruguai, tinha umas coisas que quase eram pranchas, mas não chegavam a ser (risos). Comprei a primeira de uma estudante de Medicina, me lembro, no ano 83. Janeiro de 83, em Florianópolis. E essa foi a minha prancha por muito tempo. Viajou comigo para o Uruguai e ficou comigo por muito tempo.

Jorge Drexler – Foto Foto Jesus Cornejo/Divulgação

Serviço

O quê: Show Salvavidas de Hielo com Jorge Drexler

Quando: Quinta-feira, dia 19 de abril, às 21h

Onde: Teatro Ademir Rosa – CIC (Av. Gov. Irineu Bornhausen, 5600 – Agronômica)

Quanto: de R$ 95 e R$ 190 ( meia-entrada válida para doadores de sangue devidamente comprovados, estudantes, idosos, PNE, portador de câncer e professor. Vendas no site www.diskingressos.com.br/evento/7266

Classificação etária: 14 anos