Levante e vá

Foto: Divulgação

Estava em minhas mãos o convite para assistir à palestra de um pensador contemporâneo que tem feito diferença com suas ideias e experiências. Deu vontade de ir. Mas em rápidos segundos conjecturei: está previsto chuva, o local não tem estacionamento, se eu for de Uber vai ter um montão de gente se amontoando para chamar o seu no final, e ainda por cima eu posso ver esse cara dando entrevistas pela web, ler tudo o que ele pensa em sites e livros. Me abalar até lá pra quê?

Aí lembrei de uma conversa que tive certa vez com um chatonildo que dizia que nunca ia a shows porque considerava um crime o preço dos ingressos e que podia tranquilamente escutar música em casa, a todo volume, sem esperar em fila, sem passar por revista na entrada, sem ninguém pisando no seu pé ou tapando sua visão. Não me conformo até hoje com essa escolha asséptica de viver regido pelo conforto, abrindo mão de estar no meio da muvuca.

Poucas coisas merecem ser adjetivadas como vibrantes. Shows são muito vibrantes. A energia já se espalha pelos arredores, começa a ser sentida durante a aproximação coletiva daquela multidão que se dirige para o mesmo lugar e com o mesmo propósito, como se estivesse peregrinando até uma igreja. Você já esteve num estádio de futebol? Numa passeata? Mesma coisa. É emocionante deixar de ser uma unidade para virar torcida, plateia, massa – fazer parte de algo maior que o nosso eu.

Dentro de um estádio ou de um auditório lotado, ninguém pensa no que está acontecendo do lado de fora. Pode o mundo acabar que não importa. Fomos capturados pela magia estupenda de uma apresentação ao vivo, pelas vozes, suores, entrega de quem está no palco. É uma consagração, e o sagrado está sendo dedicado ao público, a divindade presente.

Então que tal se desacomodar um pouco? Vamos sair de grupos de Whatsapp e fazer mais festas. Trocar um chat por uma conversa num bar. Não apenas curtir postagens de fotos, mas estar lá, ver com os próprios olhos. Dá trabalho, custa uns trocados e vencer a preguiça é uma guerra, mas você é um ser humano ou um rato?

Acabei indo à palestra. Não só pelo convidado grandioso, mas para somar meu aplauso ao dos outros, para trocar comentários com quem estava ao meu lado, sentir a pulsão do momento e principalmente para não me habituar a ver o mundo só pela tela do computador. É por isso que vou tanto ao teatro também, uma arte que não se realiza sem presença. É um privilégio ter uma conexão real e imediata, ser arrebatada por uma paixão momentânea, que ao final evaporará sem deixar registro, a não ser na minha alma.

Sugestão de prioridade: continuarmos sendo testemunhas oculares da própria vida.

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