Marcos Piangers: escrever com o coração sempre me deixou amedrontado

coração
coração

“Reatei meu relacionamento com a minha filha. A culpa é sua!”, me escreveu um pai de Minas Gerais. Eu estava em Lisboa no ano passado lançando meu livro, ele fotografando a Praça Luís de Camões no saudoso Chiado, me olhou e reconheceu de algum lugar. “Você…”, gritou de um lado da rua. “Sim!”, respondi, imaginando que ele achava que eu era quem eu realmente sou,
não o Nando Reis.

Nos encontramos novamente na noite do lançamento. Dei meu livro para ele, ele tirou fotos do evento, depois me mandou por e-mail. Nunca mais ouvi dele, até essa semana. “Reatei”, escreveu. “A culpa é sua!”. Não há nada que me aumente o coração mais do que isso. Um pai que se flagra da importância de estar perto dos filhos.

Um homem de aspecto bruto começou a chorar no lançamento em Curitiba. “Quero só agradecer porque eu nunca brincava com a minha filha porque meu pai nunca brincava comigo”, disse na frente de toda a platéia. “E não sabia o que eu estava perdendo! Hoje brinco todos os dias, deixo-a me maquiar. É a melhor coisa do mundo! Obrigado por mudar a minha visão de paternidade”, completou.

Em Criciúma, eu falava sobre a importância de passar mais tempo com a família e menos preocupado com o trabalho. Um senhor de idade pediu o microfone e chorou na frente de mil pessoas. “Ouçam isso com atenção. É isso mesmo!”, disse. “Presenteei meu pai com seu livro e o vi chorar pela primeira vez”, me escreveu um filho de Blumenau. “Seus textos e vídeos me ajudam a aguentar as dificuldades de ser mãe solteira”, me escrevem todos os dias no Instagram. “Meu filho viu seu vídeo e mandou ‘eu te amo’ para toda a família”, me disse uma mãe em Florianópolis. “Estava indo me suicidar e dei de cara com seu texto no jornal”, me escreveu um pai. O texto se chamava A Vida é Longa. “Ia deixar sozinho meu filho de oito anos”, escreveu. Uma menina, morta por um câncer fulminante, escolheu meu texto Não é uma Tragédia para ser lido no enterro.

Quando comecei a escrever nunca imaginei nada disso. Quando ficava de frente para uma tela branca, imaginava muito mais as agressões, os julgamentos, os comentários maldosos que viriam. Escrever abrindo o coração é uma vulnerabilidade que sempre me amedrontou.
Hoje recebo mensagens bonitas demais, muito mais do que eu mereço. Por ironia, todas essas mensagens me ajudaram também a ser um pai melhor. A passar pelos momentos difíceis. A encontrar felicidade nas coisas simples.
A culpa é de vocês.