“Vai ter gente olhando pelo seu viés”, diz José Padilha sobre a série ‘O Mecanismo’, da Netflix, que aborda a Lava Jato

Padilha
Foto: Alexandre Loureiro / Netflix

No ano em que teremos a primeira eleição federal após o avanço da Lava Jato, o  diretor José Padilha, de Ônibus 174 e Tropa de Elite 1 e 2, lança a sua primeira série brasileira na Netflix e traz a operação como tema principal (ele também já dirigiu a série Narcos na mesma plataforma). A série O Mecanismo, que será distribuída pela plataforma de streaming para 190 países a partir do dia 23 de março, mostra de forma ficcional os desdobramentos daquela que é considerada a maior investigação política do País.

Colocar a corrupção sob holofote em um ano eleitoral e por em xeque todo o sistema político brasileiro é tarefa para ‘corajosos’ como Padilha. Quem o classifica assim é o protagonista da série, o ator Selton Mello, que interpreta um delegado afastado da Polícia Federal, Marco Ruffo. O personagem mergulha em uma investigação para colocar na cadeia o amigo de infância e doleiro Roberto Ibrahim, vivido por Enrique Dias.

– Essa ideia de justiceiro irá o aproximar muito do público. Acho que o cidadão comum vai se identificar muito com ele porque que é um personagem muito próximo do que a gente sente. Tem a indignação com tudo o que acontece… Da maneira dele, ele tenta lutar ‘quixotescamente’ contra esse mecanismo, como Davi e Golias – pontuou Mello durante o lançamento do projeto no Rio de Janeiro.

Elenco e equipe de O Mecanismo em Prèmiere no Rio de Janeiro / Foto: Raphaela Dias e Bruna Prado/Netflix

Além de Selton, a série terá no elenco Carolina Abras, Otto Jr. Jonathan Haagensen, Susana Ribeiro, Lee Taylor, Vaneza Oliveira, Bianca Comparato e outros atores.

O Mecanismo foi baseado na pesquisa do jornalista Vladimir Netto, que lançou em 2016 o livro Lava Jato – o Juiz Sergio Moro e Os Bastidores da Operação Que Abalou o Brasil. Roteirista da série, Elena Soarez explica que mesmo baseada em fatos reais, a série é ficcional. E que para levar os fatos à dramaturgia precisou fazer um deslocamento da realidade, muito embora alguns personagens apresentados na série serão facilmente identificados com os da vida real.

– A dramaturgia dá uma arrumada na realidade para aquilo fazer sentido. Eu não consigo colocar a quantidade de partidos que existem no Brasil. Sem nem a gente entende, como eu vou colocar isso para os gringos?  Então, precisei desenhar essa realidade de uma maneira mais simplificada e atrativa – afirmou Elena.

Os nomes dos personagens reais foram modificados na trama, mas os partidos políticos são citados. No entanto, Padilha destaca que a obra é totalmente apartidária e não teme que ela seja apropriada para um dos lados, tampouco que, de alguma forma, interfira no processo eleitoral de 2018.

– Existe a patrulha ideológica e vai ter gente olhando pelo seu viés de crença, mas eu acredito que a longo prazo o Brasil vai se livrar da intensidade das armadas ideológicas que impedem as pessoas de verem as coisas com clarezas – acrescenta Padilha.

Produção da série

Produzida em oito meses, a série foi gravada no Rio de janeiro, em São Paulo, Curitiba e Brasília. A equipe de Padilha foi a mesma que já o acompanhou em outros trabalhos como Robocop, de 2014. Sobre a parceria com Selton Mello, Padilha se diz muito feliz.

– O Selton pensa como diretor, fez grandes filmes, foi uma parceria muito boa. Eu tenho muita sorte de trabalhar com essas pessoas. Wagner Moura (Tropa de Elite), Selton Mello, Enrique Dias todos pensam como diretor.

Momento de luto

Jonathan Haagensen fala sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio / Foto: Alexandre Loureiro / Netflix

Enquanto acontecia a première de O Mecanismo, na quarta-feira, no Rio, chegou a notícia de que a vereadora carioca Marielle Franco fora brutalmente assassinada quando voltava de um evento com ativistas negras no Centro da cidade. O assunto não ficou de fora da coletiva de imprensa realizada na manhã seguinte ao lançamento da série. O ator Jonathan Haagensen, morador da favela carioca do Vidigal, comentou a barbárie.

– Ela, Marielle, representa, na verdade, o que acontece todos os dias nas comunidades. A gente não fica sabendo porque as vítimas não têm a voz e a visibilidade que ela [Marielle] tem. É uma violência silenciosa que acontece todos os dias – ressaltou.

*A repórter viajou a convite da Netflix

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