Luiza Trajano: de executiva poderosa a ativista em defesa das mulheres

Entenda por que a empresária que comandou por mais de 25 anos o Magazine Luiza agora luta pela criação de cotas nos conselhos de empresas

luiza trajano
Foto Tiago Ghizoni/Diário Catarinense

A explicação dela é simples. Se esperarmos pela meritocracia vai demorar mais de um século para que as mulheres conquistem espaço no comando das empresas. Apesar disso, Luiza Trajano sabe que muita gente torce o nariz para a criação de cotas nos conselhos de administração.

Foi esse entendimento de que era preciso ampliar a participação feminina em todos os setores que levou uma das maiores empresárias do país a criar, em 2013, o Grupo Mulheres do Brasil. No início eram 40 mulheres, hoje são 24 mil. Essa semana Luiza esteve em Florianópolis comemorando os dois anos do núcleo local e eu aproveitei para bater um papo com essa empreendedora, que transformou uma pequena rede de lojas numa das maiores e mais conceituadas empresas varejistas do mercado.

Você criou o grupo Mulheres do Brasil em 2013. O que evoluiu nesses últimos anos?
Muita coisa. Quando começamos não se falava tanto sobre mulheres, agora o assunto está no mundo inteiro, inclusive a violência, que vem sendo noticiada todos os dias. Não é que aumentou o número de casos, só está sendo mais divulgado. Então chegou o nosso momento. Nosso objetivo é ser o maior partido político apartidário do Brasil.

Por que você acha que a criação de cotas para mulheres nos conselhos de administração das empresas é tão importante?
Vou te responder com números. Hoje temos 7% de mulheres em conselhos de empresas abertas, e acho que sou a única presidente. Se você tirar as donas e herdeiras, que é o meu caso, esse número cai para 4%. Vai levar mais de 100 anos pra gente ter 20%. Quando você entende que cota é um processo transitório para acertar uma desigualdade, você consegue mudar as coisas. Aí alguém vem e fala em meritocracia, tudo bem, mas então espera 120 anos, nem sua bisneta vai estar no conselho.

Por que ainda temos tão poucas mulheres no comando de grandes empresas?
Por crenças que foram limitando a gente.

Quais os maiores desafios das mulheres nos dias de hoje?
O maior desafio é estar em um alto cargo de direção, as mulheres negras têm ainda mais dificuldade. Sem falar na mulher que ganha menos só porque é mulher. A gente fala que violência é uma questão cultural, que não precisa de cota porque existe a meritocracia, mas ganhar menos é uma questão de caneta, né? Isso tem que mudar.

Como vê o crescimento dos movimentos feministas? Você se considera uma feminista?
Depende do que você achar que é feminista, se for defender direitos iguais para todos eu sou realmente uma feminista, porque é isso que eu quero. O Brasil é um país muito desigual.

Conciliar maternidade e carreira é um dos grandes dilemas de muitas mulheres. Você criou três filhos enquanto comandava uma das maiores empresas do Brasil. Qual o segredo?
Eu sou filha única, sobrinha única, e tive uma mãe com muita inteligência emocional. Criei meus três filhos trabalhando na loja e o mais importante foi a minha mãe, ela disse pra mim: “olha minha filha não tem receita, você está tendo a coisa mais importante da sua vida que é filho, tem mãe que trabalha fora e tem filhos ótimos, outras péssimos, e tem mãe que trabalha em casa e também tem filhos bons ou ruins”. Acredito que é muito bom senso e muito amor, por isso a mulher não pode se sentir culpada, tem que saber que o exemplo é o que move, você tem que dar exemplo.

Assista ao vídeo com a entrevista:

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