A próxima quinta-feira, 28 de junho, é o Dia do Orgulho LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersex). Para marcar a data, a entrevistada deste final de semana é a youtuber e mestranda em literatura Louie Ponto. Com mais de 413 mil inscritos em seu canal, a catarinense ficou reconhecida por falar, de uma forma clara e inteligente, sobre assuntos relacionados a feminismo, gênero e sexualidade desde quando esse tipo de conteúdo era raro nas redes sociais. Leia mais a seguir e confira o papo completo em vídeo:

Você está no Youtube há quase 10 anos, começou com vídeos em que cantava e tocava instrumentos e depois passou a abordar questões de gênero. Como você viu que tinha que focar nesses temas?

Quando comecei, em 2008, o Youtube e a internet não eram o que é hoje. Não tinha a ideia de que era possível viver trabalhando com isso. Eu postava vídeos de música, porque sou muito tímida e era uma forma de me expressar. As pessoas começaram a fazer comentários, alguns negativos, expressando preconceito, mas também tinha comentários de gente curiosa que queria se sentir representada e me perguntava sobre minha orientação sexual, minhas roupas. Na época eu ainda não me aceitava muito bem e via que as pessoas também tinham essas dificuldades. Vi que precisava falar sobre isso porque eu senti muita falta de representatividade na minha adolescência.

Tanto o público conservador quanto o LGBTI vem se manifestando e se mostrando mais. Você acha que as coisas mudaram ou apenas vêm sendo mais expostas nas redes sociais?

É complicado. Tenho certeza que as coisas mudaram, consigo perceber isso, se converso com mulheres mais velhas elas me dizem que as coisas estão melhores. Mas ainda são complicadas. Acho que uma onda conservadora sempre esteve presente, mas agora as pessoas se sentem respaldadas. Não só pela internet, mas porque tem figuras que legitimam esses discursos. A internet dá voz a todo mundo. Não que ela seja democrática, porque é muito mais fácil você seguir um padrão, estar dentro de uma norma estabelecida e produzir conteúdo na Internet do que se fugir dessa norma. Mas hoje você tem voz para falar sobre isso. Quando eu tinha 15 anos, não tinha Youtube da forma como tem hoje. Eu nunca vi uma mulher lésbica falando da sua vivência, nunca. Fui ouvir uma mulher falar sobre isso quando eu já era adulta. É triste isso.

Assista ao vídeo:

Você acha que famosas se assumindo e falando sobre ajuda? Como Daniela Mercury, Fernanda Gentil e, mais recente, a Nanda Costa.

Com certeza. Eu sempre penso no meu passado. Não tinha referências, eu não sabia, porque eu nunca tinha visto. Quando vejo essas mulheres que têm espaço na mídia falando sobre isso, mostrando que é possível ser feliz e que está tudo bem, eu acho isso muito forte.

Por que ainda é tão difícil para muitas pessoas aceitarem e respeitarem mulheres que não correspondem aos padrões da feminilidade?

É difícil você ser mulher lésbica, e é difícil ser uma mulher que não corresponde aos padrões de feminilidade. É complicado falar os motivos porque é histórico. A nossa opressão é muito antiga. São vários discursos que vieram ao longo dos séculos, discursos médicos, científicos, religiosos, que construíram essa ideia do que significa ser mulher e qual o nosso papel na sociedade. Então quando a gente desestabiliza essas normas, seja por conta de não corresponder aos padrões de feminilidade ou de sexualidade, a gente vai sofrer violências e ser ainda mais apagada. Porque mulheres são apagadas, mas as que fogem da norma são ainda mais. Então toda forma de resistência, de falar sobre isso, é importante. Tem a ver também com a questão do fetiche. Duas mulheres juntas até podem servir para a estrutura social dominada pelo masculino se elas corresponderem a um padrão, porque aí vai ser um produto de fetiche. É só ver o pornô, por exemplo.

Foto: Cristiano Estrela

Como você se prepara para os vídeos?

Sempre que vou falar sobre um assunto, passo pela minha subjetividade e pela minha experiência. É muito pessoal. Só que eu sei que não vou representar todas as mulheres lésbicas porque eu tenho a minha vivência, e existem milhões de outras. Tenho esse cuidado na hora de preparar conteúdo. Demanda muito tempo, eu faço pesquisa, converso com pessoas. Mas acredito que uma das minhas intenções do canal era não só levar a minha experiência – o que eu acho muito importante, porque só o fato de a gente existir e falar que isso existe já é uma questão política -, mas queria levar também um pouco de conhecimento acadêmico. Me formei em letras, faço mestrado em crítica feminista, e queria levar um pouco disso para a internet porque eu tive o privilégio de ter contato com esse conteúdo e foi muito importante para mim. Foi a partir desse momento que eu comecei a realmente me aceitar.

Agradecimento: Croasonho 

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