Kaftan: peças viram itens super fashion

Vestido feito artesanalmente em voil de algodão com delicados fios de lurex. A estampa é feita com a técnica milenar do block printing, que utiliza carimbos de madeira. A carteira é feita em palha de palmeira por artesãos marroquinos. Foto: Dari Luz/Especial

Você acha que não pode usar um kaftan em locais mais formais? Depois de ler a minha coluna deste fim de semana você mudará, definitivamente, de ideia. Não sei se já ouviu falar da ex-editora da Vogue britânica, Pippa Holt. Vou começar contando como ela me convenceu que estas peças, até então desfiladas nas praias e no máximo em barzinhos, viraram itens super fashion e foram parar nos principais cenários e passarelas de moda.

A ex-editora da Vogue

Pippa vende seus kaftans num dos endereços que mais amo no mundo, a Bergdorf Goodman da Quinta Avenida, em Nova Iorque. Lá ela tem uma pop-up, vende também no site Netaporter, mas sua maior vitrine é o seu insta, o @pippa_holt_kaftans.

Há algum tempo se encantou com algumas peças que garimpou num pequeno grupo de tecelões do sul do México. Quando voltou para a Europa, começou a usar as roupas no dia a dia e as pessoas perguntavam sobre os looks. Alguns anos, e bebês, mais tarde, percebeu que as mulheres ainda procuravam esse tipo de vestido fácil e fluído. Foi então que fez uma parceria com os mesmos artesãos mexicanos para realizar uma collab oficial. Em Dublin, na Irlanda, onde mora atualmente, também mantém algumas mulheres que tecem manualmente os tecidos de algodão nos teares de apoio, usando os padrões e técnicas indígenas. Seus kaftans apresentam uma tradicional silhueta reta de manga e três comprimentos: midi, mini e um novo supermini com paletas de cores, formas e acabamentos de alta qualidade. Tudo é feito à mão e pode levar até seis meses para ser finalizado; esse processo lento os torna muito difíceis de conseguir e esta sensação de raridade faz com que sejam vendidos muito rápido. Vale a pena esperar e pagar pelo investimento de peças únicas e e que podem se tornar heranças colecionáveis.

Sustentáveis

Os kaftans são feitos de algodão natural e corantes. Alguns artesãos pelo mundo conseguem confeccionar tecidos, inclusive, a partir de insetos cochonilhados e amassados. Geralmente são peças realizadas em aldeias indígenas ou zonas rurais que fornecem trabalho estável para muitas mulheres. A matéria-prima final se transforma, conforme o olhar, em objetos de desejo, modernos, chiques e perfeitamente adequados para o o uso diário na cidade. Em outras palavras, você não precisa estar de férias ou numa praia para adotar o mood, a combinação costuma funcionar com quase todos os acessórios, desde sandálias a saltos, bijus ou joias. Dá para usar o seu kaftan com um cinto de peso, mocassins, tênis e alguns braceletes. Eu já adotei o estilo e estou amando!

Tenho visto uma multidão de influenciadores de estilo usando. Miroslava Duma, Poppy Delevingne e Yasmin Sewell – fizeram muito para popularizar o kaftan, anunciando-o como um item indispensável que tem o poder de levar você no verão ao outono ou inverno.

Esse vestido com tingimento manual chamado Shibori é feito em seda pura mulberry, uma das mais leves e delicadas que existe. A pashmina é feita em tear por artesãos do Vale da Caxemira, no norte da India. O chapéu por toquilleras do Equador. Brincos de ráfia. Foto: Dari Luz/Especial

Versão catarinense

A casa Ethne, onde fiz as fotos da coluna desta semana, trata-se de um local que proporciona um modelo de compras diferente, um cross cultural, com uma história de shopping, porém sempre oferecendo uma experiência a ser vivida. Quem me apresentou a ideia foi a idealizadora e curadora do local, a jornalista e designer Samira Campos. O espaço foi inaugurado recentemente, em Santo Antônio de Lisboa, em Floripa, fortalecendo a nova vibe difundida pelo mundo, de se comprar roupas com conteúdo, através de muitas histórias paralelas de vidas, de lugares e de artesãos . Uma proposta de uma moda com mais tempo de confecção, mais aprofundamento, uma roupa com compromisso de valorizar o trabalho manual, o trabalho ancestral de tecelagem, tingimento, voltando às origens.

Samira me contou também o quanto valoriza as palhas naturais, buscadas em tribos indígenas, ou os trecês, couro e ráfias feitas pelos artesãos marroquinos e transformados em peças exclusivas, com pitadas de contemporaneidade dadas por ela. Ainda este ano lançará uma linha de joias, em parceria com a tribo Pataxó do sul da Bahia. Serão usadas plumas, penas cerificadas pelo Ibama e pedras preciosas.

A casa funciona com agendamento e está aberta das 14h às 19 h, inclusive aos sábados. Já está sendo criada também uma agenda cultural ligada à moda, com oficinas de macramê,  bordados e pinturas.

Outra paixão fashionista

Vestido Leheryia, mesmo nome de outra técnica de tingimento artesanal muito praticado no deserto do Rajastão, na India. A bolsa de palha é uma criação da Ethne com artesãs de Marrakech no Marrocos. O cinto de macramê colocado como turbante é feito no Marrocos com Sabre. Os brincos são confeccionados por indígenas de Cuenca, no Equador numa collab com a designer de acessórios Dani Depi, de Floripa. Foto: Dari Luz/Especial

As bolsas de palha e ráfia que estamos vendo por aí carregadas por celebridades e fashionistas, já não são mais aquelas que você, antigamente, jogava o protetor solar e acessórios para ir à praia, mas bolsas chiques, elaboradas e grifadas. Circulam por lugares badalados e adornam mulheres de extremo bom gosto e visão na moda. Tenho batido nesta mesma tecla aqui faz horas, pois estou realmente apaixonada por tudo isso. O apetite de compra em torno destes shapes chegou ao ápice: de acordo com o Lyst, um instrumento de busca global de moda, as buscas incluindo os termos “palha”, “ráfia” e “vime” aumentaram 56% em relação ao ano anterior. No Pinterest, houve 573% mais consultas em relação ao último ano.

Como tudo começou

A arte de tecer sacolas de materiais naturais, grama seca ou bambu, tem milênios com técnicas de cestaria que remontam ao Egito antigo. Foi na década de 1950, que a sacola de palha passou a ser vista como um item elegante associado a viagens de luxo, vendidas em destinos de férias como uma lembrança chique. Mas o momento icônico do vime surgiu no final dos anos 1960 e 1970, quando a atriz e cantora Jane Birkin, mais tarde associada à Hermès Birkin, fez da cesta de piquenique seu acessório exclusivo quando estava em Paris, Cannes e Londres. Já a chiquérrima Audrey Hepburn, que viveu na Holanda e na Bélgica quando criança, muitas vezes carregava uma cesta de palha entre um passeio e outro. O que elas não imaginavam é que estavam plantando a semente por um milhão  de posts e hastags do Instagram.

Kaftan feito em seda pura artesanal com estampa também artesanal em silk screen. Colar de contar e pompons feito à mão por uma cooperativa de mulheres bordadeiras da India. Foto: Dari Luz/Especial

Viagem étnica da Dior

O desfile da coleção Resort 2020 da Dior, ocorreu no final de abril, em um dos locais mais deslumbrantes do mundo: Marrakech, no Palácio El Badi, um lugar histórico que remonta ao século 16. Maria Grazia foi ao norte da África para mostrar uma coleção sobre luxo, globalismo e cultura. Os tecidos predominantes foram totalmente projetados e produzidos com estampas inspiradas na cidade de Abidjan, na Costa do Marfim, por um estúdio/ateliê chamado Uniwax, que produz autênticas estampas africanas em algodão. Os resultados finais envolveram leões maciços, criaturas mitológicas aladas, aves e palavras associados ao tarô. A cidade marroquina não só serviu de anfitriã, mas seus artistas e cultura ajudaram a inspirar e criar a coleção. O tema buscou alcançar, através de uma série de collabs com vários artistas africanos, um novo ponto de vista da francesa Dior. Numa época em que a indústria da moda está sendo cada vez mais acusada de apropriação cultural, Maria Grazia Chiuri realizou um movimento, arriscado, de valorização e não apropriação.

Luxo ao mais alto nível

Para a Dior patrocinar estampas deste tipo é fazer uma declaração global de que o têxtil africano pode incorporar luxo ao mais alto nível. Uniwax foi apenas uma das cinco colaborações significativas desta coleção. Uma associação entre têxteis e cerâmica de mulheres marroquinas, chamada Sumano, criou as peças tecidas mais parecidas com a tapeçaria da coleção. A artista americana Mickalene Thomas e a designer jamaicana-britânica Grace Wales Bonner forneceram suas próprias interpretações do estilo. Um designer da Costa do Marfim chamado Monsieur Pathé’O, conhecido por fazer as camisas de Nelson Mandela, desenhou o rosto do falecido líder do ANC nas costas de um look. E Stephen Jones colaborou com uma chapeleira Gana-Britânica chamada Martine Henry para a realização de turbantes de origem étnica.

Foto: Dari Luz/Especial

Participaram deste editorial:
Produção executiva, produção, styling, pesquisa de moda: Lise
Crippa
Modelo: Ana Paula Roman/DN Models
Fotos e tratamento de fotos: Dari Luz
Produção de cena: Larissa Maldaner
Beleza: Larissa Maldaner
Agradecimentos: Samira Campos e Ethne

 

 

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