Autor catarinense lança livro sobre como o machismo afeta os homens

Psicoterapeuta Fabio Veronesi defende que os prejuízos do machismo vão além da violência contra mulher

Foto: Pixabay

Uma iniciativa que vai além da empatia pela luta das mulheres: o escritor catarinense Fabio Veronesi encontrou os próprios motivos para ingressar nos movimentos contra o machismo que, ele afirma categoricamente, também prejudica os homens. Para tratar do assunto, Veronesi lançou o livro Homem Pró-Feminino — Como o machismo prejudica os homens. Nele, o psicoterapeuta lança um olhar masculino sobre o assunto.

O conceito de “homem pró-feminino” tem a intenção de andar paralelamente ao feminismo. Assumindo o lugar de fala do homem heterossexual que sente as consequências de uma criação machista, Veronesi propõe um movimento pela liberdade masculina.

— Essa questão de parar de agredir a mulher é o mínimo. A partir daí tem todo um caminho que o homem precisa percorrer por conta própria e não esperar que a mulher faça isso por ele, que a mulher veja isso por ele. Ela já está fazendo o papel dela e mandando muito bem. Os homens têm que se mexer. Localizar dentro de si o que o machismo o prejudica.

Reforçando que as mulheres são melhor voz para falar sobre no que o machismo mais prejudica as mulheres, o escritor ressalta que os prejuízos do homem são detalhes “que, claro, comparados à violência das mulheres se tornam banais”. Mas destaca que é importante a sociedade ver esses detalhes como uma forma de repressão.

— A revolução dos homens contra o machismo não vai se dar na esfera social, como foi a das mulheres. Porque a repressão do machismo contra as mulheres é na expressão social delas. A repressão do machismo contra os homens se dá na esfera íntima. O homem precisa abrir mão desse lugar. A revolução dos homens se dá internamente, quando começa a falar sobre sentimento com outros homens. Começa a falar das suas brochadas,  das suas dificuldades emocionais, das suas fragilidades, entendendo que isso não tem nada a ver com orientação sexual, com hétero ou homossexualidade. É aí que está a revolução do homem.

Foto: Arquivo pessoal

Citando uma porção considerável de exemplos, o escritor aponta os reflexos da cultura machista também no desenvolvimento social masculino.

— [Por exemplo] a armadilha é o homem supor que ele leva vantagem não tendo que fazer o trabalho doméstico. Que nada, ele paga com juros e correção monetária essa “folga”. A maioria dos homens depende de mulheres para a manutenção de lares, seja esposa, amiga que mora junto, empregada doméstica. Veja que a maioria das mulheres não. E isso significa liberdade para ela onde estiver no mundo. Se ela mudar de casa, ela muda de casa e estabelece um lar: aconchegante, limpo, banheiros desinfetados e etc. Homem não. A culpa é da mãe, que tem essa tendência de desenvolver a competência do trabalho doméstico para as filhas. Isso foi visto muito tempo como injustiça pelas meninas e eu digo: Sim, que injustiça para todos! Ele vai ser um banana depois.

“O homem é incapaz de perceber e falar das suas emoções, e então trabalhar o espectro emocional. Esse é um prejuízo da criação machista”, afirma Veronesi

Além da incompetência na esfera doméstica, Veronesi aponta a incapacidade de expressar emoções como um dos grandes prejuízos do machismo, que não permite ao homem chorar ou dançar livremente numa festa. As consequências dessa ideologia machista é, muitas vezes, a reprodução de atitudes machistas, num ciclo vicioso ao qual pretende pôr fim.

— É horrível mulheres assediadas e etc, mas não é só por dó das mulheres. Que papel é esse que nós [homens] estamos fazendo, sendo um bando de babacas que fica babando por uma mulher? É perder orgulho próprio a ponto de muitas vezes o homem prostituir, pagar para ter relações com uma mulher. O que está acontecendo com esse homem que não consegue se relacionar com quem queira ter uma relação com ele? Quando se reprime os sentimentos de rejeição, por não ter direito de sofrer de amor, se cria a cultura de insistir e violentar. O assediador é o homem que se afasta dos próprios sentimentos.

Estas lições, além de relatar no livro, Veronesi leva para dentro de casa:

— Eu digo para as minhas duas filhas: vocês precisam lutar e ser espertas e vocês correm o risco de serem violentadas. E para o meu filho, eu digo: esse mesmo machismo coloca o homem em situações que ele apanha de um bando de homens, muitas vezes até a morte. Por motivos dos mais fúteis como ser de um outro time de futebol, ou por ser homossexual. Um bando de homem se junta e bate em outro homem. Isso é o machismo mais puro.

Teoria que comprova a vivência

Foi aos 32 anos que o catarinense percebeu, durante sessões de terapia, que a criação machista o influenciou de maneiras negativas. Hoje, com 53 anos, Veronesi relata a dificuldade que encontrou para entrar na luta contra o machismo.

— Acho importante um homem estar falando disso para outros homens. Vi que não tinha nenhum homem falando sobre o tema e eu sinto na pele. Na faculdade de psicologia eu quis ingressar no núcleo feminista e percebi que não havia lugar para homem ali. O lugar do homem está marcado, é onde ele vai ouvir o discurso que ele é algoz, ouvir as reclamações e ficar quieto. Ou há um lugar de fala para o homem homossexual. Foram 15 anos de pesquisas, mas quando eu quis começar eu ouvi “você ainda quer reclama?”, e então não consegui. E foi um deserto até encontrar Elizabeth Badinter, que para mim é a sucessora da Simone de Beauvoir — autora que dá embasamento para boa parte de sua teoria, a filósofa é famosa na França por defender a igualdade entre sexos, e não o favorecimento da mulher.

O livro Homem Pró-Feminino pode ser encontrado nas livrarias Catarinense, Letraria e em São Paulo, na Livraria da Vila, além de poder se encomendado diretamente com o autor pelos canais do livro no Instagram e Youtube.

Confira as livrarias parceiras do Clube NSC

Saraiva
Sócios têm até 10% DE DESCONTO nas compras realizadas no hotsite exclusivo do Clube NSC. O desconto não é cumulativo com outras promoções vigentes no site.

Livros e Livros
Sócios do Clube NSC têm 15% DE DESCONTO na compra de livros. Rua Roberto Sampaio Gonzaga, s/nº, loja 4, Trindade, Florianópolis –(48) 3222-1244.

A Página Livrarias
Sócios do Clube NSC têm 10% DE DESCONTO na compra de livros em dinheiro. Rua Doutor João Colin, 475, América, Joinville – (47) 3433-4988.

TAG Livros
Além das livrarias, sócios do Clube NSC têm 50% DE DESCONTO na primeira mensalidade do clube de assinaturas TAG.

Leia também:

Músicos catarinenses desconstroem machismo no rock em novo single

Primeira livraria feminista de Santa Catarina propõe ampliar o debate sobre temas polêmicos

Escritores catarinenses criam editora para publicações independentes