Margarida Baird volta ao palco para mini-temporada do monólogo Maria, a Madalena

Programa imperdível para quem está na Capital: a atriz Margarida Baird apresenta novamente em Florianópolis o monólogo Maria, a Madalena, sucesso de público nas primeiras exibições, em março. Baseada em um dos nove contos do livro Fogos, de Marguerite Yourcenar, a peça dirigida por Brígida Miranda traz o desespero e a busca de Madalena pela redenção. As sessões, nesta sexta e sábado e nos dias 4 e 5 de maio, ocorrem no palco do Círculo Artístico Teodora, no Campeche, espaço cultural criado por Margarida em 2004. No começo da semana, ela me recebeu para um papo e um café no apartamento onde mora com a gata Chiquita (ela e o marido moram em casas separadas), em Coqueiros.

Como nasceu a vontade de contar a história de Maria Madalena?

A ideia inicial veio há muitos anos. Eu dirigia uma amiga, que já se foi do planeta, e que queria contar Maria Madalena em seu aniversário. Mas deu um problema no teatro e ela não pôde apresentar. Um dia, sonhei que dizia a um amigo que precisava investir em projetos antigos. Pegava uma ficha de leitura e estava escrito: Dalva. Que é o nome dessa minha amiga. Em seguida, sonhei com outro amigo, Sílvio, que também já se foi. Fiquei com Maria Madalena na cabeça. E aí tem o livro Fogos, de Marguerite Yourcenar. Um dia, peguei ele e vi que a dedicatória era do Sílvio. Pensei: não é possível. Isso já faz quase um ano.

Depois disso, eu tinha marcada uma viagem sagrada celta. Antes de ir, sabia que ia para as bandas de Avalon e reli o livro As Brumas de Avalon. Anotei alguns lugares para, quem sabe, visitar. O primeiro que anotei foi Glastonbury. Onde José de Arimateia aportou e fundou a primeira igreja cristã. Com quem? Maria Madalena. E lá, fiquei em uma pousada de uma senhora que era especialista em Maria Madalena e dá conferências sobre ela. Eu não acreditava no que estava acontecendo. E comecei a ler sobre essa mulher. Fiquei piradinha. Minha avó e minha tia também se chamam Maria Madalena. E minha filha se chama Ana Madalena. Faz parte da minha história. E agora estou contando, incorporando essa personagem incrível.

Me fala mais sobre a personagem.

Ela tinha um orgulho muito grande. Ela sai de casa porque não podia admitir ter sido abandonada pelo noivo no dia do casamento, virgem, mocinha. Aí ela vai e se entrega para um centurião. E se prostitui. E ela diz em cena: “cada marca, cada beijo, cada tapa vão me formando um corpo completamente diferente daquele que João não quis acariciar”. Isso é forte. E o encontro dela com Jesus foi lindo.Aquele divino vagabundo que atrai jovens para segui-lo. E quando ela vai para conquistá-lo, ela se rende a ele. É um texto muito bonito. Como ela compreende a natureza dele, daquele que vem e aceita a insolência de policiais, a companhia de leprosos. Ela sabe que é angústia que vai torná-lo salvador, torná-lo Deus para valer. E ela só se refere a ele como Deus.

Margarida mergulhou no universo de Maria Madalena. Fotos: Diórgenes Pandini

Como é sua relação com a religião?

Já fui muito chegada à religião, e ao mesmo tempo sempre muito contestadora. Já criança, achava estranha a maneira como os padres rezavam a missa, pouco verdadeiro. Aí fui estudar em colégio de freira e fiquei empolgada. Queria ser freira. Mas ser freira era pouco. Eu queria ser santa, entendeu? Rompi com isso tudo na hora que comecei a ficar mais informada sobre assuntos como economia e exploração. Só que sempre tive essa coisa comigo, gostava de Santo Antônio. Mas me afastei. Minha filha não foi batizada porque não queria botar nela uma coisa que vai instigar a culpa. Uma pessoa que já nasce com pecado? Me desculpe. Minha filha nasceu do amor. Não vou botar pecados originais aí, não. Tenho uma busca que não é religiosa. Quero um aprimoramento de mim, do meu ser. Ter uma conexão. Eu sinto. Não sei se é Deus, se é a natureza, mas há uma coisa que vai além de nós.

Fiquei sabendo que depois dessa mini-temporada você vai para o Egito.

Vou para o Egito dia 18. Acho que vai ser uma viagem mais turística. Sei lá quanto tempo vou viver, já estou aí com 7.3, já tive um monte de perrengue de saúde, não posso perder tempo e marcar bobeira. É essa que está pintando? É nessa que eu vou. Eu vou para o Egito. Vou ver a Esfinge. Até me arrepio só de pensar. Estava falando com minha tia, a Madalena, que está com 91 anos. Disse para ela que estava indo e ela me disse: “acho que já vivi por lá”. E eu: “sabe de uma coisa, Madalena? Eu também”. E morremos de rir. Estou disposta a aproveitar o melhor possível o que me resta de vida, que é muito menos do que eu já vivi. Vou ser feliz. Alguém me disse uma vez que eu teria uma velhice alegre. É um propósito de vida. E enquanto eu puder fazer teatro, eu faço. Se não der mais, já fiz bastante também. O que eu gostaria muito de não perder são meus olhos, porque eu amo ler.

Maria, a Madalena

Quando: 27 e 28 de abril e 04 e 05 de maio, às 19h30
Onde: Círculo Artístico Teodora (Servidão do Cravo Branco, 236 Campeche, Florianópolis)
Quanto: R$ 20 (meia) e R$ 40

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