Marcos Frota traz o Circo dos Sonhos a Florianópolis e fala sobre a relação com a arte

Ator fala sobre o espetáculo e o novo momento do circo no Brasil

Foto Diorgenes Pandini/NSC

Personagens marcantes costumam acompanhar os atores por toda uma vida. É difícil, por exemplo, chegar para uma entrevista com Marcos Frota e não lembrar do ingênuo Tonho da Lua, que marcou a carreira do ator na novela Mulheres de Areia. Isso foi em 1993, mas até hoje muitas pessoas relembram o papel, apesar do jovem que esculpia castelos de areia ter se transformado num homem que passou dos 60 anos.

São 40 anos de carreira e 31 de circo, paixão que também nasceu durante uma novela. Foi interpretando um trapezista em Cambalacho que Marcos Frota se encantou pela arte circense. Um envolvimento tão grande que acabou por definir novos caminhos na sua carreira. Embaixador do circo no Brasil, Marcos viaja o país e o mundo com iniciativas que ajudam a valorizar e desenvolver o setor. Atualmente ele é presidente voluntário da Universidade Livre do Circo, projeto social instalado na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, com atendimento psicossocial e aulas de circo para 350 jovens de comunidades carentes.

Na última semana, ele chegou a Florianópolis com o Circo dos Sonhos. No espetáculo O Sonho Vai Começar, são mais de 60 profissionais envolvidos, entre eles 30 artistas brasileiros e estrangeiros com talento de nível internacional. A trupe traz malabaristas, equilibristas, contorcionistas, mágicos, muita palhaçada, além de globo da morte, pêndulo e patinação.

Tudo acontece dentro do sonho de uma garotinha que, despertada por um mágico, vai parar no circo. A plateia é convidada a viver essa aventura no fantástico e maravilhoso mundo do circo e aquela menina que estava desanimada com seus brinquedos agora participa empolgada do espetáculo, interagindo com os artistas circenses.

Quem vai esperando uma atuação de Marcos Frota pode sair frustrado. Sua participação é muito maior nos bastidores. Nessa entrevista, ele contou um pouco da sua história, falou sobre o circo, a saudade de atuar na TV e a forma de encarar o mundo.

circo dos sonhos
Divulgação

 

A gente percebe um resgate do circo, um interesse maior das famílias por esse novo picadeiro, mais moderno. Como aconteceu essa virada?

O circo é eterno, o povo gosta, em todos os momentos, todas as gerações, é universal. Mas o circo também que tem que gostar do povo, assumindo a responsabilidade pela presença do público com um equipamento bacana, atendimento, boa gestão e, claro, com estética e conteúdo. A partir daí, o circo começa a falar de igual para igual com o público, assim como todos os outros segmentos artísticos. Eu acho que o circo brasileiro vive um momento bacana, de revelação de uma nova geração de artistas, e tem o público que se renova e que sente curiosidade pelos espetáculos.

O que o Circo dos Sonhos apresenta?

O espetáculo vem a Florianópolis com esse compromisso, de respeitar o que é de tradição da arte circense, mas também colocar o que tem de contemporâneo, a tecnologia a serviço do talento. Temos uma geração que gosta de circo, que gosta de fazer circo, que veio do teatro, da dança, da capoeira, do equilíbrio, das acrobacias, que se mistura com os filhos dos artistas tradicionais e forma esse novo circo, deflagrando esse novo momento para a atividade no país. O espetáculo do Circo dos Sonhos tem dramaturgia, inova nesse sentido, tem uma história que se conta, tem enredo, e durante o espetáculo, principalmente as crianças vão podendo entender como se constroi um espetáculo circense. Não é apenas a sequência natural dos números, é também um encontro entre quem faz e quem assiste. Se não houver esse encontro, o espetáculo na sua essência não se realiza, e o Circo dos Sonhos propõe verdadeiramente esse encontro.

Os integrantes do circo têm a mesma vida itinerante que se tinha antigamente?

Sim, o circo é uma itinerância, vai de cidade em cidade, então você tem que se adaptar a essa vida, as crianças têm que ir à escola nas cidades aonde estão, os artistas têm que manter uma disciplina de estudos, de preparação física, de evolução técnica do seu número. O espetáculo tem que estar sempre atento para não perder a sua direção e concepção, esse é o desafio da vida itinerante.

A sua vida também é itinerante?

Sim, e não só no Brasil, eu sou chamado para festivais e mostras, fóruns internacionais de circo no mundo inteiro, então tem essa itinerância que já ultrapassou a fronteira e a barreira do meu país.

Qual o trabalho desenvolvido pela Universidade do Circo?

Preparar uma geração, não só de artistas, mas também de técnicos, de professores circenses e também uma geração de gestores. Acho que isso tudo é que vai desencadear num movimento de renovação da arte circense. A Universidade do Circo no Rio de Janeiro nasceu com esse compromisso e hoje está respirando esse momento de consolidar, de saber que é possível realizar um trabalho dessa natureza e atingir esses objetivos.

Em que momento o circo entrou na sua vida? Antes ou depois da TV?

Na vida só existe o que a gente inventa, não tem essa coisa do destino, da sorte, isso tudo é um componente das suas escolhas. Escutei uma frase muito interessante que “a gente é responsável pela dor e pela delícia das nossas escolhas”. Eu escolhi ser um ator do teatro, da televisão, do cinema e do circo, cada um com as suas contradições, suas dificuldades, obstáculos a serem superados, e não tenho saudade de nada, a vida é sempre o hoje, é o hoje que determina o que virá. O que passou, passou. Foi lindo e vai ficar guardado. Eu sinto falta do trabalho de ator, a arte do ator é totalmente diferente da arte circense.

E foi o circo que te levou a um dos maiores festivais de cinema do mundo?

Verdade, nós lançamos em Cannes, na abertura oficial do festival, com tapete vermelho e estrelas do mundo inteiro, o filme O Grande Circo Místico, com direção do Cacá Diegues e grande elenco com Mariana Ximenes e Antônio Fagundes. Então é incrível que o circo tenha me levado até lá. É importante assumir a responsabilidade sobre o próprio destino e perceber que as suas escolhas determinam tudo.

Você participa do espetáculo?

A minha participação hoje é bastante diferente do que o público espera. Hoje o circo é para mim um exercício de cidadania, cuidado e atenção com o lado espiritual, e é isso que eu procuro compartilhar com o público, o que significa o circo e a abertura da minha espiritualidade. Então eu apareço sem atrapalhar a dinâmica do espetáculo, mas procurando contribuir para que o show surpreenda o público. O público vai ao circo para ser surpreendido. E quando ele é surpreendido, se encanta, porque a energia do espetáculo circense é eterna.

Mas não chega a colocar um nariz de palhaço…

Todo mundo me convida para isso e eu ainda não senti esse momento, que é me transformar, assumir um personagem… Eu fui trapezista, fiz uma novela, Cambalacho, que foi o que desencadeou todo esse movimento circense, foi o momento que eu entendi que era do circo também. E hoje eu assumo esse compromisso e responsabilidade de ser porta-voz desse segmento, então tem uma outra maneira de eu me apresentar e dividir isso com o público.

Como é trabalhar para um público mais infantil?

É um privilégio. Num momento brasileiro tão ácido, tão desprovido de lucidez, tolerância, eu tenho essa oportunidade de a cada fim de semana estar numa cidade diferente, já que são muitas lonas espalhadas pelo Brasil inteiro, e me encontrando com as crianças. Com todo esse encantamento e modernidade, dessa nova geração índigo, me encontro com uma criança completamente diferente.

Você já conhecia Floripa?

Sim, eu já vim pra cá várias vezes, com evento, com teatro, com o Caminhão do Faustão, com circo também, conheço bem aqui, tenho muitos amigos e tenho uma relação de respeito, porque é um lugar realmente diferente. Estar em Florianópolis é estar num lugar único no mundo inteiro, talvez só Fernando de Noronha tenha uma energia como essa aqui, que circula, que te eleva, a gente tem até que tomar cuidado, porque pode não querer mais ir embora, a Ilha exerce um fascínio.

SERVIÇO
CIRCO DOS SONHOS – O SONHO VAI COMEÇAR
Passarela Nego Quirido
Av. Governador Gustavo Richard, 5000 – Centro – Florianópolis – SC

Espetáculos de terça a sexta-feira às 20h.
Sábados, domingos e feriados às 15h, 17h30h e 20h.

Preços :
Assinantes do Clube NSC têm desconto de 30% para sócio no valor do ingresso da bilheteria em todos os setores.

Lateral Inteira: R$30,00
Lateral Meia: R$15,00
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Central Inteira : R $40,00
Central Meia: R$20,00
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Vip Inteira : R$50,00
Vip Meia : R$25,00
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Camarote Inteira : R$80,00
Camarote Meia : R$40,00

Assista ao vídeo com a entrevista:

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