“Ainda encontramos resistência na discussão das masculinidades”, diz Mário Queiroz

Mario Queiroz fala sobre o novo papel da masculinidade. Foto: CADDAH

A Univali, em Balneário Camboriú, recebe entre os dias 10 e 12 de abril o evento Homem Brasileiro, que foi criado e é dirigido pelo estilista, consultor, mestre em comunicação e semiótica e pesquisador de moda, Mário Queiroz (foto: CADDAH).

Após o sucesso de edições na capital paulista, essa é a primeira vez que o evento desembarca em outro estado e reunirá pesquisadores e profissionais de diversas áreas. Entre os confirmados está o jornalista Pedro Diniz; Mônica Barbosa, da Revista Caras; Fabio Mariano Borges, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM); o consultor de styling e escritor Jorge Grimberg; Guilherme Amorozo, redator chefe da revista Casa Vogue; e o empresário Cristiano Burger da Tecnoblu.

Também fará parte do evento a exposição 20 fotógrafos interpretam HOMEM BRASILEIRO, que trará obras assinadas por grandes nomes da fotografia de vários estados brasileiros com linguagens bem diferentes para o tema: “Origem, Sexo, Imagem”.

Fotografia assinada pelo catarinense Tavinho Costa estará exposta no evento. Foto: Reprodução

 

Antes de dar início a programação, que possui atividades gratuitas e pagas com vagas limitadas, Mario Queiroz conversou comigo sobre o papel da masculinidade diante dos novos desafios da sociedade. Confira a entrevista completa:

Fazendo uma rápida análise desses mais de vinte anos que você está no mercado. O que você apontaria como principais diferenças daquele homem lá atrás para o dos dias atuais no consumo de tendências e propriamente de moda?

A necessidade de ficar mais atento com a sua imagem, a partir das novas necessidades da sociedade nas mais diversas esferas. Hoje os homens cuidam de como são vistos, querem ser bonitos seja no campo de futebol, no selfie, no trabalho. Sobre tendências, elas deixaram de apontar um único homem, mas entenderam que assim como as mulheres são diversos estilos de homens. As transformações das relações, das famílias nos levaram a pensar em outros papeis, outras “roupagens”. São outros pais, outros maridos, outros filhos…

O machismo e o conservadorismo ainda são problemas reais e preocupantes, mas há também uma parte que aponta uma abertura tanto do lado externo como o investimento na beleza, quanto nos sentimentos e papeis que até então eram muito engessados. No evento, além de uma exposição de fotografias, as grandes cabeças convidadas cutucam as velhas certezas.

Acredita que o “advento da cultura da barba” foi uma abertura para o homem brasileiro estar mais inserido e de certa forma ter mais produtos de beleza voltados para esse público?

A barba é um bom símbolo. Quando escrevi minha dissertação parti de uma capa de revista que trazia um homem de barba com um leão caminhando a frente, como no mito de Hércules que para cumprir com todos os desafios precisa se vestir com a pele do rei dos animais.

O resgate da barbearia traz o homem se vendo no espelho: é ao mesmo tempo o selvagem, o dandy, o lenhador e o príncipe. Os cortes e cores de cabelos, as próprias composições de moda das ruas…  É interessante entrar num ônibus e ver o motorista ou o trocador com a sobrancelha desenhada. É uma permissão que está ligada ao futebol, onde os jogadores posam no meio do jogo e adoram ostentar novos cortes de cabelos e grifes. Não é um fenômeno da elite, atinge todos os cantos do Brasil, das metrópoles até as cidades mais afastadas e desconhecidas.

Quais os principais desafios para atender esse homem de hoje?

São muitos, principalmente porque a busca deste entendimento não é promovida, qual outro evento sobre masculinidades você conhece?  Ainda encontramos resistência: “discutir masculinidades? Para quê? Homem é tudo igual” ainda ouvimos isto em 2018. Faz parte dos desafios de hoje, junto ao “empoderamento” feminino, todos precisam se entender.  Para os homens o medo de ficar “afeminado” é tão sério quanto os problemas com o assédio ou a violência sexual, então as questões de gênero são importantes sim.  Não é uma questão de uma área ou de outra, tem a ver tanto com a medicina, quanto com o design, com as ciências sociais, com os empresários. Mesmo quem detêm informação ainda carrega muitas ideias padronizadas e não discutidas. Estes desafios só serão superados quando dialogarmos com todas as áreas.

Enquanto criador da sua marca homônima, as coleções sempre chamam a atenção para o trabalho de modelagem e mix de referências. Acredita que os designers masculinos, de hoje, entraram em um certo comodismo?

As marcas são preguiçosas e medrosas, os consumidores já estão lá longe a nível de informação enquanto os fabricantes e comerciantes repetem velhas fórmulas. Os designers sofrem com isto, os mais criativos muitas vezes se frustram porque dependem do nível dos diretores comercias. Os designers autorais, que sustentam suas marcas sempre sofrem com a fabricação e distribuição, mas ao mesmo tempo temos hoje uma rede que torna possível a venda sem o espaço físico da loja. O comodismo é o medo de errar, o que não combina com o design. Todos os produtos e todas as faces do consumo precisam se arriscar para surpreender seus clientes, mas além das obrigações financeiras temos outros medos que vem da nossa educação, do que consideramos verdades absolutas e seguimos cegamente. Por outro lado, o repertório cultural é muito importante, a experiência digital pode ser muito superficial, o sujeito precisa também ter disposição para correr atrás das informações e inspirações.

 A indústria de consumo privilegia muito o jovem, tanto que existe uma forte preocupação em atender a geração Y e até mesmo a geração smartphone (nascidos após 1995). Os homens mais velhos foram esquecidos pela indústria?

Existe um espírito do tempo que traz a imagem do jovem, mas na real ele tem diversas idades, já que vivemos um momento “no age”. Veja os grandes concertos de rock: veja o palco, a plateia, há uma mistura grande. É claro que ainda temos uma sociedade que quer empurrar o sujeito depois dos sessenta para o vale dos esquecidos, mas vem um artista ou um tipo que você encontra na rua que apesar da sua idade esbanja a energia dita da juventude. Mas a geração Y traz características muito próprias: ela transita muito livremente dentro da sociedade tecnológica, seus relacionamentos são diferentes e suas expectativas estão confundindo muito os mercados. Eles estão todo tempo ligados, e pelo volume de imagens chegam a pensar que “conhecem” tudo: eles ajudam o Mercado a se mover, a correr atrás, porque não é fácil surpreendê-los.

No Estado vem crescendo muito a produção autoral e principalmente em pequena escala. Como consultor, quais dicas daria para os produtores de moda masculina?

A primeira edição especial do Homem Brasileiro é em Santa Catarina, isto não é a toa. Eu estou com o estado desde o início da minha carreira, meu primeiro emprego foi em Blumenau, sempre trabalhei com as empresas daqui, criei com Cristiano Burger o Santa Catarina Moda Contemporânea, dou aula em diversas pós-graduações, admiro muito a Universidade do Vale do Itajaí que recebe o evento. Observo e apoio a Criação de Moda e principalmente a masculina. Há empresas modernas com grande tecnologia e atenção ao humano, mas há também uma dificuldade de lidar com os novos desafios, que vêm de rupturas em anos e anos padronizados. Este evento é uma contribuição para que todos os designers, comunicadores, empreendedores se fortaleçam para expor suas ideias e suas criações espero que todos aproveitem as oportunidades de diálogos, de provocações que o Homem Brasileiro está trazendo. Para os jovens criadores: sempre a perseverança e a alegria de saber que estão criando não só seus produtos como suas histórias.

A programação completa do evento está disponível no site: www.homembrasileirosc.com.br/programacao-dialogos

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