Loco por Vino: casal viaja o mundo em busca dos melhores vinhos do planeta

Fotos: Loco por Vino, Arquivo Pessoal

Terça-feira de uma semana qualquer de janeiro, 14h. Para ter sucesso na vida, o que se espera de um adulto de 30 e poucos anos é que a essa hora de um dia de semana esteja batalhando por um melhor cargo na carreira e um salário mais alto. Para isso, claro, indica-se que comece a jornada de trabalho bem cedo num ambiente cuja paisagem corresponde a um mar de computadores e o clima é gelado por ar condicionado. Esse quadro pode ser o que a sociedade espera, mas não era exatamente o que André Baader, 38 anos, e Karla Baader, 32, esperavam deles próprios. Se para alguns o sucesso é sinônimo de casa, carro, TV de tela plana e alguns outros luxos que o dinheiro pode comprar, para outros ser bem-sucedido quer dizer passar a tarde passeando, experimentando vinhos e comendo boa comida. E sem gastar muito por isso.

É o caso dos nossos entrevistados: cansados de trabalhar e não ter tempo para curtir o que o suor de todo dia rendia, eles venderam tudo para viajar pelo mundo. Simples assim. O que eles têm hoje é um par de mochilas, nenhum IPTU ou conta de luz para pagar e algumas boas histórias para contar dos mais de 70 países que já visitaram.

O casal formado por um manezinho da Ilha e uma guatemalteca é desses que foi contagiado pela síndrome de Wanderlust, termo em alemão que descreve o desejo incontrolável de viajar e vivenciar o desconhecido. Depois de largar carreiras promissoras como chefs de cozinha nos Estados Unidos, André e Karla hoje viajam o planeta em busca dos melhores vinhos. Eles assinam o Loco Por Vino, blog de viagens especializado em desmitificar a bebida produzida há milhares de anos. A proposta é mostrar que não é preciso ser um conhecedor esnobe para degustar uma boa taça do vinho. E nem é preciso pagar muito caro por isso.

Quando conversaram com a reportagem da Versar (uma terça-feira qualquer), eles experimentavam a comida crioula, típica do interior da Argentina, numa bodega rústica em Mendoza, a 1.195 quilômetros de Buenos Aires, e degustavam tipos diferentes de vinho.

De lá, por telefone, contaram da próxima aventura (cruzeiro até Miami, partindo do Chile) e adiantaram um pouco do que irão compartilhar a partir da próxima semana na Revista Versar. Durante três meses, a dupla de mochileiros, chefs e sommeliers darão dicas semanais em nosso site sobre os melhores destinos para as férias e com sugestões, claro, de vinhos e boa gastronomia. Sem expressões complicadas ou glamour excessivo.

Da rotina em banco ao sonho americano

André Baader tinha uma rotina convencional como bancário, com horários e metas a bater. Mas o que ele gostava mesmo, era de cozinhar para os amigos. Até que alguém um dia fez a pergunta mágica:

– Eu trabalhava no Banco Real, no Centro de Florianópolis, fazia faculdade de Contabilidade e aos 20 e poucos anos já sofria o estresse do mundo financeiro. Adorava cozinhar, era o mestre cuca das festas. Até que um dia uma amiga me falou: “por que você não faz faculdade de Gastronomia? ” Deu um click, larguei Contábeis, comecei a estudar Gastronomia e, depois de quatro anos, estava nos Estados Unidos trabalhando como chef. Esse foi o primeiro capítulo de uma série de decisões radicais – conta.

Há exatos 10 anos, André foi para Orlando para estudar mais sobre culinária e trabalhar. Lá passou por outro ponto de virada. Conheceu Karla, também chef de cozinha. Nascida na Guatemala, mudou-se com a família para a Flórida aos 18 anos. Eles se casaram em 2009 e, em vez de festa, celebraram com um mochilão pela Europa.

– Nos conhecemos trabalhando na cozinha de um hotel na Disney. Casamos, e em vez de gastarmos com festão, fomos sozinhos ao cartório e de lá direto para uma lua de mel. Combinamos de viajar e voltar apenas quando o dinheiro acabasse – lembra ele.

Dezenove países depois e menos de mil dólares na conta, eles voltaram à Orlando. Nos dois anos seguintes trabalharam duro como chefs, abdicaram do tempo livre e conquistaram casa própria com dois andares e carro conversível. Atuaram como cozinheiros em cruzeiros pelo Havaí e como chefs em resort no remoto Alasca, frequentado por estrelas como Oprah Winfrey, Harrison Ford, Will Smith. Com tantos pequenos e grandes luxos, tinha um que eles ainda não tinham conseguido conquistar: tempo.

O ponto de virada: desapego

Para quem sonha viver o american way of life, é bom saber que nos Estados Unidos o poder aquisitivo é maior e é mais fácil adquirir bens, sim. Férias? Apenas 15 dias por ano.

– Para algumas pessoas, o que tínhamos era o sonho de uma vida: adquirir estabilidade material, ter casa, carro e morar nos EUA. Mas para nós não… Pensávamos que tínhamos tudo o que qualquer pessoa gostaria de ter. Mas vivíamos em função dos fins de semana e a verdade é que nunca fomos muito consumistas – diz André.

A vida “normal”, de trabalhar de segunda a sexta, decorar a casa e curtir um pouquinho nas férias não seduziu o casal. E aí foi o ponto de virada, a coragem de vender tudo. Tudo mesmo. Sobraram apenas as mochilas.

– Eu trabalhei em banco por muito tempo e aprendi a atuar com investimentos. Eu garanto a você: se uma pessoa de 40 anos vender todo o patrimônio que acumulou e aplicar, consegue um bom rendimento por mês – aconselha o viajante.

O dinheiro da venda dos bens foi investido em aplicações e hoje o casal vive dos lucros. E claro, muito planejamento. De tempos em tempos, eles visitam familiares nos Estados Unidos e em Florianópolis – ah, sim! Junto com o desapego vem o fato de ficar longe da família e optar por não ter filhos. O lado bom , segundo eles, pode ser enumerado numa lista: conhecer culturas diferentes, não ter chefe, não ter contas e quase nunca assistir à televisão, pois a vida real é mais interessante.

Paixão pelos vinhos virou renda

Além da paixão pela gastronomia, o casal sempre compartilhou a curiosidade pela bebida de Baco. Investiram em cursos e pesquisas acerca da bebida até se tornarem sommeliers certificados. Foi como juntar a fome com a vontade de comer. Criaram o blog “Loco Por Vino” com a proposta bem simples: viajar e contar sobre as delícias dos vinhos mundo afora.

O começo demandou bastante planejamento, até mesmo para que o Loco Por Vino começasse a ser conhecido pelas principais vinícolas do mundo. Bordeaux, na França, berço de alguns dos mais famosos vinhedos do planeta, foi o primeiro destino.

– Nos apresentamos como chefs sommeliers e mostramos nosso projeto aos proprietários. Escrevemos em português e espanhol e isso abre muitas portas. Hoje somos convidados pelas principais vinícolas – celebra André.

Hoje o projeto conta com importantes patrocinadores, eles são recebidos de portas abertas nos gigantes mundiais dos vinhos, trabalham como voluntários em vinícolas ao redor do planeta e levam o místico mundo da bebida a todas as pessoas comuns.

O planejamento de viagens é anual. A programação do casal está feita até 2019. O roteiro dos próximos meses inclui um cruzeiro do Chile para Miami, três meses em Punta Cana, depois Canadá e, de lá, seguem para o Japão. A ideia é conhecer todos os países da Ásia localizados entre a Índia e o Japão.

Vinho bom não precisa ser vinho caro

Além de degustarem, André e Karla também trabalham. Já atuaram como voluntários em vinhedos na Itália, na Alemanha e na Turquia e aprenderam segredos com enólogos, no campo, fazendo colheita…

– Todos os enólogos concordam: não existe vinho mais caro que R$ 150. Mais que isso é apenas marca. Queremos mostrar vinhos que não sejam tão caros e que as pessoas não tenham medo de tomar.

Vinho tem que ser o que você gosta, não importa o preço

  • Para quem não conhece vinhos, tomar uma garrafa que custe mais
    de R$ 50 é jogar dinheiro fora.
  • Antigamente, vinho barato era sinônimo de má qualidade. Hoje, com a tecnologia existente, vinhos de até R$ 30 são muito bons.
  • A chance de ninguém saber a diferença entre um vinho de R$ 30
    e um de R$ 200 é muito grande.
Características da uva estão ligadas ao solo
  • As características do vinho estão ligadas ao clima e ao solo. Existe uma faixa horizontal no planeta onde os vinhos são cultivados. Se prestar atenção, França, Itália e Portugal, por exemplo, estão dentro de uma latitude. Próximo à linha do Equador não tem. E depois tem outra faixa horizontal mais ao Sul, onde está o Sul do Brasil, Argentina, Austrália e outros.
  • A característica da uva também influencia no sabor. Mas o solo e o clima muito mais. Um vinho da Nova Zelândia e da França, mesmo sendo feito com o mesmo tipo de uva, são completamente diferentes, muito em razão do clima. É por isso que pessoas viajam o mundo inteiro em busca de vinho.
  • Vinhos da Macedônia e Kosovo são ótimos e pouco conhecidos.
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