Conheça as histórias de três mães que empreenderam para ter melhor tempo com seus filhos

mães

Por Aline Torres / especial

Ser mãe não é adjetivo. É emprego comum tanto na gramática quanto na vida. Substantivo carregado de exigências. Ser mãe é difícil, sobretudo, quando o mercado de trabalho inibe o elo com os filhos. Comportamento que tem afetado a economia brasileira: 74% das empreendedoras, o equivalente a oito milhões de mulheres, são mães, segundo o Sebrae.

Estimativa que se repete em Santa Catarina. Mães decidiram abrir negócios próprios para garantir o que o mercado de trabalho nunca conseguiu proporcionar: mais tempo na criação e formação humana das crianças. Trocar a carteira assinada pelo CNPJ num período de aumento de despesas não deveria ser uma motivação, mas a promessa de horários flexíveis e a possibilidade de ficar perto dos filhos têm atraído cada vez mais mulheres. Há quem veja o empreendedorismo
materno como uma nova expressão do feminismo, impulsionada por esta geração.

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A rotina de trabalho não é menos cansativa nem a jornada é menor do que antes. Trabalham em média oito horas por dia, cuidam dos pequenos e das tarefas de casa, ao mesmo tempo que se rebelam contra a legislação trabalhista e todas as dificuldades que ela impõe: licença de quatro meses (seis em algumas empresas), ruptura da amamentação, obrigação de deixar os bebês em creches, com babás ou familiares. Sem contar as demissões, que atingem metade das trabalhadoras no período de até dois anos depois da licença-maternidade, segundo pesquisa
em andamento na Fundação Getúlio Vargas.

Mas, inacreditavelmente, essa legião de mulheres sobrevive, cria negócios e filhos saudáveis,
se reinventa, marcha, faz e acontece. Ser mãe não é adjetivo, mas deveria ser.

Grafiteira

Monique Cavalcanti com a filha, Lia / Leo Munhoz

Monique Cavalcanti venceu mais de 40 horas de parto sem anestesia para ter Lia. A filha solo, que cria sem a presença paterna, nasceu no dia 17 de outubro de 2016, o dia em que a decisão de ser mãe fez sentido. Ligado pelo cordão umbilical estava o ser criado pelo seu corpo, com a pele ainda coberta com o sangue do útero onde morou por nove meses. Um amor não experimentado, imensurável, mais valente do que qualquer outro.

Por Lia, a brasiliense de 25 anos, que vive em Florianópolis, abandonou a carteira assinada no Núcleo Arte Educação, da Irmandade do Divino Espírito Santo, e resolveu se embrenhar em um mundo novo, o empreendedorismo. Assim nasceu também a Agenda – Centro de Artes Urbanas, com ateliê coworking, cursos e loja. Para viabilizar o projeto, Monique se uniu a arte-educadora Sara Duarte, 27 anos, que também tinha o mesmo sonho de fomentar um cenário artístico independente na cidade. As duas alugaram um amplo espaço no Itacorubi e com a ajuda de amigas rebocaram, lixaram e pintaram todas as paredes.

Quando Lia tinha 9 meses, a Agenda foi inaugurada como um lugar para se fazer e
pensar arte. Foi ali que a pequena deu os primeiros passos. E não demorou até que mãe e filha se mudassem do Canto da Lagoa para a casa ao lado. O negócio de Monique se transformou na extensão da casa de Lia. Ela circula livremente pelo ateliê, participa das aulas de teatro e circo, sacode com vontade nas aulas de dança ou quando toca Francisco, el hombre, sua banda favorita.

– É um exercício bacana também para as pessoas que participam do espaço, mães ou não, saberem lidar com a presença de uma criança. Eu a amamento, troco fraldas, ela fica o dia inteiro comigo. E é amorosa, brincalhona, engraçada, percebo que é bem feliz.

Lia também acompanhou a mãe, hábil grafiteira, em trabalhos externos. Nas ruas, Monique é Gugie e tem trabalhos seus espalhados pelo Estreito, Centro, Trindade, Udesc, Itacorubi e bairros do Norte e do Sul da Ilha. Ela também ministra oficinas. Lia participou de muitas
Brasil afora no calor do útero materno.

O envolvimento de Monique com o hip-hop começou aos 13 anos, quando já morava em Santa Catarina. Primeiro com o break (dança) e após cinco anos com o grafite, um caminho sem volta. Ingressou no curso de Artes Visuais na Udesc e trabalhou como arte educadora por quatro anos vinculada à projetos socioeducativos e de encorajamento a crianças e adolescentes de baixa renda.

A artista se realizava no trabalho comunitário, mas avaliou as dificuldades das colegas para aliar a maternidade com as exigências do mercado formal. Empreender era um risco, poderia dar errado, mas também era o único caminho para evitar a frustração. Monique o trilhou.

– Eu queria cuidar da minha filha, sustentá-la e fazer o que amo. E consegui.

Estilista

Isadora com os filhos Stella e Luca / João Brognoli, divulgação

A diferença não assustou. Alguns tinham mais de cinco olhos, chifres em formato de pirulito, cabeças luminosas, dentes cavalares, mas não pensaram mal deles. Eram extremamente simpáticos. Viviam em estrelas distantes e foram transportados para o papel graças a Luca, 9 anos, e sua irmã Stella, 5 anos. Atenta aos sonhos infantis, a designer de moda Isadora Santos, 36 anos, recriou muitas destas ideias para a marca que fundou há dois anos, a Lok Prints. Assim surgiu a coleção de roupas de monstros, por exemplo. Divertidas criaturas que nasceram da imaginação dos filhos.

Enquanto ela trabalha as crianças brincam, mas também sugerem propostas para o negócio, participam das discussões, se orgulham da mãe empreendedora.

– Eles adoram. Fazem propaganda na escola: “minha mãe que faz essas roupas” –  relata. Isadora engravidou de Luca enquanto cursava a faculdade no The Art Institute of Fort Lauderdale, nos EUA, o que a fez voltar os olhos para as roupas infantis. Desde o início da gestação, fabricava roupinhas em casa. Quando o filho completou quatro anos, engravidou novamente. Na época, ela estava bem empregada em um escritório de moda em Miami, mas pediu demissão e resolveu voltar ao Brasil.

– Eu queria criá-los com os valores brasileiros. Nos EUA é muito fácil consumir, aos coisas são acessíveis e a alegria do meu filho era comprar um brinquedo novo. Nós não queríamos isso. Queríamos que a alegria dele fosse almoçar na casa dos avós, visitar os tios, criar laços comunitários, de afeto com as pessoas não com os objetos. Para realizar esse projeto eu precisaria dedicar mais tempo à maternidade.

O tempo dedicado aos filhos foi justamente o gatilho para a sua empresa, criada em Florianópolis.

– Eu comecei a perceber que as roupas infantis são muito limitadas. Ou seguem o estilo miniadulto ou têm estampas de personagens da TV e do cinema. Ao lado da sócia Kiki Pederneiras, 39 anos, naturóloga, artista plástica e mãe de João Pedro, 9 anos, ela criou na garagem de casa uma marca sem gênero, que pode servir para brincadeira, escola, festinha, ou ser usada como pijama. As peças são feitas à mão. Com o crescimento, a loja foi para uma sala em frente ao condomínio onde mora.

– Nós criamos estratégias para oferecer o melhor aos nossos filhos: a nossa presença.

Marceneira

Da esq. para a dir., Carol com a filha, Sofia, e Bruna. com Elis / Paula Carpi, divulgação

Carol Moreira, 31 anos, estudava cinema em Moscou quando soube que estava grávida. Com medo do parto em russo, decidiu voltar para o Brasil ao lado do companheiro. Mineiros, vieram parar em Florianópolis. Sofia é manezinha, nasceu em casa, no dia 25 de agosto de 2013, após 22 horas de contrações. E depois de tantas mudanças, Carol apostou em mais uma: ser mãe em tempo integral.

– O mercado é cruel, te obriga a abandonar teu filho e trabalhar para pagar a terceirização do cuidado, sendo que no fim do mês o lucro do esforço não fica com as mães – diz.

Ao lado de Sofia, ela penetrou no universo lúdico, dos contos, dos sonhos e das brincadeiras. Foi assim, que elas fizeram a primeira cozinha de papelão.

– Quando tinha um ano e oito meses, a Sofia adorava brincar de fazer comidinhas. Como as casas de papelão não duravam, eu quis comprar uma minicozinha de madeira, mas não encontrei nada.

Carol fez o projeto e levou na marcenaria para cortar as tábuas. Ela e a filha lixaram, montaram e pintaram por duas semanas o pequeno móvel. O resultado mudou a vida das duas novamente.

A cozinha em miniatura fez tanto sucesso entre as amigas de Carol, que ela resolveu postar no Facebook, publicação que rendeu 25 encomendas e muita aflição.

– Eu não tinha experiência, fiquei desesperada – conta.

Foi no parquinho que ela encontrou sua sócia, Bruna Chervezan, 33 anos.

– Eu conhecia a Bruna há uma semana, ela tinha acabado de chegar do Rio e tinha uma história em relação à maternidade parecida com a minha – completa.

O parquinho era atividade extracurricular da escola para que Sofia e Elis (filhas de Bruna) se entrosassem nas aulas. Resolvendo uma briga de crianças elas criaram o Ateliê Materno, com brinquedos inspirados na pedagogia Waldorf e no método Montessori. Administrando o crescimento do negócio e um ritmo intenso de trabalho, as sócias tornaram-se mães novamente. Lina, filha de Carol, nasceu há um ano e meio, e Gael, filho de Bruna, há sete meses.

– Nós trabalhávamos com os filhos embaixo dos braços. Estávamos fazendo manualmente 30 peças por mês. Não sei como conseguimos, mas sobrevivemos. Há um ano, o Ateliê Materno arrendou uma fábrica em Rio Negrinho, no Norte do Estado, com capacidade de produção
de até 400 peças por mês.