Lá e de volta outra vez: Frodo sofria mesmo é de depressão pós-viagem

Quem já fez uma viagem inesquecível não duvida

Frodo
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“Como se retoma o curso de uma antiga vida?”, pergunta Frodo no finalzinho do livro O Senhor dos Anéis. “Como se segue em frente, quando, no íntimo, começa-se a entender que não há volta?” Eu sei que Frodo estava falando de toda a jornada épica pela qual ele e os outros integrantes da então Sociedade do Anel passaram antes, durante e depois da guerra que, bem, meio que salvou o mundo. Mas, para mim, essa frase podia muito bem se aplicar simplesmente ao lá e de volta outra vez de que já falava seu tio Bilbo: Frodo viveu no pequeno Condado a vida inteira, e, em um intervalo relativamente curto de tempo, atravessou a Terra Média, conheceu culturas e lugares diferentes, viveu experiências únicas. E então voltou ao Condado, para tentar retomar sua vida de sempre — o que foi difícil a ponto de fazê-lo escrever a frase ali da abertura do texto. Eu sei, eu sei — ele estava falando da jornada épica e tudo mais. Mas, em uma leitura alternativa, eu tenho outra teoria sobre o que podia estar afligindo Frodo: depressão pós-viagem. Isso mesmo.

Vá lá, eu admito que estou exagerando um pouco, para dar a dimensão da coisa. Mas quem já fez uma viagem inesquecível não duvida. E não importa a duração da viagem — às vezes, não importa nem mesmo a distância entre sua casa e o destino: algumas simplesmente marcam. Você gosta da sua casa. Gosta da sua cidade. Gosta da vida que tem. Mas aí faz aquela viagem – seis meses de intercâmbio, um mês de férias da empresa, às vezes simplesmente uma promoção imperdível de passagens aéreas em um feriado prolongado. E, de repente, tudo muda. Seus familiares e amigos ligam, mandam mensagem, dizem que estão com saudades — e você percebe que, sendo sincero, sendo bem, bem sincero, não está assim morrendo de saudades, não. Não é falta de amor (desculpa, mãe!): é que você está ocupado demais conhecendo, aprendendo, absorvendo, se surpreendendo, para sentir saudades. No retorno, você pode e certamente vai ficar feliz por rever todo mundo, contar as novidades, entregar os presentes (falei que não era falta de amor, viu?); até mesmo por usar seu chuveiro, por dormir na sua cama, com o seu travesseiro. Mas não vai durar. Ah, não vai mesmo. Espera a depressão pós-viagem bater, amigo. Porque ela vai.

“A melhor parte de viajar é voltar para casa”, eu li um dia desses no Twitter. Opiniões à parte, é claro — mas eu discordo com todas as forças. A melhor parte é ir! Talvez planejar – criar todos aqueles sonhos que você vai ver realizados depois. Voltar para casa é a treva. O fundo do poço. Eu não sou assim tão viajada em quilômetros, mas qualquer viagem para uma rotina diferente da minha já deixa saudades. Você passa sete, dez, quinze, trinta dias acordando sem saber muito bem o que vai ser daquele dia, mas com a quase certeza de que será incrível, cheio de coisas, cores, sabores e sons novos — e de repente acorda em casa, e sua maior perspectiva de diversão para o dia é a Netflix.

Como eu disse: trevas.

Como se retoma o curso de uma antiga vida? Como acordar cedo no dia seguinte para pegar ônibus, ir trabalhar, passar umas boas oito horas sentada na frente do computador, depois ir para a academia, e aí voltar, e dormir, e provavelmente fazer algo muito parecido no dia seguinte? Eu não tenho uma vida ruim – muito pelo contrário: sou feliz na maior parte dela, faço o que gosto, adoro de verdade meus colegas, meus amigos, minha família, meu namorado – até da academia eu gosto, para ser sincera. Mas… Como? Como, Frodo?

Eu acho que o que acontece é que, essencialmente, uma viagem muda algo dentro da gente. E eu não estou falando só de viagens do tipo “fui para a Espanha percorrer o Caminho de Santiago” ou “fui praticar meditação em um ashram na Índia”. Algo pode, sim, mudar dentro de você no meio das voltas de uma montanha-russa em Orlando – ou durante aquele mergulho em Cancún, ou naquela balada em Amsterdã, ou até mesmo durante aquela tarde de compras na 25 de Março, em São Paulo. O sair da rotina nos desperta para coisas em que nunca havíamos pensado antes. E, mesmo que só alguns centímetros, ajuda a arrancar nossas raízes do chão – preparando-nos, quem sabe, para voos maiores e mais longos no futuro.

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