Manifesto de intelectuais francesas traz novo debate sobre assédio masculino

A escritora Catherine Millet assinou o manifesto de intelectuais francesas Foto: Divulgação

Por Marcel Hartmann /Nathália Carapeços

Após o levante contra o assédio masculino promovido desde o ano passado – incluindo denúncias contra personalidades de Hollywood, campanhas nas redes sociais e, na última semana, a mobilização no Globo de Ouro – um manifesto de intelectuais francesas publicado nesta terça-feira (10) no jornal mais importante da França, o Le Monde, clama pela “liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual”. Assinado por personalidades como a lendária atriz Catherine Deneuve, de 74 anos, e as escritoras Catherine Millet, 69, e Peggy Sastre, 36, o texto assinado por cem mulheres inflou um novo debate ao defender a “rejeição a um certo feminismo que expressa um ódio aos homens”.

A carta concorda que estupro é crime, mas logo em seguida argumenta que “paquera insistente ou desajeitada não é delito, nem o galanteio é uma agressão machista”. Para o grupo de francesas, vivemos uma “caça às bruxas” que ameaça a liberdade sexual. Nas palavras delas, “a liberdade de dizer não a uma proposta sexual não existe sem a liberdade de importunar”.

Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mirian Goldenberg critica as autoras do manifesto e defende que “não há uma caça às bruxas, mas uma busca por equidade e por justiça para pessoas que foram abusadas”.

— As mulheres sabem muito bem diferenciar o elogio e a paquera de uma postura violenta e agressiva. Aqueles que foram denunciados cruzaram, muito, os limites do abuso de poder. Ninguém está denunciando um desajeitado. As pessoas estão dizendo basta a uma lógica de que o homem pode tudo. Não pode, acabou — defende.

No texto, as intelectuais defendem os homens citados em campanhas de denúncia de assédio por terem feito, como “único erro”, o toque de um joelho, o roubo de um beijo, os comentários sobre coisas “íntimas” em um jantar de negócios ou o envio de mensagens sexualmente explícitas para uma mulher com a qual a atração não era recíproca.

Para Joanna Burigo, fundadora da Casa da Mãe Joanna e mestre em Gênero, Mídia e Cultura pela London School of Economics, em Londres, o texto confunde “o desejo individual de viver livremente sua sexualidade com a liberação de práticas abusivas”.

— Me parece bastante óbvio que jogos de sedução possam ter um caráter predatório e que pessoas possam gostar disso nos jogos sexuais. E tudo bem. Mas não há caça às bruxas nenhuma. Precisamos ter cuidado para não transformarmos um movimento por liberdade em policiamento. Um olhar mais cauteloso percebe que não é puritanismo nem moralismo que movimenta denúncias, e sim a missão de interromper e erradicar práticas misóginas que se manifestam nos jogos sexuais e de sedução sem o devido consentimento — critica.

Assim como Joanna, a escritora Claudia Tajes lembra que as francesas lutaram muito pela liberdade sexual das mulheres – por isso, merecem ser reconhecidas. Ao mesmo tempo, diz que a França tem uma legislação severa para protegê-las e que “vivendo assim, talvez seja difícil para elas imaginarem a que muitas mulheres ainda são submetidas mundo afora”.

— Eu venho de um tempo em que colegas de trabalho com quem mal se falava paravam atrás da cadeira e massageavam as costas das gurias em pleno expediente. E a gente aguentava por não saber dizer “tira essa mão peluda daí”. Acho maravilhoso que ninguém mais precise ouvir cantadas e sofrer intimidades forçadas. Que a sociedade norte-americana é mais puritana do que a das francesas, e do que a nossa, acho que ninguém discute. A mim parece que, para as francesas, a liberdade é tão política que elas nem conseguem nos entender — argumenta.

Ainda sobre o contexto a partir do qual as francesas falam, a escritora, socióloga e pesquisadora do feminismo Ana Cardoso lembra que algumas das autoras, como Catherine Deneuve, conquistaram sucesso justamente por terem sido desejadas pelos homens. Ela defende que o texto não é definitivo nos debates do feminismo e que ele expõe uma das vozes do movimento, “que não é uníssono”.

— A Deneuve sempre fez muito sucesso. Na cabeça dela de vencedora, ela pode entender que o cortejo ajudou a constituir a própria trajetória. Ainda hoje, no mundo corporativo, as mulheres com cargos mais altos incorporam discursos ou mesmo assumem uma postura mais “masculina” para circular por ali. E sobre o limite para abordar outra pessoa, ele está definido por essa outra pessoa. Se ela disse não, é não — destaca.

Após as críticas do texto às denúncias de assédio, Cris Bruel, doutora em psicologia social pela Universidade de Autônoma de Madrid e uma das coordenadoras do Coletivo Feminino Plural defende que esse tipo de ativismo é importante por “tensionar as pessoas a desenvolverem uma conscientização“.

— A #metoo é uma possibilidade de trazer à tona a violência machista que sofremos cotidianamente. Até porque são diferentes as violências que mulheres negras, lésbicas, pobres ou com deficiência sofrem. Olha toda a repercussão que essas campanhas trouxeram, contrárias ou não. Estamos nos tornando mais conscientes sobre nossa autonomia para romper com esses padrões de violência — aponta.

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