Apaixonar-se é ganhar um visto para entrar em outro planeta

Afora a aventura amorosa de explorar um universo diferente, não costumo me distanciar muito do meu território, pois não acho agradável me sentir uma marciana

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Apaixonar-se é ganhar um visto para entrar em outro planeta. A gente descobre cheiros e sabores desconhecidos, um vocabulário diferente, histórias novas, lugares em que nunca estivemos, enfim, lidamos com o deslumbramento de estar em outro mundo – o mundo do outro. Há quem permaneça neste novo planeta por pouco tempo e logo retorne para o seu, e há quem se instale em definitivo: pede asilo e se naturaliza. Amar é sempre uma viagem.

De ida-e-volta, ou só de ida.

Afora a aventura amorosa de explorar um universo diferente, não costumo me distanciar muito do meu território, pois não acho agradável me sentir uma marciana – e o fato é que me sinto, às vezes. Acontece quando leio o noticiário político, quando estou entre pessoas pedantes, quando testemunho preconceitos ou pieguices, e até em situações bem triviais, como quando alguém puxa um Parabéns a Você. Pois é, coitado do Parabéns a Você, tão inocente, mas é inevitável: a canção começa e na mesma hora brotam duas antenas verdes na minha cabeça e um terceiro olho no meio da testa.

Cultos religiosos também têm esse poder de me transformar num ET. Oração, para mim, é algo privativo e silencioso. Já em grupo, não consigo me encaixar. Gosto de igrejas vazias – e de teatros lotados. No entanto, até mesmo num teatro posso vir a me sentir estrangeira, nos casos em que a plateia ri por nada, como se rir fosse obrigatório. Uma vez, estava assistindo a uma peça trágica sobre um casal que havia perdido o filho e mesmo assim algumas pessoas achavam graça. Refletir não basta? Se comover não basta?

No meu planeta, basta.

Frequento desde churrasco na laje até festa em castelo, mas se eu perceber que estou longe demais da minha turma e da minha essência, a marciana surge e me ordena: embarque logo na nave e vamos para casa. Deve ser consequência da passagem do tempo, maturidade não é período para desperdícios. Tem sido cada vez mais fundamental me sentir inteira onde estou, e não uma turista.

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