Lugar de fala: saiba o que significa e qual é a importância do conceito

Kéfera debateu com um participante do programa Encontro, apresentado por Fátima Bernardes, e trouxe à tona algumas expressões do feminismo e de outros movimentos sociais, como "lugar de fala"

kefera
Kéfera no Encontro (Foto: TV Globo/Reprodução)

O termo “lugar de fala” ganhou as redes sociais nos últimos dias, principalmente depois da polêmica envolvendo a atriz Kéfera e o youtuber Luba no twitter. Tudo começou quando Kéfera debateu com um participante do programa Encontro, apresentado por Fátima Bernardes, e trouxe à tona algumas expressões do feminismo e de outros movimentos sociais, como “lugar de fala”.

O programa foi ao ar na quinta-feira passada, mas rendeu muita discussão, principalmente no Twitter. Luba, que tem mais de 4 milhões de seguidores, questionou a atitude da atriz e afirmou: “dizer ‘você é um homem, logo você não pode falar sobre isso comigo’ é um argumento falso, é uma falácia chamada argumentum ad hominem, que é quando você tenta atacar a pessoa que está argumentando em vez de atacar o argumento que ela está usando”.

O papo rendeu, Kéfera rebateu, Luba teve direito à tréplica. Mas, afinal: o que é lugar de fala? Para desmistificar o tema, a Revista Versar conversou com representantes de movimentos sociais que explicaram a importância do conceito.

“É de suma importância, não só para o movimento negro mas para a sociedade, discutir sobre o racismo, assim como o feminismo. Não há muros na estratégia cujo o objetivo é avançar”, afirma Giselle Marques (Foto: Sérgio LDS/Divulgação)

Coordenadora regional da Rede Estadual de Afroempreendedorismo em Santa Catarina, Giselle Marques ressalta antes de haver o diálogo sobre opressões de gênero, raça ou classe, é necessária uma “escuta silenciosa”.

— O lugar de fala traz, na sua essência, a consciência do papel do indivíduo nas lutas, criando uma lucidez de quando você é o protagonista ou coadjuvante no cenário de discussão. Não há silenciamento de vozes, na verdade é justamente nesse ponto que queremos avançar. Traz uma liberdade para cada grupo se reconhecer e entender em qual espaço se encontra conforme o processo de organização e falar com propriedade a partir dele.

Para Lirous K’yo Fonseca Ávila, transexual e militante, local de fala é uma das conquistas dos movimentos sociais e que vêm para somar na liberdade de expressão de grupos oprimidos pela sociedade.

— A importância do local de fala é que pela primeira vez estão dando oportunidade para aquelas pessoas que vivenciam esses cotidianos, que vivenciam as opressões todos os dias, que têm na própria pele a experiência, possam passar essa informação a partir da suas vivências, e não necessariamente a partir de estudos, ou de uma leitura, ou de ponto de vista de qualquer outro profissional, como um antropólogo, psicólogo, cientista social ou alguém que estudou um caso. O local de fala é rico nisso, porque ele não está dentro de um livro, ele está no que eu carrego todo dia, na violência que eu sofro.

Lirous K’yo Fonseca Ávila é uma importante militante dos direitos humanos de Florianópolis. Foto: Arquivo pessoal

Ativista em movimentos como feminismo e veganismo, Nady Petit, colunista da Versar, reforça que a ideia é dar voz a quem precisa para que a sociedade possa chegar a uma posição igualitária.

— Os diálogos estão mudando, ainda mais na era da internet. Antigamente o homem branco era o dono de diversas vozes na nossa sociedade, enquanto hoje o lugar de fala se aplica dentro de debates em movimentos sociais. E aplicar o lugar de fala dentro desses rolês garante a própria representatividade. Cada indivíduo é protagonista da sua própria história, da sua luta. A importância desse conceito nada mais é do que dar espaço e voz pra quem vive e sente a dor do preconceito, abuso ou racismo.

Foto: Instagram/ Reprodução

Em seu canal do Youtube, onde comumente debate sobre gordofobia e feminismo, Alexandra Gurgel também defendeu o tema.

— Todo mundo pode ter um lugar de fala. É um lugar social, que denota poder. Sou gorda, branca, mulher, LGBT, e tenho esse meu lugar aqui de fala. É sinônimo de representatividade. Uma pessoa branca pode falar sobre racismo, mas não pode falar “eu acho que”, porque não é o lugar dela.

Assista ao vídeo:

Leia também:

5 livros para quem quer se inteirar sobre racismo e feminismo